Dotô os vírus também tiram férias?

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Não meu querido paciente, os vírus não tiram férias, mas você deve se preocupar com eles nas suas. Quando programamos nossas viagens, nos preocupamos com que roupa levar, na reserva do hotel, na preparação do roteiro, olhamos sites da cidade, sites que informam sobre o clima, mas nos esquecemos de um item essencial, que não deve faltar na nossa bagagem: a informação.  

Existe uma especialidade da Medicina voltada para as doenças que acometem os viajantes, chamada de Medicina dos viajantes. Trata-se, fundamentalmente, de uma medicina preventiva, onde a informação é a principal ferramenta. Pensando nisso, e de olho nas férias de final de ano, o Dotô decidiu dar algumas dicas sobre como prevenir algumas “viroses” durante suas viagens.

O risco de transmissão de doenças infecciosas é maior nos países em desenvolvimento, mas também existe nos países desenvolvidos. A probabilidade de transmissão pode variar de acordo com a região ou dentro de um mesmo país.  Alem disso, as alterações climáticas, incluindo os desastres naturais, podem influenciar a dinâmica de transmissão dessas doenças. O risco de adquirir a infecção vai depender de alguns fatores que o Dotô decidiu conversar com você que já esta no ritmo das férias de fim de ano:

Fator 1: – A susceptibilidade do individuo frente aos agentes que ele entrará em contato durante sua viagem: muitas das viroses erradicadas em alguns países como a poliomielite, sarampo, rubéola ainda ocorrem de forma endêmica em outras regiões do mundo. Alem disso, existem viroses que podem circular em diferentes regiões do mesmo país, como a febre amarela. Mesmo lembrando que todas essas doenças são imunopreviníveis é importante dar uma olhada e se certificar que você esta em dia com o calendário de vacinação e de tomar vacinas complementares, quando necessárias.

 Fator 2: – O propósito da viagem e o tempo de permanência: dependendo do motivo (trabalho ou férias) você pode estar exposto a diferentes agentes infecciosos, incluindo nossos amigos vírus. O tempo de permanência está relacionado ao tipo de atividade. Viagens de trabalho costumam ser curtas, diminuindo o tempo de exposição a esses agentes, diferente de viagens turísticas que tendem a durar mais, alem de muitas vezes nos submetermos a alojamentos de menor qualidade por preços menores. Já as viagens de ecoturismo hoje representam uma grande fonte de exposição a agentes zoonóticos transmitidas por animais silvestres e por insetos.

Fator 3: – Comportamento do viajante: esse tópico é bem importante, o viajante deve ter cuidado ao se alimentar e ao se relacionar durante sua viagem.  O viajante deve se alimentar em locais que tenham condições adequadas ao preparo higiênico do alimento e se hidratar com água e sucos de preferência industrializados. Nada de comer em barracas ou em feiras livres.  A prática de sexo casual também é mais frequente durante as viagens, principalmente nas viagens de turismo. Não se esqueça da camisinha.

 Fator 4: – Condições do alojamento: as pessoas que permanecem em áreas rurais ou em pequenas cidades estão sob maior risco de aquisição de doenças infecciosas, através da água e alimentos contaminados, devido as menores condições de saneamento básico. Também estão mais susceptíveis a adquirir doenças transmitidas por insetos. Muitas vezes nem um alojamento existe, então você que gosta de acampar não se esqueça do repelente, do seu cantil com água filtrada ou fervida e de cozinhar bem os alimentos.

Pode parecer que muito do que foi exposto é um tanto óbvio, então porque discutir isso? Por que ainda hoje com toda a informação disponível ainda temos muitos casos de doenças importadas ocorrendo. Mais de 90% dos casos de doenças dos viajantes estão relacionadas às diarreias, a maioria prevenida por medidas citadas anteriormente. Então, caro paciente, na hora de viajar não se esqueça de pesquisar as vacinas recomendadas e os cuidados que você deve tomar durante a sua viagem. E caso fique doente, não se esqueça de contar para o seu Dotô sobre sua viagem.

GLOSSÁRIO:

Doenças Imunopreveníveis: são aquelas preveníveis por vacinas

Agentes zoonóticos: que podem infectar os seres humanos e animais

Dotô, existem alimentos que protegem das infecções virais?

O uso de plantas como biofábricas de anticorpos

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Existem alimentos que são geneticamente modificados, isto, é, são inseridos genes no seu material genético que permitem a produção de alguma molécula de interesse. Esses alimentos são chamados de transgênicos, e podem ser produzidos com finalidades: comerciais (para aumentar a produção), nutritivas (para combater a desnutrição), ou então terapêuticas (para proteção e tratamento contra alguma doença). As plantas são muito utilizadas para esse objetivo, principalmente a planta do tabaco, a partir de processos envolvendo biotecnologia vegetal. Os compostos sintetizados pelos organismos geneticamente modificados são chamados de proteínas recombinantes, que são estrutural e funcionalmente semelhantes às sintetizadas por mamíferos. Devido a essa capacidade de síntese proteica, as plantas são chamadas de biofábricas. Um exemplo de proteínas que podem ser sintetizadas dessa maneira são os anticorpos, com a vantagem de que esses anticorpos podem ser utilizados por via oral através da ingestão de frutas, folhas, raízes, cereais e sementes. Assim, não se faz necessário purificar o anticorpo do alimento, já que o alimento é administrado in natura ao indivíduo, podendo agir diretamente no tratamento imediato do trato gastrointestinal, como por exemplo, nas gastroenterites.

Arroz que produz anticorpo contra rotavírus

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A infecção por rotavírus é a maior causa de diarreia em crianças no mundo, causando 114 milhões de episódios de diarreia anualmente em crianças menores de cinco anos, sendo que 80% dos casos ocorrem em países em desenvolvimento. A estimativa é de que 453.000 crianças morram anualmente decorrente da infecção por rotavírus. Existem duas vacinas disponíveis comercialmente no mundo, administradas pela via oral: Rotarix (monovalente) e Rotateq (pentavalente), sendo que nos postos de saúde do Brasil, a vacina administrada é a monovalente. Estudos indicam que a eficácia dessa vacina é de aproximadamente 85%, mas que necessita ser administrada num período muito prematuro da criança, entre 6 e 26 semanas, para evitar casos de intussuscepção. Porém, em crianças imunocomprometidas a eficácia é muito baixa, podendo inclusive induzir diarreia crônica, daí a necessidade do desenvolvimento de medidas alternativas quando a vacina não é indicada ou quando não há a geração de uma produção duradoura de anticorpos. Um exemplo de tratamento alternativo é a imunoterapia passiva, onde os anticorpos são administrados por via oral para causar uma proteção imediata contra infecções do trato gastrointestinal. Assim, pesquisadores Japoneses desenvolveram um arroz transgênico que produz um anticorpo contra rotavírus derivado de lhama. Isso mesmo, de lhama! O máximo, né? O Dotô também acha.

                                   lhama

O anticorpo derivado de lhama é mais resistente à pepsina, ao meio ácido e ao calor. Além disso, os pesquisadores usaram uma tecnologia de RNA de interferência (RNAi) para suprimir as proteínas do arroz, de forma a permitir uma maior expressão dos anticorpos recombinantes no alimento. Os pesquisadores japoneses verificaram que o arroz é mais eficaz na proteção contra o rotavírus quando consumido na forma de pó diluído em água, embora os anticorpos também possam ser ingeridos na forma de arroz cozido ou bebendo-se a água na qual o alimento for fervido. O arroz foi testado inicialmente em camundongos e foi verificado que o anticorpo diminui a carga viral tanto nos animais imunocompetentes quanto nos imunodeficientes, porém o alimento ainda não foi testado em humanos.

Além do arroz, já foi descrito na literatura a síntese de anticorpos em tabaco contra o vírus da Herpes Simplex do tipo 2 (HSV-2), Vírus da Hepatite B (HBV), Vírus Sincicial Respiratório (RSV) e vírus da Raiva. O Dotô aprova a utilização de formas alternativas na produção de anticorpos e fica muito feliz com o crescimento da biotecnologia vegetal. Que as inovações e investimentos nessa área sejam cada vez maiores.

 

GLOSSÁRIO:

Anticorpos: proteínas produzidas pelo corpo humano ou sintetizadas por engenharia genética que tem como função principal se ligar de forma específica e neutralizar o microrganismo que está causando a doença.

Biofábricas: Conceito utilizado na biotecnologia vegetal para designar a produção em larga escala de proteínas recombinantes em plantas.

Biotecnologia vegetal: Área da biotecnologia responsável pelo cultivo de tecidos vegetais in vitro com o objetivo de manipular geneticamente as plantas, com finalidades comerciais, melhoramento genético e produção de proteínas recombinantes, por exemplo.

Gastroenterites: Infecções do trato gastrointestinal.

Imunocompetentes: Indivíduos que apresentam sistema imunológico em homeostasia, funcionando corretamente.

Imunoterapia passiva: Administração de anticorpos ao indivíduo para tratamento imediato contra alguma doença.

In natura: Alimento de origem vegetal ou animal que são consumidos em seu estado natural, como por exemplo, as frutas.

Intussuscepção: Invaginação do intestino, onde uma parte do órgão entra dentro dele mesmo, podendo causar uma obstrução e sendo às vezes necessário fazer uma cirurgia.

intussuscepção 

Pepsina: Enzima produzida pelo estômago com a atividade proteolítica.

Proteínas recombinantes: Proteínas obtidas a partir da expressão de genes em uma linhagem celular, que pode ser de origem animal ou vegetal.

RNA de interferência: É um mecanismo celular responsável por silenciar o RNA mensageiro celular, regulando sua ação através de sua degradação. Esse mecanismo envolve a síntese de uma fita de RNA complementar ao RNA mensageiro que formará um grampo que será clivado por enzimas específicas.

Vacina Monovalente: Protege contra somente um genótipo de rotavírus.

Vacina Pentavalente: Protege contra cinco genótipos de rotavírus.