Dotô, é varicela ou catapora?

Boy with Chicken Pox

 

Pois é, normalmente as pessoas confundem os nomes das doenças, principalmente as doenças contagiosas comuns da infância que costumam causar pequenos surtos familiares, em creches, escolas ou comunidades inteiras. Infelizmente, na primavera nem tudo são flores, com o tempo seco e começando a esquentar, é bastante comum o surgimento de doenças transmitidas por secreção respiratória, dentre elas a varicela, que é uma doença viral comum na infância conhecida popularmente no Brasil como catapora e que pode ser prevenida através da vacinação.

A varicela ou varicela-zoster é uma doença causada pelo vírus da família Herpesviridae também conhecido como HHV3 (do inglês human herpes virus 3). É uma doença aguda altamente contagiosa tendo como os principais sintomas clínicos as lesões arredondadas e avermelhadas (exantemas) que surgem de forma disseminada por todo o corpo. Outros sintomas menos comuns e de fácil confusão com outras infecções virais são: febre, mal-estar, inapetência, coriza e dores pelo corpo.  As lesões da pele podem aparecer de forma branda com menos de 10 lesões ou de forma mais disseminada podendo ocorrer mais de 1.500 lesões pelo corpo, inclusive mucosas da boca, genitália, laringe, faringe e conjuntiva gerando coceira e incômodo ao paciente acometido.

Essa doença é altamente contagiosa e como os sintomas característicos (lesões de pele) só aparecem cerca de duas semanas após o contato com o vírus, a pessoa nem imagina que está doente e já transmite a doença.

A principal via de transmissão ocorre através da disseminação das secreções respiratórias pelo ar, pelo contato com o líquido das lesões cutâneas ou ainda de forma mais rara, através da via transplacentária, que pode levar à síndrome da varicela congênita (SVC), onde o recém nascido pode apresentar lesões graves de pele, oftálmicas ou neurológicas como retardo mental, paralisias e atrofia de medula óssea.

A doença é mais comum em crianças menores de dois anos de idade, podendo acometer crianças maiores, jovens e adultos não vacinados. Normalmente os sintomas evoluem de forma benigna, porém em alguns casos, como em gestantes, indivíduos imunocomprometidos, transplantados, portadores de leucemia, crianças menores de 1 ano, adolescentes e idosos,  pode ocorrer agravamento do quando clínico como infecção bacteriana secundária, pneumonias e doenças neurológicas. As complicações neurológicas são mais frequentes em crianças imunocomprometidas, podendo levar a casos graves de encefalites e meningites.

O tratamento clínico é direcionado de acordo com os sintomas apresentados, como febre, dores pelo corpo e coceiras, uma vez que a doença é benigna e se resolve naturalmente através da resposta imune do próprio organismo, adquirindo assim anticorpos contra a doença. O uso de antitérmico a base de ácido acetilsalicílico é desaconselhado devido a relatos de progressão da doença para quadros de doença neurológica e disfunção hepática associada à Síndrome de Reye. O uso de antiviral (aciclovir ou foscarnet) é indicado em casos graves da doença.

A varicela pode ser prevenida com a vacinação. No Brasil, as vacinas contra varicela ainda não estão disponíveis regularmente no Programa Nacional de Imunização, sendo aplicadas somente na população indígena e em casos de surtos. Existem vacinas disponíveis nos CRIEs (Centros de Referência em Imunobiológicos Especiais), que atendem a recém-nascidos pré-maturos e imunocomprometidos.

A vacina quadrivalente, contra sarampo, caxumba, rubéola e catapora, está sendo produzida por transferência de tecnologia entre Biomanguinhos e GSK e em breve estará sendo disponibilizada para toda a população no Calendário Nacional de Imunização. Algumas cidades já estão aderindo à campanha de vacinação, que pretende vacinar crianças com 15 meses de idade.

 As vacinas disponíveis nas clínicas particulares são compostas de vírus atenuado administrada em dose única em crianças maiores de 9 meses e em duas doses nos maiores de 13 anos, com intervalo de quatro a oito semanas, de acordo com o fabricante da vacina. A vacina pode ser administrada até 96 horas após a exposição a uma fonte de infecção por varicela.

O diagnóstico geralmente é clinico-epidemiológico, mas o vírus pode ser isolado das lesões vesiculares durante a fase aguda que compreende os quatro primeiros dias após o aparecimento das lesões. Como a varicela não é de notificação compulsória, a prevalência dessa doença é subestimada na população.

O vírus pode fazer latência no organismo e ser reativado na fase adulta do individuo infectado, causando a doença conhecida como Herpes Zoster, que é uma doença que discutiremos em outra oportunidade no nosso blog.

GLOSSÁRIO:

Inapetência – Falta de apetite.

Infecção bacteriana secundária – Infecção causada por bactéria consecutiva à infecção primaria.

Imunocomprometidos Indivíduos com sistema imunológico deficitário.

Meningites – Infecção ou inflamação da meninge.

Síndrome de Reye Doença de rápida progressão que acomete fígado e cérebro, ocorre em crianças e esta associada ao uso de acetilsalicílico em conjunto com uma infecção viral.