Dotô, vírus pode curar coração partido?

Não, meu caro paciente. Até agora, parece que o vírus só pode curar a insuficiência cardíaca.

coração

 

            Uma pesquisa clínica, que está para começar, está dando o que falar. Essa pesquisa é de um tratamento promissor para uma doença que acomete milhões de pessoas no mundo todo, a insuficiência cardíaca. Só nos Estados Unidos, as doenças do coração tem um custo de cerca de 34,4 bilhões de dólares em tratamento, sendo que a insuficiencia cardíaca é uma das principais causas de morte na população.

Tá, até aí tudo bem Dotô, mas qual a ligação do vírus com o coração?

            Querido paciente, vírus também pode ser usado para curar. E, nesse caso, somente uma parte da estrutura do vírus, que não é infectante, é utilizada. Se essa estrutura do vírus não é infectante, ela não faz mal ao paciente, então ele não vai ficar doente. Existe um tipo de vírus chamado vírus adeno associado (AAV), muito usado em terapia gênica. Esse vírus pode ser modificado para não causar doença e ser utilizado no paciente como um vetor. Esse vetor tem um gene que expressa alguma molécula que pode ser usada como terapia, podendo curar o paciente. Sim, parece surreal, não? Isso é o futuro! Pois bem, pesquisadores britânicos vão iniciar, em breve, os testes clínicos em pacientes para usar vetores adeno-associados recombinantes no tratamento de insuficiência cardíaca.

          Primeiro, para que ocorra a contração do músculo cardíaco, chamado de miocárdio, o cálcio, que fica armazenado no retículo sarcoplasmático da célula do miocárdio, precisa ser transportado para o citoplasma, ocorrendo o evento chamado de sístole. Já para que aconteça o evento seguinte de relaxamento do músculo cardíaco, é necessária a ação de uma enzima chamada “ATPase de Cálcio do Retículo Sarcoplasmático 2a” (SERCA2a), que faz o papel inverso, sequestrando o cálcio para o retículo sarcoplasmático e promovendo o evento chamado de diástole. Pessoas com insuficiência cardíaca apresentam uma expressão diminuída da enzima SERCA2a, não relaxando o miocárdio, não bombeando o sangue de forma eficiente para fora do coração.

       O uso de vetores adeno-associados está crescendo a cada dia e eles tem ótimas vantagens, pois diferente de outros vetores utilizados na terapia gênica, eles raramente se integram ao DNA da célula hospedeira, o que poderia causar doença, e, com exceção da expressão da proteína de interesse, não levam à produção de proteínas virais nativas do vírus. Além disso, não são oncogênicos, isto é, não causam câncer.

Mas Dotô, como vai ser esse experimento em seres humanos?

          Para uma pesquisa clínica poder ser aplicada em seres humanos, ela primeiro passou por um teste em cultura de células, chamado teste in vitro, para depois ser testada em animais. Somente após ser comprovada a sua eficácia em animais é que o vetor pode ser utilizado em seres humanos, mas para isso o ensaio clínico necessita ser aprovado por um comitê de ética de pesquisa com seres humanos. Os pacientes que farão parte do ensaio clínico deverão assinar e concordar com o experimento através de um termo de concentimento livre e esclarecido (TCLE). Esse teste clínico possui uma expectativa enorme, pois os tratamentos por medicamentos disponíveis não são capazes de reverter o quadro da insuficiência cardíaca, enquanto que o uso desse vetor viral expressando diretamente uma enzima envolvida na doença, talvez possa.

O Dotô fica na torcida para que o experimento seja bem sucedido. Os pacientes agradecem.

GLOSSÁRIO

Insuficiência Cardíaca: É um comprometimento crônico do coração, mas que pode às vezes se desenvolver de forma repentina. Ela pode estar presente quando o coração não consegue bombear o sangue para o resto do corpo de forma eficiente. Outros fatores que podem levar à insuficiência cardíaca são: doenças cardíacas congênitas, ataques cardíacos, doenças nas válvulas do coração, miocardite e arritmias.

ATPase de Cálcio do Retículo Sarcoplasmático 2a (SERCA2a): Enzima envolvida na regulação do transporte de cálcio do citoplasma para dentro do retículo sarcoplasmático, levando ao relaxamento muscular. Assim, pessoas com insuficiência cardíaca apresentam uma dificuldade no relaxamento muscular cardíaco. O transporte de cálcio é realizado no retículo sarcoplasmático, organela responsável por armazenar o cálcio nas células musculares, e no estudo, focando no retículo sarcoplasmático do coração. Quando essa organela libera o cálcio no citoplasma, leva à contração muscular.

Vetores virais adeno-associados: São vírus adeno-associados (AAV) recombinantes. Os AAV são vírus muito pequenos que infectam homens e animais, não causam doença conhecida e geram uma fraca resposta imunológica. Pertencem à Família Parvoviridae, Gênero Dependovirus, sendo vírus não envelopados compostos por um DNA fita simples, linear, com 4,7 kb. Por não sem integrarem no genoma, estão sendo usados em pesquisa clínica. O uso de vetores virais adeno-associados está se tornando uma realidade para expressão de proteínas terapêuticas de forma continuada, porque não causam doença nos seus pacientes.