Dotô, a vacinação pode acabar com o câncer?

Parece que sim. Mas, por enquanto, apenas por cânceres causados por alguns tipos de Papilomavírus ou HPV.

HPV

Dentre os vírus, existem alguns que causam câncer. Esses vírus são chamados de vírus oncogênicos. Eles têm a habilidade de transformar células normais do seu corpo em células cancerígenas que podem se multiplicar indefinidamente, como no câncer. Um dos vírus oncogênicos mais importantes é o HPV. Esse vírus é dividido em 140 subtipos (nesse caso, chamados de genótipos), sendo que cada genótipo infecta uma parte diferente do corpo (dentre células epiteliais e células das mucosas). Uma boa parte desses subtipos podem causar verrugas, que podem ser retiradas por uma simples cirurgia médica, mas 13 desses genótipos podem causar câncer no colo do útero, vagina, pênis, anus e em outras partes do corpo.

O câncer do colo do útero é um dos cânceres produzidos por vírus que mais afeta as mulheres, sendo por isso considerado um dos cânceres mais importantes do mundo. Para vocês terem uma noção, existe  uma estimativa de 529.000 novos casos de câncer cervical causado por esse vírus e 275.000 novas mortes por ano. Dessas infecções, 85% ocorrem em países em desenvolvimento (como o Brasil), levando 8% das mulheres infectadas à óbito.

Com esses dados, uma vacina para curar a infecção pelo vírus era o sonho de consumo de muitos Dotôres pelo mundo. Há alguns anos, foram licenciadas duas vacinas para a prevenção da doença. A vacina Gardasil, produzida pela Merck@ e a Cervarix, produzida pela GlaxoSmithKline@. A produção e comercialização dessas vacinas foi um sucesso para a indústria farmacêutica, e elas serão sempre reconhecidas como “as primeiras vacinas contra o câncer”.

Ao se produzir uma vacina contra a infecção de determinado vírus, o pesquisador tem que levar em conta contra qual subtipo do vírus que ele deseja que a vacina atue. Dentre os genótipos do HPV que causam câncer, dois são os mais importantes para o câncer do colo do útero, os genótipos 16 e 18. Esses dois genótipos juntos são responsáveis por, pelo menos, 70% dos casos de câncer do colo do útero no mundo inteiro. Alem disso, são responsáveis por 80% dos casos de câncer anal, 60% de câncer vaginal, 40% dos casos de câncer de vulva, podendo causar cânceres orais e cânceres genitais raros. Por isso, a escolha ideal para se produzir as vacinas, seriam vacinas que atuassem contra esses genótipos (16 e 18). A vacina Cervarix tem exatamente essa função, a de proteger contra esses dois genótipos (sendo, por isso, bivalente). Já a vacina Gardasil foi um pouco mais além, protegendo contra os genótipos 16, 18, 6 e 11, pois os genótipos 6 e 11 são responsáveis por aproximadamente 90% da verrugas genitais.

A organização das nações unidas (ONU) e alguns países mundo afora recomendam a vacinação de mulheres jovens contra o HPV para prevenir o câncer do colo do útero e para reduzir o numero de tratamentos contra este tipo de câncer. Além disso, a vacinação contra o HPV é aprovada para uso em homens por vários motivos como a proteção de suas parceiras contra o câncer de colo do útero, proteção contra o câncer anal e para a prevenção de cânceres associados. Além disso, a vacinação é recomendada em populações com alto risco de desenvolvimento de câncer associado ao HPV, como em indivíduos imunocomprometidos, ou seja, que seu sistema imune não está funcionando como deveria (como indivíduos com AIDS e transplantados) e homossexuais do sexo masculino.

A idade recomendada para vacinação em ambos os sexos é dos 9 aos 26 anos e, no caso de mulheres, essa recomendação é válida para aquelas que nunca foram expostas ao vírus. Essa recomendação é um grande problema, pois os genótipos que causam câncer do útero são contraídos primariamente pela via sexual, então a vacinação tem que ocorrer antes do primeiro ato sexual da menina. Há um problema ético em se vacinar antes do primeiro ato sexual, tanto com os pais da paciente que vai se vacinar quanto com a própria paciente em relatar que não é mais virgem ao médico e aos pais. O interessante é que novos estudos demonstram que as duas vacinas funcionariam em mulheres que entraram em contato com o vírus até 45 anos e alguns amigos Dotôres acreditam que mulheres de todas as idades poderiam tomar as duas vacinas.

Aqui no Brasil cada dose da vacina Gardasil custa em torno de R$ 400,00, enquanto cada dose de Cervarix custa em torno de R$ 300,00. Imagine quanto os meus amigos Dotôres e essas indústrias farmacêuticas estão ganhando com isso? Vários consultórios de ginecologistas estão sendo montados com essas vacinas. É vacina sendo receitada a torto e a direito. O pior de tudo é que quem mais sofre com o câncer de colo do útero são países que não tem como pagar a vacina, como os países em desenvolvimento da África e da Ásia. O que fazer?

Há uma luz no fim do túnel. Meu amigo Bill Gates com outros amigos se juntaram há algum tempo e formaram a “Gavi Alliance”, uma associação que tem como objetivo salvar as vidas de crianças e proteger a saúde da população humana, melhorando o acesso de países pobres à imunização em larga escala. A Gavi Alliance se juntou com as duas grandes indústrias farmacêuticas responsáveis pelas vacinas contra HPV e, em comum acordo, conseguiram abaixar o preço (até 2017) das vacinas para 4.50 dólares a dose de Gardasil e para 4.60 a dose de Cervarix em países com baixo desenvolvimento social. Esse acordo é um grande avanço na diminuição do HPV no mundo, ainda mais porque a vacinação nesses países vai ser custeada por ONG’s, pela UNICEF, pela ONU e outras organizações mundiais.

O Dotô espera que essa e outras iniciativas ocorram pelo mundo todo e que outras vacinas possam ficar mais baratas e diminuir a quantidade de pessoas doentes pelo mundo todo. É por isso que estudamos e é para isso que todos nós da área de saúde trabalhamos.      

 

GLOSSÁRIO

Vírus oncogênicos – Vírus que tem a capacidade de transformar células normais em células que causam câncer.

Genótipos – Divisão de uma mesma espécie de vírus por diferenças em seu genoma.

Células epiteliais – Formam o tecido epitelial ou epitélio e são células intimamente unidas entre si. O tecido epitelial tem como principal função revestir a superfície externa do corpo, os órgãos e as cavidades corporais internas. Em sua maior parte, composta pela pele.

Células das mucosas – Célula adaptada à produção, armazenamento e secreção de material protéico. Encontradas em locais como a boca, vagina, nariz e anus.

Dotô, vírus pode curar coração partido?

Não, meu caro paciente. Até agora, parece que o vírus só pode curar a insuficiência cardíaca.

coração

 

            Uma pesquisa clínica, que está para começar, está dando o que falar. Essa pesquisa é de um tratamento promissor para uma doença que acomete milhões de pessoas no mundo todo, a insuficiência cardíaca. Só nos Estados Unidos, as doenças do coração tem um custo de cerca de 34,4 bilhões de dólares em tratamento, sendo que a insuficiencia cardíaca é uma das principais causas de morte na população.

Tá, até aí tudo bem Dotô, mas qual a ligação do vírus com o coração?

            Querido paciente, vírus também pode ser usado para curar. E, nesse caso, somente uma parte da estrutura do vírus, que não é infectante, é utilizada. Se essa estrutura do vírus não é infectante, ela não faz mal ao paciente, então ele não vai ficar doente. Existe um tipo de vírus chamado vírus adeno associado (AAV), muito usado em terapia gênica. Esse vírus pode ser modificado para não causar doença e ser utilizado no paciente como um vetor. Esse vetor tem um gene que expressa alguma molécula que pode ser usada como terapia, podendo curar o paciente. Sim, parece surreal, não? Isso é o futuro! Pois bem, pesquisadores britânicos vão iniciar, em breve, os testes clínicos em pacientes para usar vetores adeno-associados recombinantes no tratamento de insuficiência cardíaca.

          Primeiro, para que ocorra a contração do músculo cardíaco, chamado de miocárdio, o cálcio, que fica armazenado no retículo sarcoplasmático da célula do miocárdio, precisa ser transportado para o citoplasma, ocorrendo o evento chamado de sístole. Já para que aconteça o evento seguinte de relaxamento do músculo cardíaco, é necessária a ação de uma enzima chamada “ATPase de Cálcio do Retículo Sarcoplasmático 2a” (SERCA2a), que faz o papel inverso, sequestrando o cálcio para o retículo sarcoplasmático e promovendo o evento chamado de diástole. Pessoas com insuficiência cardíaca apresentam uma expressão diminuída da enzima SERCA2a, não relaxando o miocárdio, não bombeando o sangue de forma eficiente para fora do coração.

       O uso de vetores adeno-associados está crescendo a cada dia e eles tem ótimas vantagens, pois diferente de outros vetores utilizados na terapia gênica, eles raramente se integram ao DNA da célula hospedeira, o que poderia causar doença, e, com exceção da expressão da proteína de interesse, não levam à produção de proteínas virais nativas do vírus. Além disso, não são oncogênicos, isto é, não causam câncer.

Mas Dotô, como vai ser esse experimento em seres humanos?

          Para uma pesquisa clínica poder ser aplicada em seres humanos, ela primeiro passou por um teste em cultura de células, chamado teste in vitro, para depois ser testada em animais. Somente após ser comprovada a sua eficácia em animais é que o vetor pode ser utilizado em seres humanos, mas para isso o ensaio clínico necessita ser aprovado por um comitê de ética de pesquisa com seres humanos. Os pacientes que farão parte do ensaio clínico deverão assinar e concordar com o experimento através de um termo de concentimento livre e esclarecido (TCLE). Esse teste clínico possui uma expectativa enorme, pois os tratamentos por medicamentos disponíveis não são capazes de reverter o quadro da insuficiência cardíaca, enquanto que o uso desse vetor viral expressando diretamente uma enzima envolvida na doença, talvez possa.

O Dotô fica na torcida para que o experimento seja bem sucedido. Os pacientes agradecem.

GLOSSÁRIO

Insuficiência Cardíaca: É um comprometimento crônico do coração, mas que pode às vezes se desenvolver de forma repentina. Ela pode estar presente quando o coração não consegue bombear o sangue para o resto do corpo de forma eficiente. Outros fatores que podem levar à insuficiência cardíaca são: doenças cardíacas congênitas, ataques cardíacos, doenças nas válvulas do coração, miocardite e arritmias.

ATPase de Cálcio do Retículo Sarcoplasmático 2a (SERCA2a): Enzima envolvida na regulação do transporte de cálcio do citoplasma para dentro do retículo sarcoplasmático, levando ao relaxamento muscular. Assim, pessoas com insuficiência cardíaca apresentam uma dificuldade no relaxamento muscular cardíaco. O transporte de cálcio é realizado no retículo sarcoplasmático, organela responsável por armazenar o cálcio nas células musculares, e no estudo, focando no retículo sarcoplasmático do coração. Quando essa organela libera o cálcio no citoplasma, leva à contração muscular.

Vetores virais adeno-associados: São vírus adeno-associados (AAV) recombinantes. Os AAV são vírus muito pequenos que infectam homens e animais, não causam doença conhecida e geram uma fraca resposta imunológica. Pertencem à Família Parvoviridae, Gênero Dependovirus, sendo vírus não envelopados compostos por um DNA fita simples, linear, com 4,7 kb. Por não sem integrarem no genoma, estão sendo usados em pesquisa clínica. O uso de vetores virais adeno-associados está se tornando uma realidade para expressão de proteínas terapêuticas de forma continuada, porque não causam doença nos seus pacientes.