Dotô, eu posso ter hepatite mesmo depois de vacinado?

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Sim, é possível! A hepatite é uma inflamação que acontece no fígado e pode ter diversas causas. Entre elas estão as hepatites A e B (que possuem vacina) e a D (que é prevenida de forma indireta pela vacina da hepatite B). No entanto, diversos outros agentes (infecciosos ou não) podem causar os mesmos sinais e sintomas e alguns deles não podem ser prevenidos através de vacinação. Vamos falar de alguns deles.

Entre os vírus existem cinco tipos principais que causam a doença. Além dos três que já foram citados anteriormente, há também os causadores das hepatites C e E. Entretanto, apesar de não ser o quadro clínico mais comum, existem casos relatados de hepatite que surgiram após infecções pelos vírus da dengue e herpesvírus, por exemplo.

Em relação às bactérias, a literatura científica mostra grande importância dos casos associados à sífilis e à leptospirose, porém outras bactérias também já foram relacionadas à doença. Entre parasitas também já foi observado a possibilidade de dano no fígado causado durante a evolução de fasciolose, malária e toxoplasmose. O mesmo também foi relatado para algumas espécies de fungos capazes de causar doenças em seres humanos.

E como se não bastassem todas estas possibilidades, existem outros agentes não infecciosos que podem induzir quadros de hepatite. Entre essas causas destacam-se o álcool, uso de medicamentos (especialmente anti-inflamatórios e anabolizantes), consumo de drogas, cânceres, doenças autoimunes, entre outros.

– Mas Dotô, é possível que eu tenha hepatite A ou B depois da vacina?

Também pode acontecer, apesar de ser bastante incomum. A recomendação de muitos cientistas é que fossem feitas duas doses de vacina contra hepatite A, porém no Brasil há apenas uma dose garantida no programa nacional de imunização (PNI). Neste esquema de dose única a maior parte das pessoas já consegue produzir anticorpos e ficar protegida contra o vírus, mas não são todas. Portanto, é possível que algumas pessoas, mesmo vacinadas, estejam descobertas e venham a desenvolver a doença caso entrem em contato com o vírus posteriormente. Além disso, a vacina contra hepatite A foi disponibilizada gratuitamente à população apenas em 2014, e somente para crianças de 1 ano até 2 anos incompletos. Isto faz com que a atual população de mais idade não possa ser protegida através da vacinação.

Em relação ao vírus da hepatite B, o pensamento é diferente. As doses oferecidas pelo SUS são suficientes, porém existem alguns indivíduos que, por particularidades de seus sistemas imunológicos, não conseguem responder à vacina e produzir anticorpos mesmo se forem ofertadas doses extras de reforço. Este problema é mais comum em pacientes que tenham algumas doenças de base como hepatite C, diabetes ou insuficiência renal crônica, mas também pode ocorrer na população em geral.

Portanto, caso você tenha desenvolvido hepatite, tente sempre investigar qual foi a causa, pois dificilmente estará acontecendo falha vacinal. No entanto, mesmo que exista a possibilidade de a vacina não ser totalmente eficaz, lembramos que é sempre importante recorrer à imunização, pois ao longo da história a quantidade de exemplos de sucessos foram extremamente superiores aos fracassos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COURA, José Rodrigues. Dinâmica das doenças infecciosas e parasitárias. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.

CZAJA, A. J. Diagnosis and Management of Autoimmune Hepatitis: Current Status and Future Directions. Gut Liver, v. 10, n. 2, p. 177-203, Mar 2016. ISSN 2005-1212. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26934884 >.

FOCCACIA, R. Tratado de infectologia. VERONESI, R.: Editora Atheneu 1: 493-683 p. 2015.

MORAES, J. C.; LUNA, E. J.; GRIMALDI, R. A. Immunogenicity of the Brazilian hepatitis B vaccine in adults. Rev Saude Publica, v. 44, n. 2, p. 353-9, Apr 2010. ISSN 1518-8787. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20339636 >.

NIH. LiverTox – Clinical and research information on drug-induced liver injury.  2016.  Disponível em: < https://livertox.nlm.nih.gov/ >. Acesso em: 21/10/2016.

SAÚDE, M. D. Programa Nacional de Imunizações.  2016.  Disponível em: < http://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/pni/ >. Acesso em: 20/10/2016.

SINGH, A. E.  et al. Factors associated with vaccine failure and vertical transmission of hepatitis B among a cohort of Canadian mothers and infants. J Viral Hepat, v. 18, n. 7, p. 468-73, Jul 2011. ISSN 1365-2893. Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20546502 >.

ZHANG, X.  et al. Comparison of immune persistence among inactivated and live attenuated hepatitis a vaccines 2 years after a single dose. Hum Vaccin Immunother, v. 12, n. 9, p. 2322-6, Sep 2016. ISSN 2164-554X. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27494260 >.

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

Texto realizado pelo aluno de pós-graduação em Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Derick Mendes Bandeira, sob a orientação da Dra Elba R. Sampaio de Lemos e Dra Renata Carvalho de Oliveira.

 

 

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Dotô, hepatite é tudo a mesma coisa?

Em homenagem ao Dia Mundial da Luta Contra as Hepatites Virais que aconteceu dia 28 de julho e, para contribuir com a divulgação da Caminhada de Conscientização das Hepatites Virais, que acontecerá domingo dia 11 de agosto, o Dotô escolheu falar das hepatites virais para todos os seus pacientes.

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Mas Dotô, o que afinal é hepatite?

Caro paciente, hepatite não é tudo a mesma coisa não! Hepatite é definida como uma inflamação no fígado, que possui diferentes níveis de intensidade, podendo ser caracterizada por um aumento das enzimas hepáticas como alanina aminotransferase (ALT) e aspartato aminotransferase (AST), além da presença de sinais clínicos e sintomas típicos como: icterícia, insuficiência hepática, dor abdominal, enjoo, vômitos, fezes claras e urina escura (cor de coca-cola).

Mas Dotô, o que pode causar hepatite?

A hepatite pode ser causada por excesso de álcool, remédios, distúrbios metabólicos, genéticos, doenças auto-imunes e diversas infecções provocadas por vários microrganismos. Um dos maiores exemplos são as hepatites virais. As hepatites virais podem ser causadas por vírus que possuem a capacidade de se replicar no fígado e provocar uma doença. Os principais vírus que causam hepatite são classificados em hepatites A, B, C, D e E. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, 1 milhão de mortes no mundo acontecem em decorrência das hepatites virais.

As hepatites virais são divididas em hepatites agudas e crônicas. Geralmente, as hepatites A e E possuem um quadro de doença inflamatória aguda do fígado. Já as hepatites B, C e D podem evoluir para hepatite crônica. As hepatites agudas podem se apresentar de forma assintomática ou com sintomas clássicos de hepatite.  Já as hepatites crônicas, geralmente caracterizadas por apresentarem um tempo de duração maior do que 6 meses,  são mais graves, podendo evoluir para insuficiência hepática e cirrose.

Agora o Dotô vai explicar para vocês as três principais hepatites virais, pra vocês não se confundirem: a hepatite A, B e C.

A hepatite A é uma doença inflamatória aguda do fígado, causada pelo vírus da hepatite A. O período de incubação da doença é de aproximadamente 28 dias, podendo se apresentar de forma assintomática ou leve por 2 semanas ou na forma  grave que pode durar meses. Os sinais e sintomas são definidos como febre abrupta, mal-estar, anorexia, náuseas, desconforto abdominal e icterícia. Enquanto em crianças menores de 6 anos, 70% dos casos são assintomáticos, em adultos há um risco maior do desenvolvimento de hepatite fulminante.  A taxa de mortalidade é de 0,3%, mas aumenta para 1,8% em adultos maiores de 50 anos. Pelo fato do vírus da hepatite A ser um dos vírus mais resistentes no ambiente, a água é o seu principal veículo de transmissão, seguida pelos alimentos. Assim, é muito importante nos prevenirmos e somente ingerirmos água devidamente filtrada ou clorada. Além disso, a hepatite A já possui uma vacina, mas que ainda não está disponível na rede pública, somente na rede privada. Há expectativas de que essa vacina seja incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNL) do Ministério da Saúde.

Já a hepatite B é uma doença inflamatória do fígado, causada pelo vírus da hepatite B. A doença pode se apresentar de uma forma moderada por algumas semanas ou evoluir para um quadro prolongado de forma crônica. Essa forma crônica pode vir a se tornar um câncer no fígado, chamado de hepatocarcinoma. A transmissão da hepatite B ocorre através do contato com o sangue de pessoas infectadas, através do contato com fluidos biológicos durante relações sexuais com um indivíduo infectado, compartilhamento de seringas contaminadas ou através da mãe para o filho. Outras formas de transmissão incluem: durante a manicure (através de uso de material não estéril), e o compartilhamento de escova de dentes, lâminas de barbear e de depilar. A vacinação para hepatite B já está incluída no calendário de vacinação brasileiro em três doses, durante as primeiras 12 horas de vida, e a partir daí, a vacina para hepatite B está incluída na vacina pentavalente, assim, a criança recebe a segunda dose aos 2 meses de vida, a terceira dose aos 4 meses e o último reforço aos 6 meses de idade. Além disso, a vacina está disponível para adolescentes e adultos em três doses, sendo que, atualmente, a faixa etária para a vacinação de adultos aumentou para 49 anos, o que muito agrada o Dotô!

A hepatite C, uma hepatite silenciosa e por isso perigosa, podendo ser letal, é uma doença inflamatória do fígado, transmitida pelo vírus da hepatite C. A transmissão ocorre basicamente através do contato com o sangue de um indivíduo infectado, como transfusão sanguínea e compartilhamento de seringas. Uma pessoa pode passar a vida toda com hepatite C e não apresentar sintomas, mas, algumas pessoas, depois de 20 a 30 anos após se infectarem pelo vírus podem apresentar sintomas como cirrose, insuficiência hepática e hepatocarcinoma. A hepatite C apresenta um grave problema de saúde pública pois, além de 80% dos casos terem risco de evoluírem para a forma crônica da doença, também não apresenta nenhuma vacina disponível no Sistema Único de Saúde.

O Dotô abre um adendo agora para informar a todos os seus pacientes que nasceram entre 1945 e 1965 para se dirigirem à um posto de saúde e fazerem um teste para hepatite C, pois essas pessoas apresentam um risco cinco vezes maior de estarem infectadas. Esse cuidado é necessário pois, antigamente se utilizavam seringas de vidro e as transfusões de sangue não eram testadas contra a hepatite C. Mesmo que você não tenha nascido nessa época, , avise seus familiares! Precisamos lutar juntos para divulgar as hepatites virais, estimular campanhas de vacinação contra hepatite B, incentivar para que a vacina contra hepatite A seja incluída no calendário de vacinação, incentivar as pessoas a fazerem testes de diagnóstico e divulgar informações sobre a prevenção, afinal, a melhor prevenção é o conhecimento!

GLOSSÁRIO:

Cirrose: A cirrose é definida pela substituição do tecido hepático por tecido fibrótico decorrente da lise das células. A cirrose acontece principalmente nas hepatites virais crônicas devido à incapacidade das células hepáticas se regenerarem devido à replicação viral e lise celular causando uma inflamação crônica do fígado.

Enzimas hepáticas: As enzimas hepáticas contribuem para o bom funcionamento do nosso fígado. Qualquer aumento na produção dessas enzimas pode diagnosticar uma alteração na função do fígado. Enzimas que são quantificadas para avaliar o estado do fígado de um paciente incluem: alanina aminotransferase (ALT), aspartato aminotransferase (AST), fosfatase alcalina e gama glutamil transpeptidase (Gama-GT)

Icterícia: A icterícia é uma coloração amarelada que aparece na pele e mucosa de pacientes devido ao acúmulo de uma substância chamada bilirrubina no organismo. A bilirrubina é um produto da quebra da hemoglobina do nosso sangue, sendo função do fígado eliminar essa bilirrubina do nosso organismo. Indivíduos infectados com hepatites virais vão apresentar uma diminuição da função hepática de eliminar a bilirrubina, que então se acumula no organismo.

Infecções agudas e crônicas: As infecções virais agudas são definidas como de início abrupto e curso limitado, apresentando-se de forma assintomática ou com sintomas característicos, com eliminação do vírus e recuperação do indivíduo. Já as infecções virais crônicas, com um tempo de duração superior a 6 meses, podem se apresentar inicialmente de forma assintomática no paciente, que passa a apresentar os sintomas somente muitos anos depois, sendo de difícil tratamento.