Relembrando os 30 anos da AIDS

30 anos hiv

O Dotô vai contar hoje para os seus pacientes um pouco da história do vírus que mudou o mundo: o vírus da imunodeficiência humana, mais conhecido como HIV. Sua história começa em 1981, quando em Los Angeles foram relatados casos de pacientes homossexuais com uma pneumonia rara causada pelo fungo Pneumocystis carinni. Também foram descritos casos de homossexuais com Sarcoma de Kaposi em Nova York e Califórnia. Ninguém sabia o que estava acontecendo com essas pessoas, o que se sabia era que se tratava de uma doença causadora de uma deficiência imunológica severa em indivíduos que antes da infecção eram saudáveis. A partir daí, o Center of Disease Control (CDC) resolveu identificar os fatores de risco e realizar uma definição de caso para ajudar na vigilância epidemiológica.

Com o tempo, a doença se alastra e, em 1982, o CDC usa o termo AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) pela primeira vez, quando também são descritos casos em crianças e indivíduos submetidos à transfusão sanguínea.

Mas, peraí, Dotô, até então não se tinha uma descrição da forma de transmissão da doença? Nem se era mesmo um microrganismo o vilão por trás dessa história?

Sim, caro paciente, as hipóteses estavam sendo criadas, não se sabia qual era e se era mesmo causada por um microrganismo. Essa incerteza toda contribuiu de forma negativa para gerar uma grande discriminação com os indivíduos com AIDS. Essas dúvidas começaram a ser sanadas em 1983, quando o National Institute of Health (NIH) sugeriu que algum retrovírus poderia ser o agente causador da doença. Nesse mesmo ano, foram descritos os primeiros casos em mulheres que tinham parceiros com AIDS, confirmando a transmissão heterossexual. Ao mesmo tempo, o CDC afirma que os casos documentados até então incluíam principalmente homens homossexuais com múltiplos parceiros, usuários de drogas injetáveis e hemofílicos, sugerindo que a AIDS seria causada por um agente infeccioso e transmitida por contato sexual ou exposição ao sangue, recomendando medidas de prevenção.

Meus caros pacientes, nessa época não existiam todos os avanços tecnológicos e científicos que temos hoje em dia, então a identificação do suposto microrganismo demorou um pouco mais do que estamos acostumados. Mesmo assim, o vírus foi identificado em 1983, 2 anos e meio desde o primeiro relato, o que foi um recorde para a época. Foi no Instituto Pasteur que veio a primeira dica: o Professor Luc Montagnier identificou através de microscopia eletrônica, um novo retrovírus como o causador da AIDS e o chamou de Vírus Associado à Linfadenopatia (LAV). Mais tarde, ele dividiu essa descoberta com Robert Gallo, do National Institute of Cancer, que em 1984 relatou que esse retrovírus se tratava de um HTLV-III, um vírus linfotrópico de células T. Gallo afirmou que desenvolveu um teste de diagnóstico e sugeriu que uma vacina poderia ser desenvolvida em até 2 anos. Aaaaahhh, doce ilusão desse tal Robert Gallo!

Com o aumento do número de casos em profissionais de saúde, o CDC publicou medidas de precaução da exposição ocupacional. Também determinou as formas de transmissão da doença, eliminando então a ideia de que o vírus poderia ser transmitido por contato casual, comida, água, ar e superfícies. Aí o Dotô faz um adendo: isso ocorreu em 1983, e, ainda hoje, é observada certa estigmatizacão frente aos pacientes soropositivos. O Dotô, como bom profissional que é, busca combater essas diferenças, tratando seus pacientes de forma igualitária e recriminando qualquer forma de preconceito. Em 1985 começou a ser comercializado o primeiro ensaio imunoenzimático (ELISA) para detecção de anticorpos presentes no sangue contra o vírus.  São anunciadas medidas de prevenção como: o não compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis, a prevenção da transmissão materno-fetal, e o food and drug administration (FDA) declarou o uso de camisinha pelos homens como uma forma de prevenção do HIV. Somente em 1986 é que o vírus passou a ser chamado de vírus da imunodeficiência humana (HIV), e, em 1987, a FDA aprovou o primeiro antirretroviral: zidovudina (AZT), que acabou sendo liberado para uso pediátrico somente três anos depois em 1990, mesmo ano em que o cantor Cazuza faleceu por choque séptico devido à infecção viral. Já em 1991, o laço vermelho virou símbolo da luta contra a AIDS, o mesmo ano que o digníssimo cantor Freddie Mercury faleceu de pneumonia devido à infecção pelo vírus. Até o ano de 1991, 10 milhões de pessoas tinham se infectado e, nesse mesmo período, foi criado o primeiro teste rápido para diagnóstico de HIV-1 e a aprovação da camisinha feminina.

Em 1993, o CDC expandiu a definição de AIDS, incluindo como indivíduos soropositivos aqueles com contagem de linfócitos T CD4+ menor do que 200 células/mm3, e estreou nos cinemas um filme estrelado por Tom Hanks, chamado Philadelphia, que relata a história de um advogado com AIDS. O primeiro teste de HIV por via oral, ou seja, não invasivo, foi criado em 1984. Até esse ano, 500.000 casos tinham sido reportados, causando uma elevada taxa de mortalidade em pessoas de 25 a 44 anos. No ano seguinte, a FDA aprovou testes de diagnóstico para detecção da carga viral nos pacientes, por reação em cadeia da polimerase (PCR). E em 1996, perdemos mais um grande cantor e compositor, Renato Russo, nosso eterno vocalista da Legião Urbana, faleceu devido à complicações da AIDS. Com a popularização dos medicamentos antirretrovirais, que tinham como objetivo diminuir a replicação do vírus começaram a surgir casos de resistência medicamentosa, e, em 1998, o CDC aprovou um guia de uso da terapia antirretroviral. Com investimentos milionários para pesquisa de novos fármacos e desenvolvimento de vacinas, novos medicamentos foram aprovados, porém, nenhuma vacina anti-HIV se tornou realmente eficaz, seja ela profilática ou terapêutica. Em 1999, a estimativa era de que 33 milhões de pessoas seriam portadoras do HIV e 14 milhões teriam morrido de AIDS, sendo que a África apresentava o maior número de mortes. Em 2007, o CDC relata que 565.000 pessoas morreram de AIDS desde 1981.

E a AIDS hoje, como está? Os números de casos documentados estão estabilizados, porque muitos pacientes conseguem manter uma carga viral baixa devido ao uso do coquetel antirretroviral, que combina vários medicamentos, com diferentes mecanismos de ação, para evitar a resistência. Em 2007, o governo Lula anunciou a quebra de patentes de antirretrovirais no Brasil, o que facilitou o acesso à medicação. A estimativa atual no mundo é que 34 milhões de pessoas sejam portadoras do HIV, sendo que 97% dos casos são oriundos de pessoas que moram em países com baixo e médio índice de desenvolvimento, como a África Subsaariana, e que 30 milhões tenham morrido desde o início da epidemia. Quanto aos pacientes com acesso ao tratamento em países de baixo desenvolvimento social, estima-se que o número tenha aumentado de 300.000 em 2003 para 8 milhões em 2011. Já no Brasil, estima-se que 530.000 pessoas vivam com HIV/AIDS, de onde 135.000 não sabem ou não fizeram o teste. O número de crianças menores de 5 anos infectadas reduziu 25% de 2002 a 2011 no Brasil. O número de idosos com HIV/AIDS aumentou nos últimos tempos, sendo iniciadas campanhas de prevenção nessa faixa etária. Quanto à geração de uma vacina, ela está longe de acontecer devido às características peculiares do vírus de elevada taxa de mutação, mas novos ensaios clínicos continuam sendo realizados.

O dia mundial da luta contra a AIDS foi instituído como sendo 1º de dezembro. Essa data é importante para conscientizar as pessoas sobre a prevenção e difundir a solidariedade com as pessoas que sofrem com a AIDS. Além disso, a campanha busca estimular a reflexão sobre a falsa impressão de que a AIDS afeta apenas o outro, distante da percepção de que todos estamos vulneráveis.

GLOSSÁRIO:

Antirretroviral: Medicamentos usados no tratamento da AIDS, buscando aumentar a qualidade de vida dos indivíduos infectados. Geralmente atuam inibindo alguma etapa de replicação do vírus.

Definição de caso: Atualmente, a definição de caso de um indivíduo com AIDS é descrita como: existência de dois testes de diagnóstico de triagem ou um confirmatório para detecção de anticorpos anti-HIV, evidência de alguma doença indicativa de AIDS e/ou contagem de linfócitos T CD4+ inferior a 350 células/mm3.

Ensaio imunoenzimático (ELISA): Teste de diagnóstico utilizado para detectar anticorpos anti-HIV no soro do paciente através de uma reação colorimétrica com um anticorpo secundário conjugado a uma enzima.

Hemofílicos: Indivíduos portadores de uma doença de característica hereditária que culmina na deficiência dos fatores da coagulação sanguínea, sendo então mais propensos a sangramentos/hemorragias. Necessitam fazer reposição dos fatores de coagulação para suprir essa falta do organismo. Por ser a hemofilia uma deficiência genética ligada ao X, ela se expressa somente no sexo masculino.

Linfócitos T CD4+: Principais células do sistema imunológico, envolvidas com todo o mecanismo de defesa através da produção de citocinas inflamatórias. Como o HIV infecta principalmente essas células, a sua quantificação está associada como um prognóstico para AIDS ou não.

Microscopia eletrônica: O microscópio eletrônico é o único equipamento capaz de visualizar uma partícula viral, que apresenta nanômetros de diâmetro. A descoberta de novos vírus sempre está associada com sua visualização por microscopia eletrônica.

Pneumocystis carinni: Tipo de fungo que se tornou comum em indivíduos com AIDS, sendo a pneumonia por esse fungo incluída na lista de doenças indicativas de progressão para AIDS.

Sarcoma de Kaposi: Tipo de tumor que se tornou comum em indivíduos com AIDS, sendo incluído na lista de doenças indicativas de progressão para AIDS.

Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS): Conjunto de sinais e sintomas que um indivíduo infectado pelo vírus HIV pode vir a esboçar quando há um aumento da carga viral, devido à falência do sistema imunológico e pré-disposição a infecções oportunistas.

Vírus da imunodeficiência humana: Pertence à Família Retroviridae, apresentando dois tipos: HIV-1 e HIV-2, de origens filogeneticamente diferentes. Enquanto o HIV-1 é cosmopolita, o HIV-2 está presente principalmente na África Subsaariana.