Em tempos de Zika, porque ainda temos medo do Ebola?

Ebola

Em meio à tantas notícias preocupantes sobre o vírus Zika e possíveis impactos da sua infecção durante a gestação, como discutimos em nosso último post, nos surpreendemos no mês de novembro com o anuncio de mais um caso suspeito de Ebola no Brasil. Após meses de silêncio e de uma falsa sensação de que o vírus Ebola não era mais um problema mundial, eis que surge a dúvida: “é ebola ou não é?!”

Uffa, não foi! O caso suspeito se tratava de um paciente brasileiro que viajou para Guiné, país que ainda sofre com a epidemia causada pelo vírus Ebola. O paciente foi atendido no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) e, através de testes realizados pela própria fundação, a suspeita foi descartada. O paciente foi diagnosticado com malária e recebeu alta na manhã do dia 14/11.

Quer saber mais detalhes sobre o caso? Segue o link: http://www.fiocruz.br/ioc/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2449&sid=32

Mas Dotô, a epidemia de Ebola não acabou?

Não, meu caro paciente, a epidemia, que começou em março de 2014, já contabiliza cerca de 29 mil casos e mais de 11 mil mortes, seis países africanos e mais quatro países dos continentes Europeu e Americano. Apesar de um aparente controle, ainda existem alguns focos ativos da doença na África, como Guiné e Libéria.

Vamos focar na Libéria: A OMS havia anunciado no dia 03/09 o fim da transmissão do vírus Ebola na Libéria, onde a epidemia já deixou cerca de 4.000 mortos, com um total de 10.600 casos. A declaração foi feita após 42 dias sem casos no país. Porém, na última semana, três novos casos de ebola foram confirmados no país, depois de dois meses da Libéria ter sido declarada livre do vírus. O anúncio foi feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS), na última sexta-feira (20/11). Um dos casos confirmados foi de um garoto de 15 anos de idade, admitido em uma unidade de saúde na Libéria, no dia 19/11. Depois de diagnosticado, o rapaz foi transferido para um centro de tratamento de Ebola, juntamente com outros cinco membros da sua família. Os outros dois casos confirmados com ebola eram da família do rapaz: um menino de 8 anos e seu pai, que já estão em isolamento. Além da família, 149 contatos foram identificados até agora, incluindo 10 profissionais de saúde que tiveram contato próximo com o jovem de 15 anos antes do isolamento. As investigações para descobrir a origem da infecção estão em um estágio inicial.

Dotô essa epidemia vai ter fim? O Ebola pode ser erradicado?

Bem, é difícil prever um fim para essa epidemia, porque pequenos focos continuam aparecendo, além de casos esporádicos. O ressurgimento da doença já era esperado, provavelmente por um vírus persistente em um indivíduo convalescente, ou através da infecção a partir de animais silvestres. Lembrando que, apesar do Ebola ser transmitido de uma pessoa para outra, estamos falando de uma zoonose. Além disso, a fonte das infecções iniciais desse surto está associada a transmissão a partir de animais silvestres.

Por esse motivo, o Ebola não pode ser erradicado, pois não possuímos uma vacina eficaz para interromper a transmissão pessoa a pessoa, e o mais importante: por poder infectar outros animais além do homem, o vírus Ebola vai continuar na natureza. Não podemos falar de erradicação, mas sim de controle, e este controle deve ser focado na vigilância de casos suspeitos, não só nos países africanos, mas no mundo inteiro.

Sim, o vírus Zika é um problema grave de saúde pública, mas lembrem-se que o Zika foi introduzido na Copa de 2014 e as Olimpíadas vêm aí! Precisamos ficar de olho … o Dotô com certeza está antenado!

GLOSSÁRIO:

Zoonose: são doenças que podem ser transmitidas do animal para o homem e vice-versa, tanto através do contato direto com secreções ou excreções, quanto através da ingestão de alimentos contaminados de origem animal.

 

REFERENCIAS:

Organização Mundial de Saúde. Ebola report. http://apps.who.int/ebola/current-situation/ebola-situation-report-25-november-2015

Organização Mundial de Saúde. Update Libéria. http://www.who.int/csr/disease/ebola/flare-up-liberia/en/

Organização Médicos Sem Fronteiras. Informações sobre o ebola. http://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/ebola

 

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

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Dotô, tô grávida e com medo do zika, o que eu faço?

Zikagravida

Caras mamães, estamos aqui para informar e alertar sobre o vírus zika, que atualmente está circulando pelo Brasil e está causando um rebuliço só nas famílias brasileiras. Mas, o que acontece de verdade? Vou contar desde o início para quem não acompanhou as últimas notícias do mundo dos vírus.

Nos últimos três meses o Brasil registrou 399 casos de bebês recém-nascidos com microcefalia em 7 estados do Nordeste. O primeiro boletim divulgado no dia 17/11/2015 registra, só em Pernambuco, por exemplo, 268 novos casos. Já nos outros estados foram registrados: Sergipe (44), Rio Grande do Norte (39), Paraíba (21), Piauí (10), Ceará (9) e Bahia (8). Por causa desse aumento repentino, o Ministério da Saúde decretou no último dia 11 de novembro, Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional.

Mas o que é esse nome aí, Dotô? Micro o quê?

Microcefalia. É uma má formação detectada através da ultrassonografia do feto. Nesses casos, os bebês nascem com um cérebro menor do que o normal. Por exemplo, um bebê em tempo normal de gestação (que não seja prematuro) apresenta geralmente um perímetro de, pelo menos, 34 cm da cabeça. Já em casos de microcefalia, esses valores podem ser menores do que 33 cm, podendo causar algumas complicações neurológicas no bebê. Essa alteração pode ser causada por diversos fatores, como medicações, infecções por vírus e bactérias e até por radiação.

Mas e o Zika vírus com isso?

Inicialmente, gostaríamos de deixar claro que casos de microcefalia sempre ocorreram em nosso país e no mundo. O que chamou a atenção dos médicos e das autoridades foi o grande número de casos que começaram a ocorrer neste ano. Durante a revisão dos prontuários e históricos das gestantes e mães de bebês com microcefalia, observou-se que muitas delas relatavam ter apresentado febre e manchas pelo corpo, mas sem maiores alardes. Então os responsáveis apontaram a possível associação entre esses casos e vírus Zika, recém chegado no país em 2014.

A discussão ganhou ainda mais força com a divulgação dos resultados obtidos pelo Laboratório de Flavivirus da Fiocruz  (Rio de Janeiro), onde os pesquisadores detectaram a presença do material genético do vírus zika no líquido amniótico de duas gestantes da Paraíba cujos bebês tiveram a microcefalia confirmada pela ultrassonografia. E quando confrontaram o sequenciamento do material genético com o banco de dados de genes, descobriram que o vírus encontrado aqui é semelhante ao que circula pela Ásia. Confira a reportagem na integra aqui: (http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2015/11/deteccao-de-zika-no-liquido-amniotico-feita-pela-fiocruz-e-inedita-na-ciencia.html)

Mas atenção, não podemos dizer ainda que existe uma relação de causa e efeito, ou que todas as mamães que se infectarem com o zika vão ter bebês com microcefalia, e vice-versa. Mas sim que existe uma hipótese de que isso possa acontecer.

Esse estudo é muito importante em termos de saúde pública, e o que temos pra dizer agora pra todas as mamães grávidas que acompanham o blog do Dotô, e que ficam super preocupadas (com razão) é:

Na dúvida, se protejam.

Mantenham as portas e janelas fechadas ou com telas de proteção, usem calça e blusa de manga comprida e usem o repelente adequado para vocês, gestantes!

Se antes vocês tinham que se proteger da dengue, se protejam mais ainda. Também se informem, seja por aqui, seja pelo blog do Ministério da Saúde (www.blog.saude.gov.br/), e de outras fontes que sejam confiáveis, busquem se atualizar não só sobre infecções congênitas como a do vírus zika, mas também tantas outras que podem ser transmitidas para o seu bebê durante a gestação.

Façam o pré-natal, tenham todas as vacinas em dia, tenham cuidados na alimentação e usem bastante repelente, afinal, o vírus zika é transmitido pela picada do mosquito mais famoso do Brasil, o Aedes aegypti.

É só o que podemos dizer enquanto não temos novas novidades na pesquisa para as mamães mega ansiosas. Em breve voltamos com mais updates virais! Até mais!

Ficou na dúvida sobre os sintomas do zika vírus, o Dotô relembra: manchas na pele, conjuntivite e febre, acompanhado ou não de dores nas articulações.

REFERÊNCIAS:

Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (publicado dia 17/11/2015). Disponível em:
http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/20805-ministerio-da-saude-divulga-boletim-epidemiologico

Ministério orienta as gestantes sobre casos de microcefalia (publicado dia 13/11/2015):
http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/20692-orientacoes-as-gestantes-sobre-os-casos-de-microcefalia

IOC Fiocruz identifica a presença do zika virus em dois casos de microcefalia. Disponível em:
http://portal.fiocruz.br/pt-br/content/iocfiocruz-identifica-presenca-de-zika-virus-em-dois-casos-de-microcefalia

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Dotô é verdade que somos formados por microrganismos?

É verdade sim meu caro paciente. Nas últimas semanas tem sido veiculado em algumas mídias que cientistas descobriram o fato de parte do nosso código genético ser formado por bactérias, fungos, protozoários e vírus. Esses genes não apenas fazem parte do nosso código genético, como também são responsáveis por vários papéis importantes na formação do individuo e de seu metabolismo.

Mas como os cientistas chegaram a essa conclusão?

Como nós sabemos, animais da mesma espécie transferem o DNA para seus filhos (geralmente metade sendo da mãe e metade do pai, tirando algumas exceções), esse processo é conhecido como transferência vertical de genes (de pai para filho). Em vários microrganismos pode ocorrer o processo chamado de transferência horizontal de genes (HGT), processo no qual determinados seres vivos podem passar seus genes para outros individuos que estejam no mesmo ambiente. Esse processo é interessante, pois permite aos microorganismos adquirir genes que os tornam resistentes aos antibióticos ou que são capazes de trazer outras vantagens, de forma rápida. Em laboratório, esse processo é bastante importante, pois nos possibilita realizar a clonagem de genes. Então, o processo de HGT é bastante conhecido e desempenha um papel importante na evolução de microrganismos, sendo que 81% dos genes de individuos procarióticos parecem estar envolvidos com HGT em algum momento da evolução.

Além de microorganismos, o HGT também foi encontrado em animais mais simples que os humanos como a transferência de genes de: fungos para o piolho-da-ervilha e bactérias para insetos. Mas até o momento não se conhecia o HGT sendo transferido para animais superiores.

Para tirar essa dúvida, cientistas da Universidade de Cambridge, na Inglaterra analisaram o DNA de diferentes animais, como: moscas da fruta, nematoides, primatas não humanos e humanos. Se eles encontrassem alta similaridade de sequencia entre genes destes organismos e de outras espécies bem distantes evolutivamente, poderia indicar que esses genes, originalmente, não eram desses organismos.

E qual foi o resultado?

Os pesquisadores concluíram que o processo de transferência horizontal de genes acontece nos animais superiores, porém, de maneira discreta, onde boa parte dos genes parece estar envolvido no metabolismo. Nos seres humanos, por exemplo, foram encontrados vários genes relacionados ao HGT que desempenham uma variedade de funções como quebrar ácidos graxos ou ajudar as respostas anti-inflamatórias ou antimicrobianas. Além disso, foram encontrados genes que tem relação com o sistema ABO (origem bacteriana) e com a produção de ácido hialurônico (origem fúngica). Foram encontrados pelo menos 145 genes de outras espécies, totalizando menos de 1% dos genes encontrados em humanos, mas ainda assim um resultado bastante curioso. A maioria dos genes encontrados em humanos e identificados no estudo tem origem bacteriana e de protozoários, sendo encontrados ainda genes de fungos e vírus.

Mas esse blog não fala sobre vírus? Que genes foram encontrados que tinham relação com vírus?

Foram encontrados genes (potencialmente transmitidos por HGT) de vírus em moscas (Drosophila sp.) e em vermes (Caenorhabditis), além disso, foram encontrados mais de 50 genes de origem viral em primatas. Mas, não se sabe se a transferência ocorreu de vírus para primatas ou de primatas para vírus, deixando uma dúvida no ar.

É só isso que você vai falar sobre vírus? Continuo a perguntar, esse blog não fala sobre vírus? Estou achando que tem a mão dos comunistas do PT.

Ahhhn, PT? Esse blog não tem haver com o governo (ainda, esperem até o ano que vem) e nem com passeata nenhuma de: Fora Dilma!!!! ou Fora elite coxinha!!!! Na verdade, a parte mais interessante desse post foi deixado para o final. O HGT não é a única maneira de transferência de genes. Existe outra maneira simples e que faz parte do ciclo de vida de determinados vírus, os retrovírus endógenos (também chamados de HERVs).

Os HERVs são vírus humanos que fazem parte dos grupos dos retrovírus junto com o vírus da AIDS e do HTLV. O código genético dos retrovírus tem, como parte do seu ciclo de vida, a habilidade de se integrar ao DNA celular (passando a se chamar partícula proviral). Agora pense comigo, meu caro paciente. Temos dois tipos de células em nosso corpo, células somáticas (células que não estão envolvidas na reprodução) e células germinativas (ou reprodutivas). Se o vírus infectar as células somáticas, essas células não são transmitidas para a descendência do hospedeiro, pois não estão envolvidas na reprodução (esses vírus são chamados de retrovírus exógenos). Mas e se determinado retrovírus infectar as células germinativas? E se essa célula germinativa (como um espermatozoide, por exemplo) se encontrar com a célula germinativa de outro individuo (como o óvulo, por exemplo) e elas formarem outro individuo? Se isso ocorrer, o retrovírus vai ser transmitido de uma geração para outra (ou seja, transmissão vertical).

Agora, digamos que essa partícula proviral nunca se liberte do DNA celular e não se replique como um vírus? O que temos? Um grupo de genes virais integrados ao DNA do individuo que pode ser passado de pai para filho. É o que acontece com os HERVs. Uma boa parte do nosso genoma é formado por HERVs que não formam partículas virais e fazem parte essencial do nosso DNA. Ou seja, nós somos formados por vírus, nós somos parte vírus também.

Parece ficção cientifica, não parece? Mas é verdade. Há anos vários pesquisadores têm encontrados códigos genéticos inteiros de HERVs integrado ao nosso DNA. E, mais do que isso, conseguiram fazer esse código genético formar proteínas e, consequentemente, formar partículas virais completas que podem se reproduzir normalmente como qualquer outro vírus. Demonstrando que o código genético dos HERVs ainda pode formar novos vírus infectantes. Mas não se desespere, pois se isso não acontece por centenas de milhares de anos de evolução, não deve acontecer agora não é mesmo?

Mas parece que alguns HERVs podem ter efeitos negativos no hospedeiro quando ocorrem circunstâncias incomuns. Estudos demonstraram que os retrovírus endógenos mais jovens (ou seja, integrados ao DNA do hospedeiro a pouco tempo na escala evolutiva) podem estar associados com doenças em gatos, coalas e pássaros. Já foi proposto que os HERVs podem estar envolvidos com esclerose múltipla e esquizofrenia em humanos.

O mais interessante é que esses vírus (até agora já foram descobertos mais de 100 tipos) estão relacionados com a produção de várias proteínas importantes evolutivamente para a formação dos animais e dos seres vivos. Só para se ter uma ideia, já se sabe que sequencias dos vírus HERVs podem estar associados com a formação das células multicelulares, ou seja, se não fossem eles, não existiriam toda a diversidade de seres vivos que existem hoje, só teriam os microrganismos unicelulares. Eles também estão associados com a formação de placenta na reprodução de mamíferos, então imaginem vocês que sem os HERVs não existiriam mamíferos. Por fim, eles estão associados à formação dos olhos e a cada novo estudo vão sendo encontradas novas associações de HERVs com o metabolismo e constituição dos seres vivos.

Viram só? Os microrganismos e, principalmente, os vírus são parte integrante do nosso DNA e sem eles a humanidade e todos os seres vivos não seriam o que são hoje. A evolução, como dita por Darwin, não teria saído do papel (na verdade, não teria como ter saído do papel mesmo, pois não teria nenhum humano para descrever a teoria da evolução).

Então, quando você estiver pensando que os vírus só fazem mal para humanidade, lembre-se que uma parte bastante importante de você é formado por vírus (e por outros microrganismos) e que sem eles, sua vida não existiria.

 

GLOSSÁRIO:

Clonagem de genes: Também chamado de clonagem molecular. Processo de engenharia genética utilizado em biotecnologia em que se cria cópias de fragmentos de DNA em microorganismos para formar múltiplas cópias da proteína alvo.

Procarióticos: Também chamados de procariontes ou procariotas. Individuos unicelulares que não possuem membrana delimitando suas organelas. São constituídos por Bactérias e Arqueobactérias.

Sistema ABO:  Grupo sanguíneo classificado pela presença ou ausência de aglutinação dos glóbulos vermelhos (hemácias). Essa aglutinação ocorre pela reação de anticorpos específicos à antígenos encontrados na superfície das hemácias. Os grupos se dividem em : A (presença de antígeno do tipo A), B (presença de antígeno do tipo B), AB (presença do antígeno A + presença do antígeno B) e tipo O (ausência de antígenos A e B).

Ácido hialurônico: Substância existente no líquido sinovial, humor vítreo e no tecido conjuntivo. Importante na articulação, hidratação e elasticidade da pele, responsável pela forma dos olhos dentre outros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Microbiology World. Humans are all a bit genetically modified. Disponível em: http://microbiologyworld.com/humans-are-all-a-bit-genetically-modified/. Acessado em 20/03/2015

ERV. Disponível em: http://endogenousretrovirus.blogspot.com.br/2006/09/more-syncytia-sweetness.html. Acessado em 20/03/2015

Ryan, F. Virolution. Editora: Harper Collins Publishers. 2009

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Dotô, a epidemia do filme Contágio pode virar realidade?

filme contagio

O Dotô está aqui hoje para discutir um dos seus filmes preferidos sobre epidemias virais na atualidade. Se você nunca viu o filme, cuidado! Não leia esse post, pois ele contém spoilers! Vamos discutir aqui qual o objetivo desse filme, quais foram as ferramentas utilizadas, pontos altos e baixos, e fazer uma reflexão se, afinal, a epidemia do filme Contágio pode ou não virar realidade?

 Dotô, qual o objetivo do filme Contágio?

 O filme tem como objetivo divulgar a ciência e seus impactos na nossa realidade. O diretor buscou mostrar o universo científico que envolve uma epidemia de origem desconhecida e todas as etapas de vigilância epidemiológica da descoberta do agente responsável, neste caso um novo vírus, sua transmissão, o pânico gerado, e a produção de uma vacina.

 Mas Dotô, o que o diretor fez de diferente nesse filme?

 Elaborar um filme sobre uma epidemia fictícia é uma tarefa árdua. Com os avanços cada vez maiores da ciência e tecnologia e com os recursos audiovisuais disponíveis, aliados a um público cada vez mais exigente, os diretores de cinema se unem a pesquisadores científicos (como pesquisadores do Centro de Controle de Doenças – CDC) para fazer um filme de ficção científica com um apelo que se assemelha à realidade. E foi assim que aconteceu no Filme Contágio: muita pesquisa foi feita para torna-lo ultrarrealista, como a inspiração dos roteiristas em vírus reais para criar um vírus fictício, chamado de MEV-1. Assistir a este filme claramente nos remete a outro filme clássico, Epidemia (1995), (veja o nosso post sobre esse filme aqui) que retrata uma história de ficção científica sobre uma epidemia causada por um vírus letal, semelhante ao vírus ebola, causador de febre hemorrágica viral, altamente letal.

Remetendo a uma reportagem da Revista Veja, “Estamos preparados para enfrentar um vírus igual ao do filme Contágio?”, (2011), o Jornalista Jones Rossi aborda justamente a possibilidade desse contexto cinematográfico do filme se tornar uma realidade. O autor dá exemplos dos vírus mais perigosos do mundo, como o vírus da gripe, varíola, ebola, marburg, etc. Ao lermos o texto escrito por Jones Rossi e se o compararmos com o filme, vemos algumas semelhanças com a realidade, mas precisamos ser críticos com esse filme de ficção científica.

 Dotô, quais são os pontos altos do filme?

  A iniciativa do filme em retirar os cientistas da “torre de marfim”, simbolizada pelos prédios do CDC e da Organização Mundial de Saúde (OMS) e mostrá-los como pessoas reais, que erram, com sentimentos, que também podem ficar doentes e até morrer, é de extrema importância para desmistificar a visão da população quanto ao profissional da ciência. Os Dotôres não são pessoas antissociais e malucas, eles são normais, possuem famílias, amigos e os mesmos problemas que todo mundo tem.

No filme, os detentores do conhecimento seriam os centros de investigação científica, e a população em pânico sofreria com esse déficit do entendimento da epidemia, ansiosos por uma explicação do que estava acontecendo. Essa película também retrata de maneira fidedigna o caos gerado por uma pandemia desconhecida, com a instalação do pânico e inclusive a divulgação de informações errôneas, como o jornalista fanático que escrevia em um blog, dizendo descobrir uma medicação eficaz contra o vírus. O filme, de maneira criativa, demonstra o vírus se espalhando na população, desde o primeiro caso (caso índice). Porém, deixa somente para o final como esse vírus teria atingido os humanos, o que permite ao telespectador criar diversas hipóteses de como a primeira pessoa a ficar doente teria se infectado. O filme retrata que a necessidade de informações sobre ciência por parte da população são maiores em momentos de crise (nesse caso, a crise seria a epidemia do MEV-1), quando os próprios cientistas estariam incertos quanto aos fatos, pois a “ciência” estava sendo construída (os cientistas estavam pesquisando qual era a causa de tantas mortes).

 Dotô, quais são os pontos baixos do filme?

  O tempo entre a descoberta do vírus e a fabricação da vacina foge à realidade. Apesar de já termos ferramentas disponíveis que nos permitem fazer a descoberta de novos microrganismos, essas ferramentas estão limitadas aos grandes centros de referência, por serem locais onde são mantidos laboratórios aptos a manipular esses patógenos, chamados de Laboratórios de Nível de Segurança 4 (NB4). Por ser um filme norte-americano, observa-se um forte apelo na “propaganda” do CDC, não foi à toa que esse filme teve recorde de bilheteria nos EUA na época de estreia. Além disso, sabe-se que o tempo de aprovação de uma vacina é longo, geralmente são necessários 10 anos de estudos clínicos e uma forte injeção monetária das indústrias farmacêuticas para torná-la comercial. Porém, quando o risco de morte é iminente (como no filme), etapas acabam sendo deixadas de lado, podendo gerar muitos efeitos colaterais. Um exemplo de vacina que é produzida anualmente em apenas seis meses é a vacina da gripe, para ser aplicada na população de risco, e que contribui diminuindo a taxa de mortalidade, principalmente em idosos, mas que está fortemente associada à efeitos adversos nessa faita etária.

Muita gente diz que não gostou do filme por não ser cheio de emoções, sendo semelhante a um documentário, ficando sem entender algumas partes. Mas, olhando cientificamente, foi exatamente o fato de parecer um documentário que fez o Dotô gostar tanto do filme.

Dotô, qual o público-alvo do filme?

 Pessoas que frequentam o cinema, que alugam o DVD, ou que baixam filmes. A classificação indicativa do filme é de 12 anos, embora o ideal seja uma classificação de 16 anos. Por se tratar de um filme mais técnico, sugere-se utilizá-lo como objeto de estudo entre estudantes universitários, das mais diversas áreas, seja de comunicação ou de saúde. Também pode ser aplicado em contextualização com grupos de discussão sobre o tema que permitindoum diálogo mais voltado para a realidade da nossa população eque inclusive possam englobar a conversa com especialistas multidisciplinares para esclarecer as dúvidas e decodificar alguns aspectos técnicos do filme.

Trazendo o filme para a nossa realidade, em 2014 e 2016, o Brasil como um todo e em especial, o Rio de Janeiro, será palco de eventos esportivos, a Copa do Mundo, e as Olimpíadas. Porém, atualmente, nós não temos uma estrutura de hospitais públicos de qualidade para lidar com doenças emergentes que se disseminem pela população, importadas de outros países, por isso, o Brasil não está preparado para enfrentar um vírus igual ao do  filme, nossa estrutura não permite atender aos pacientes e a taxa de letalidade seria elevada. Infelizmente, precisaríamos de ajuda externa para lidar com a situação. Os governos atuais não levaram a saúde como premissa de atuação, e acabaram confirmando a hipótese do jogador Ronaldo de que Copa se faz com estádios e não com hospitais. As consequências dessa escolha estão presentes no dia-a-dia da população, independente da existência de uma epidemia viral: morte da população por descaso, falta de atendimento, filas e falta de estrutura. Essa é a realidade. O Dotô recomenda a todos os seus pacientes que assistam ao filme em casa, com amigos e famílias, e que discutam com seus colegas sobre esse tema após o filme. O assunto pode ser muito enriquecedor!

 Trailer do filme:

GLOSSÁRIO:

 

Caso índice: É o primeiro caso que chama a atenção do investigador pelo que determina uma série de ações necessárias para conhecer um foco de infecção.

Centro de Controle de Doenças – CDC: Órgão norte-americano localizado em Atlanta responsável pelo controle e vigilância de doenças infectocontagiosas.

 

Laboratórios de Nível de Segurança 4 (NB4): Laboratórios de Nível de Biossegurança 4 são utilizados para pesquisa e diagnósticos que envolvam agentes exóticos e perigosos que exponham o indivíduo a um alto risco de contaminação de infecções que podem ser fatais, além de apresentarem um potencial relevado de transmissão por aerossóis, classificados como microrganismos da classe de risco 4.

 

BIBLIOGRAFIA:

 Filme Contágio (2011), dirigido por Steven Soderbergh.

ROSSI, JONES. Estamos preparados para enfrentar um vírus igual ao do filme ‘Contágio’? Revista Veja, 2011. Disponível em:

http://veja.abril.com.br/noticia/saude/estamos-preparados-para-enfrentar-um-virus-igual-ao-do-filme-contagio#amea%C3%A7a

 

 

 

Corram para as colinas, o vírus Ebola está de volta!

 

O Dotô vai explicar o que esta acontecendo na Guiné e o porquê do pânico relacionado a esse vírus.

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Surto na Guiné

     Desde o final do mês de março casos de infecções causadas pelo vírus Ebola vem sendo registrados na África, a maioria ocorrendo na Guiné. Em aproximadamente 15 dias, 208 casos clinicamente compatíveis foram reportados às autoridades de saúde locais, onde cerca de 60% dos pacientes vieram à óbito. O surto se iniciou na região sudeste do país, mas logo se expandiu para a capital. Os casos têm ocorrido em todas as faixas etárias e em ambos os sexos. Mais de 623 contactantes foram rastreados e estão sob acompanhamento médico e 23 indivíduos encontram-se em isolamento.

     O Ministério da Saúde do país junto com a Organização Mundial de Saúde (OMS) instituíram campanhas em massa veiculadas através da mídia local (rádio e TV), redes sociais e até mensagens de texto. As amostras de casos suspeitos estão sendo enviadas para laboratórios especializados que compõe a rede de patógenos emergentes e perigosos situados na África e na Europa.

      Alertas têm sido gerados principalmente aos viajantes daquela região. A preocupação é de que o surto se dissemine para outros países. Casos importados foram identificados na Libéria (30 casos suspeitos), Mali (quatro casos suspeitos) e Serra Leoa com 19 casos suspeitos. Um caso suspeito no Canadá e outro em Gana foram logo descartados, assim que os testes laboratoriais mais específicos foram realizados.

 Boletins diários contendo as informações sobre o surto na Guiné são emitidos no site da OMS: http://www.who.int/csr/don/archive/year/2014/en/

O porquê de tanto pânico Dotô?

      Meu caro paciente, o vírus Ebola é constantemente associado com medo e pânico, devido à sua alta taxa de letalidade, cerca de 90%, ou seja, aproximadamente 90% dos indivíduos infectados vão a óbito. O vírus pode ser transmitido de uma pessoa para outra através do contato com sangue e secreções (saliva, urina, fezes e sêmen) provenientes de indivíduos infectados. Uma das características marcantes da doença causada por esse vírus é o sangramento interno e externo que ocorre em alguns casos. Não existe um tratamento específico ou uma vacina.

      Apesar da febre hemorrágica causada pelo vírus Ebola ser considerada uma zoonose, o animal responsável pela transmissão e disseminação desse agente ainda não foi reconhecido. Acredita-se que morcegos frutívoros sejam os prováveis reservatórios naturais deste vírus, mas primatas não humanos, antílopes e suínos já foram encontrados infectados. Sendo assim, não se sabe ao certo como o homem adquire a infecção.

     Este vírus possui um histórico um tanto quanto sinistro, onde aldeias inteiras foram dizimadas durante surtos ocorridos nas primeiras décadas após sua identificação. Um total de 2.387 casos de febre hemorrágica por Ebola, com 1.590 mortes foram registradas de 1976 a 2012 na África Central. Somado a esses fatores, estão a dificuldade de contenção desde vírus, assim como o grande numero de profissionais de saúde que se infectam a partir do contato com os doentes e suas secreções.

      Um exemplo desse pânico pode ser visto em países vizinhos à Guiné, como o Senegal, onde a população já evita contato próximo como o apertar de mãos. Comerciantes de produtos oriundos da Guiné encontram dificuldades em vender seus produtos e os hospitais já se encontram em alerta para isolar qualquer paciente que apresente sinais e sintomas compatíveis com a doença.

        Bem meus caros pacientes, deixo prescrito para vocês apenas uma boa dose de reflexão sobre a fragilidade das unidades de saúde e da população em geral frente às doenças virais de alta letalidade como o vírus Ebola. Adicione a isso a proximidade da copa do mundo e a diversidade de microrganismos que podem ser trazidos pelos jogadores e, principalmente, torcedores de diversas nacionalidades e a facilidade de se deslocar de um país a outro em questão de horas. Pensem no numero de agentes virais que podem chegar ao Brasil?!

Será que estamos preparados? Fica a reflexão!

GLOSSÁRIO:

Contactantes: indivíduos que tiveram contato com um indivíduo doente.

Zoonose: doenças que são transmitidas dos animais para o homem.

Frutívoros: se alimentam de frutas.

Dotô é verdade que vacina faz mal?

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Claro que não meu caro paciente, a vacinação lhe protege das infecções causadas por patógenos invasores como vírus e bactérias. Essa história de que vacina faz mal e que não se deve ser vacinado tem relação com alguns enganos sobre a vacinação.

O conceito de vacinação começou no século XVIII quando Edward Jenner, um médico britânico, observou que em epidemias de varíola as ordenhadoras de vacas pareciam não se infectar com o vírus. Muito intrigado com o assunto, Jenner resolveu olhar mais de perto Ele percebeu então que muitas vacas ordenhadas apresentavam pústulas, semelhantes às da varíola humanas (que era causada por um vírus parecido com a varíola humana, chamado de vaccínia ou varíola das vacas), e, que uma vez que as ordenhadoras entravam em contato com as lesões das vacas durante a ordenha, elas desenvolviam uma forma branda da doença, o que conferia imunidade à essas trabalhadoras.

Após se certificar da causa da imunidade das ordenhadoras, Jenner realizou uma experiência bastante arriscada. Ele inoculou a linfa que saia das lesões da ordenhadora de vacas Sarah Nelme num menino, James Phillip. Jenner observou no garoto apenas febre e mal-estar. Jenner, não satisfeito, resolveu repetir a dose, inoculando mais uma vez a linfa de uma lesão variolosa no menino, mas este resistiu e não apresentou a doença. A partir daí, novos estudos e novas vacinas apareceram, o que diminuiu e muito a quantidade de doenças infecciosas, como sarampo e difteria.

Resumindo, a vacinação consiste em inocular no organismo sadio o agente patogênico, parte desse agente ou ainda suas toxinas (alteradas para não causar a doença) para induzir a resposta imune e neutralizar a ação do patógeno invasor vindo de uma cepa “selvagem”. No caso do tratamento com o agente patogênico, há dois tipos de vacina: (i) vacinas que utilizam o patógeno morto (vacinas inativadas) e (ii) vacinas que utilizam os patógenos vivos atenuados (vacina atenuada).

As vacinas inativadas oferecem proteção apenas por um tempo limitado, devido ao organismo que o compõe não ter capacidade de multiplicação, ficando exposto dessa forma à uma parcela pequena de células do sistema imune, o que leva à utilização de doses de reforço (3-5 doses), como o que ocorre com a vacina contra hepatite A e uma das vacinas contra pólio, chamada de Salk (não é a vacina do Zé Gotinha).

A vacina atenuada é constituída de agentes infecciosos obtidos através da seleção de cepas selvagens por meio da passagem do patógeno várias vezes em meio de cultura especiais ou em diversos hospedeiros ou ainda a partir de manipulação genética. Essa vacina confere imunidade à longo prazo (possivelmente por toda a vida) pois o patógeno se multiplica, tornando desnecessárias, ou menos frequentes, as doses de reforço. Mas aí é que está um dos grandes problemas da vacinação. Essas vacinas atenuadas são formadas de organismos vivos que, podem produzir sintomas brandos como febre ou até sintomas mais graves por toda a vida, principalmente em indivíduos com imunodepressão, gestantes e que usam corticosteróides ou imunossupressores.

            Os efeitos da vacinação são bastante variados e dependem do tipo de patógeno e do indivíduo. Os efeitos colaterais mais encontrados são febre, mal-estar e dor no local da inoculação. São encontrados ainda efeitos como: artralgia na vacina da rubéola, convulsões na vacina anti-pertussis (coqueluche), sobretudo após os seis anos de idade (por isso que a vacina tríplice formada por difteria, tétano e coqueluche é, atualmente, contra-indicada após esta idade). São extremamente raros os quadros de reação alérgica. Além disso, existem raros registros de casos de síndrome de Guillain-Barré (01 a 02 casos em 100.000) ocorridos pós-imunização. Lembram que falamos da vacina da poliomielite, a Salk formada por vírus da pólio inativados? Pois é, existe também a vacina Sabin contra a poliomielite. Essa vacina todo mundo conhece, é a vacina que toda criança toma no Brasil contra a pólio, a vacina do Zé Gotinha. Mas essa vacina tem um problema, embora bastante raros, existem casos em que essa e outras vacinas formadas de vírus atenuados podem provocar a doença que veio imunizar, geralmente em forma branda, por vezes em forma grave. No caso da vacina do Zé Gotinha ocorre um fato curioso, essa vacina causa a maior parte dos casos de pólio conhecidos no mundo.

Mas aí você me pergunta: Se a vacina pode causar esses sintomas e até causar a doença, porque eu devo me vacinar? Primeiro você deve pensar que a maior parte das doenças que nós não encontramos mais em uma boa parte dos indivíduos (como rubéola, sarampo, poliomielite e febre amarela) há alguns anos matavam, e muito, os indivíduos que entravam em contato com esses vírus, mas com o aparecimento dessas vacinas, a quantidade de indivíduos infectados diminuiu consideravelmente. Em segundo lugar, a vacinação tem efeito profilático (pode prevenir o aparecimento de doenças em determinada população) em grandes populações, pois ao se vacinar o individuo não se infecta pelo patógeno e consequentemente não passa o patógeno adiante, encerrando o ciclo de infecção de determinado patógeno. Podemos citar dois casos importantes de vacinação profilática: a varíola (encontra-se erradicada do mundo, a ponto de sua vacinação não ser mais recomendada) e a poliomielite (está perto de ser erradicada, sendo encontrado em poucos lugares do mundo).

            E em relação às pessoas que não querem se vacinar. Existem algum motivo além dos sintomas (e do medo de agulha) para alguém não querer se vacinar? Lógico que existe. Dentre eles podemos listar o medo de que as novas vacinas que estão sendo produzidas e lotes antigos estejam sendo utilizados pelo governo para esterilizar países de terceiro mundo, de que as vacinas não protegem contra a infecção pelo patógeno e que estejam sendo produzidas para enriquecer os bolsos de empresas farmacêuticas, de que tenham sido produzidas por extraterrestres para marcar determinados humanos (quem viveu os anos 90 e viu arquivo-X vai se lembrar), dentre outros “medos”. Alguns médicos, que se denominam antroposóficos, consideram que as doenças infantis têm a função de fortalecer o sistema imunológico.

Um fator que é discutido entre os ativistas anti-vacinação é o de que as vacinas não curam doenças e sim são em muitos casos a causa da doença ou a doença é causada por problemas psicológicos, de ordem alimentar ou físicos e que por isso não são causadas por patógenos, podendo ser tratados com alimentação adequada, pratica de exercícios, dormir bem e evitar hábitos agressivos à saúde (álcool, fumo, drogas), a poluição ambiental e as situações estressantes. Essa teoria vem sendo discutida desde a época de Jenner (aquele companheiro médico que cunhou o termo vacinação, lembra dele?). Para esses ativistas também não existem dúvidas de que há uma relação causal entre o grande número de vacinas recebidas pelas crianças e doenças autoimunes como artrite, diabetes, asma e alergias. Estes afirmam também que as vacinas começaram a ser usadas quando as principais doenças infecciosas já estavam em declínio, vencidas pelas defesas naturais do organismo, ou seja: a erradicação das doenças seria resultado de fatores como a redução da pobreza, a melhoria da alimentação e das condições de higiene e de saneamento a partir da segunda metade do século XIX, e não uma consequência direta da vacinação. Além disso, há a questão religiosa. Na Europa, em países onde predomina o calvinismo, pais deixam de vacinar seus filhos, pois acreditam que vacinar seus filhos é ir contra o plano de Deus, por isso deixam de vaciná-los contra o sarampo, o que é extremamente preocupante pois aos poucos vem aparecendo novos surtos de sarampo na Europa. Aqui no Brasil os Testemunhas de Jeová, tem reservas sobre a vacinação, mas o interessante é que, diferente do que se pensa, as decisões sobre as imunizações passivas cabe à consciência de cada um decidir se aceita ou não o tratamento para ele e para sua familia (segundo o entendimento de lideres da religião).

            Mas e se eu não quiser me vacinar, quais são as alternativas? Sinceramente, meu caro paciente, eu não vejo muitas alternativas à vacinação, mas vamos citar algumas:

1 – Em relação a algumas doenças, você pode usar alguns farmacos anti-virais, como é o caso da infecção pelo vírus Influenza (gripe)

2- Médicos homeopatas acreditam que a imunidade pode ser obtida através de nosódios. Os nosódios são remédios preparados a partir do agente patogênico e apresentados como uma medida de controle da epidemia. Mas não existem estudos prévios que assegurem uma proteção individual e coletiva e que justifiquem sua utilização em massa.

3 – Vacinas de DNA em que você não tem o patógeno nem morto e nem atenuado, apenas o material genético do patógeno.

            Depois de tudo isso eu acredito que você já tenha uma idéia se a vacina faz bem ou mal. Por um lado existem casos em que a vacinação pode trazer efeitos colaterais, podendo até ocorrer o aparecimento da doença, mas esses casos são extremamente raros. Por outro, se vacinar não é apenas se proteger contra determinada doença e sim proteger outras pessoas. Então, se vacinar não é uma opção pessoal e egoísta, se vacinar é uma questão de cidadania e amor ao próximo.

 E, com vocês o astro da vacinação do Brasil, nosso querido ZÉ GOTINHAAAAA….

GLOSSÁRIO:

Artralgia: Dor em uma ou mais articulações do corpo.

Doenças auto-imunes: Doença que ocorre com uma falha no sistema imunológico levando ataque e destruição de tecidos saudáveis do corpo por engano.

Imunodepressão: Diminuição ou supressão das reações imunitárias do organismo que pode ter origem infecciosa ou ser obtida por meios terapêuticos.

Patógenos: Microorganismos que são capazes de causar uma infecção, podendo causar ou não sintomas brandos ou graves, podendo levar até à morte.

Síndrome de Guillain-Barré: Doença auto-imune caracterizada por uma inflamação aguda causada por auto-anticorpos contra sua própria mielina (membrana de lipídeos e proteína que envolve os nervos e facilita a transmissão do estímulo nervoso) dos nervos periféricos e às vezes de raízes nervosas proximais e de nervos cranianos (nervos que emergem de uma parte do cérebro chamada tronco cerebral e suprem às funções específicas da cabeça, região do pescoço e vísceras).

Dotô, os vírus são os menores microorganismos conhecidos?

Isso era o que nós, Dotôres de elite, achávamos há bem pouco tempo meu caro. Mas, como as pesquisas não param, nos últimos tempos foram descobertos grupos de vírus que podem ser considerados maiores do que as menores bactérias e, alguns destes, conseguem ser visualizados no microscópio ótico podendo até serem confundidos com bactérias.

      Essa historia de que os vírus não são tão pequenos como se imaginava começou a mudar em 1992, com a descoberta de um vírus chamado Mimívirus, um vírus que infecta as Acanthamoebas. Só para lembrar aos pacientes, os vírus podem ser encontrados em qualquer lugar do mundo, infectando qualquer ser vivo, dentre eles cachorros, bactérias, moscas, aquele cantor de sertanejo chato, o Dráuzio Varella e até outros vírus. O Mimívirus não deixa de ser diferente, além de infectar as Acanthamoebas, são vírus encontrados em sistemas de ar condicionado e podem ser a causa de várias pneumonias pelo mundo afora em que não se consegue encontrar o microorganismo causador. Inicialmente, esses vírus eram considerados bactéria, pois conseguiam ser visualizados em microscópio ótico. Um fato bastante interessante é que inicialmente se tentou fazer uma coloração de Gram, técnica que se utiliza para diferenciar as bactérias, sendo classificado como uma bactéria gram-positiva de um novo grupo bacteriano chamado de “Bradfordcoccus”, devido ao distrito de Bradford na Inglaterra onde foi recolhida a Acanthamoeba. Dez anos depois (em 2003) foi publicado um artigo, identificando esse microrganismo como um vírus. Além do tamanho, esse microrganismo foi classificado como bactéria, pois sua complexidade genética era bastante alta, além de ter a capacidade de produzir proteínas pelos seus próprios meios e reparar seu próprio genoma, propriedades nunca vistas em outros vírus. A partir da descoberta do mimivírus, outros vírus tão grandes quanto (ou maiores) foram aparecendo, sendo classificados na família dos vírus gigantes Megaviridae. Esses vírus são encontrados geralmente em corpos de água no ambiente e em sedimentos associados no mundo todo (onde se encontram Acanthamoebas).

Mas, Dotô, porque os mimivírus são tão diferentes e tem essa alta complexidade genética?

      Que bom que você perguntou meu caro paciente. Inicialmente, se imaginou que os mimivírus podem ter adquiridos alguns genes de seu hospedeiro celular. Tá, até aí tudo bem, mas com o aumento dos estudos desses microorganismos, se descobriu que os genes dos mimivírus são diferentes dos seus hospedeiros e outras células. Então, aparece uma hipótese que dizia que os mimivírus descenderam de uma célula de vida livre que gradualmente perdeu a maior parte de seus outros genes ao ir se transformando em um indivíduo que parasita outros organismos. Essa hipótese sugere que o mimivírus precursor representa um desconhecido ramo da vida que existiu no passado da Terra. E que esse ramo se transformou nos mimivírus.

      Hipótese interessante, não acham? Imagina se os vírus se originaram de outros seres vivos. Será que é verdade?

      Na verdade essa hipótese foi embalada com a descoberta nesse ano (2013) de um grupo de vírus maiores do que os Megavírus descobertos anteriormente. Esses vírus foram isolados da camada de sedimentos marinhos da costa central do Chile (esse vírus passou a ser chamado de Pandoravirus salinus) e da lama do fundo de um lago perto de Melbourne na Austrália (vírus Pandoravirus dulcis). São vírus extremamente grandes e que não apresentam similaridade com nenhum microrganismo descrito anteriormente. Por isso foram classificados no gênero “Pandoravirus” da família Megaviridae. Esses vírus, dentre suas características únicas, não possuem o gene responsável pela produção da proteína do capsídeo, que, normalmente forma uma cápsula em volta dos vírus, os protegendo. Ao se fazer o sequenciamento genético desses vírus, se descobriu que 93% dos genes dos Pandoravírus não parece com nada conhecido até o momento, sua origem não pode ser ligada à qualquer linhagem celular conhecida, o que sugere ainda mais a existência de um quarto domínio da vida desconhecido até o momento. Sabe aquela história que conversamos acima sobre os mimivírus terem vindo de um ramo da vida desconhecido até o momento? Então, os Pandoravírus apareceram para trazer mais um ponto a favor dessa hipótese.

     Então fica a dúvida. Será que existiu um domínio dos seres vivos que foi simplificando, perdendo seus genes e se transformando no que conhecemos hoje em dia como vírus? Será que os vírus não são apenas outro domínio da vida? Será que existe algum indivíduo desse domínio escondido pelas curvas do mundo? Será?Será? São tantas dúvidas que o Dotô vai até descansar um pouco porque ficou com dor de cabeça.

GLOSSÁRIO:

Microscópio ótico: Instrumento usado para ampliar estruturas pequenas à partir do olho nu. Sua ampliação não é capaz de visualizar vírus, exceto os vírus da família Megaviridae.

Acanthamoebas: Gênero de protozoários ameboides encontrados no solo e, frequentemente, em água doce. Muitas espécies são de vida livre, mas algumas podem infectar o homem.

Drauzio Varella: Individuo da espécie dos Dotôres que acha que tem o conhecimento sobre toda a medicina atual e mundial. Se considera o “Hipócrates moderno”.

Coloração de Gram: Tipo de coloração que utiliza diferentes corantes para diferenciar as bactérias em bactérias Gram-negativas e bactérias Gram-positivas de acordo com propriedades da parede celular desses microrganismos.

Pandoravírus: Grupo de vírus com maior tamanho conhecido até o momento. Tem esse nome, pois seus descobridores acreditam que, com a descoberta desse vírus, eles possam ter aberto a “caixa de Pandora” da virologia, que é a descoberta de como os vírus apareceram.

Sequenciamento genético: O sequenciamento de DNA é uma série de métodos bioquímicos que têm como finalidade determinar a ordem das bases nitrogenadas adenina (A), guanina (G), citosina (C) e timina (T) da molécula de DNA. Com isso podemos montar a sequencia do genoma de qualquer individuo.

Domínio (biologia): Designação dada em biologia ao táxon de nível mais elevado utilizado para agrupar os organismos numa classificação científica. O domínio agrupa os diferentes reinos, sendo a mais inclusiva das divisões taxonômicas em que se dividem.

Agora uma musiquinha do grande trio mexicano Pandora. Essa é para quem gosta da novela “A Usurpadora”