Em tempos de Zika, porque ainda temos medo do Ebola?

Ebola

Em meio à tantas notícias preocupantes sobre o vírus Zika e possíveis impactos da sua infecção durante a gestação, como discutimos em nosso último post, nos surpreendemos no mês de novembro com o anuncio de mais um caso suspeito de Ebola no Brasil. Após meses de silêncio e de uma falsa sensação de que o vírus Ebola não era mais um problema mundial, eis que surge a dúvida: “é ebola ou não é?!”

Uffa, não foi! O caso suspeito se tratava de um paciente brasileiro que viajou para Guiné, país que ainda sofre com a epidemia causada pelo vírus Ebola. O paciente foi atendido no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) e, através de testes realizados pela própria fundação, a suspeita foi descartada. O paciente foi diagnosticado com malária e recebeu alta na manhã do dia 14/11.

Quer saber mais detalhes sobre o caso? Segue o link: http://www.fiocruz.br/ioc/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2449&sid=32

Mas Dotô, a epidemia de Ebola não acabou?

Não, meu caro paciente, a epidemia, que começou em março de 2014, já contabiliza cerca de 29 mil casos e mais de 11 mil mortes, seis países africanos e mais quatro países dos continentes Europeu e Americano. Apesar de um aparente controle, ainda existem alguns focos ativos da doença na África, como Guiné e Libéria.

Vamos focar na Libéria: A OMS havia anunciado no dia 03/09 o fim da transmissão do vírus Ebola na Libéria, onde a epidemia já deixou cerca de 4.000 mortos, com um total de 10.600 casos. A declaração foi feita após 42 dias sem casos no país. Porém, na última semana, três novos casos de ebola foram confirmados no país, depois de dois meses da Libéria ter sido declarada livre do vírus. O anúncio foi feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS), na última sexta-feira (20/11). Um dos casos confirmados foi de um garoto de 15 anos de idade, admitido em uma unidade de saúde na Libéria, no dia 19/11. Depois de diagnosticado, o rapaz foi transferido para um centro de tratamento de Ebola, juntamente com outros cinco membros da sua família. Os outros dois casos confirmados com ebola eram da família do rapaz: um menino de 8 anos e seu pai, que já estão em isolamento. Além da família, 149 contatos foram identificados até agora, incluindo 10 profissionais de saúde que tiveram contato próximo com o jovem de 15 anos antes do isolamento. As investigações para descobrir a origem da infecção estão em um estágio inicial.

Dotô essa epidemia vai ter fim? O Ebola pode ser erradicado?

Bem, é difícil prever um fim para essa epidemia, porque pequenos focos continuam aparecendo, além de casos esporádicos. O ressurgimento da doença já era esperado, provavelmente por um vírus persistente em um indivíduo convalescente, ou através da infecção a partir de animais silvestres. Lembrando que, apesar do Ebola ser transmitido de uma pessoa para outra, estamos falando de uma zoonose. Além disso, a fonte das infecções iniciais desse surto está associada a transmissão a partir de animais silvestres.

Por esse motivo, o Ebola não pode ser erradicado, pois não possuímos uma vacina eficaz para interromper a transmissão pessoa a pessoa, e o mais importante: por poder infectar outros animais além do homem, o vírus Ebola vai continuar na natureza. Não podemos falar de erradicação, mas sim de controle, e este controle deve ser focado na vigilância de casos suspeitos, não só nos países africanos, mas no mundo inteiro.

Sim, o vírus Zika é um problema grave de saúde pública, mas lembrem-se que o Zika foi introduzido na Copa de 2014 e as Olimpíadas vêm aí! Precisamos ficar de olho … o Dotô com certeza está antenado!

GLOSSÁRIO:

Zoonose: são doenças que podem ser transmitidas do animal para o homem e vice-versa, tanto através do contato direto com secreções ou excreções, quanto através da ingestão de alimentos contaminados de origem animal.

 

REFERENCIAS:

Organização Mundial de Saúde. Ebola report. http://apps.who.int/ebola/current-situation/ebola-situation-report-25-november-2015

Organização Mundial de Saúde. Update Libéria. http://www.who.int/csr/disease/ebola/flare-up-liberia/en/

Organização Médicos Sem Fronteiras. Informações sobre o ebola. http://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/ebola

 

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

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Dotô, me falaram que a Africa está livre do ebola, é verdade?

Por enquanto não, caro paciente. Mas, temos novidades vindas da África Ocidental. A Libéria, por enquanto, parece estar no caminho para se livrar definitivamente do ebola. Até o dia 8 de março a Libéria não notificou novos casos por duas semanas consecutivas. Isso é um avanço, principalmente em um país que vem sofrendo com essa epidemia de ebola há tanto tempo (os primeiros casos na África Ocidental começaram a ser notificados em março de 2014). Mas, como os vírus são imprevisíveis, tudo pode acontecer. A Organização Mundial de Saúde (OMS) só dará o veredicto de que a África estará livre do ebola quando os três países estiverem livres da doença. É necessário prestar atenção, também, pois a movimentação de pessoas nessa região pode causar mais surtos na Libéria. Nesse gráfico podemos observar todos os casos confirmados (em azul) e os locais em que continuam a ocorrer casos nas últimas semanas (bolas amarelas). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), Guiné e Serra Leoa continuam tendo casos até hoje, mas há uma tendência à queda no aparecimento de novos casos.   ebola março nova   Distribuição de casos confirmados de ebola na África Ocidental: totais e novos. Fonte: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/155082/1/roadmapsitrep_11March2015_eng.pdf?ua=1&ua=1. Desde o início do surto em 2014, foram notificados 24.282 casos (incluindo casos suspeitos, prováveis e confirmados), com 9.976 mortes. Na semana de 8 de março, foram confirmados somente 116 casos novos de Ebola, 58 em Serra Leoa e 58 em Guiné. Mas e a vacina Dotô, quando estará disponível para a população? Em fevereiro de 2015, a OMS aprovou duas vacinas para serem testadas em voluntários na África Ocidental. Uma das vacinas foi desenvolvida pelo Instituto Nacional de Saúde (NIH) em parceria com a GlaxoSmithKline (GSK). A outra vacina foi desenvolvida pela empresa de biotecnologia NewLink Genetics em parceria com a Merck. Os ensaios clínicos que começaram na Libéria conseguiram realizar a primeira fase de testes, responsável por avaliar a segurança da vacina. Porém, não puderam continuar, pois não ocorreram novos casos nas duas últimas semanas naquela região. Segundo o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), “Precisamos ter certeza de que escolhemos uma população que ainda está em risco de infecção pelo vírus Ebola para que possamos mostrar o efeito protetor de uma ou de ambas as vacinas.” Por esse motivo, os estudos foram transferidos para Guiné e começaram dia 07 de março. O receio para o desenvolvimento dos testes clínicos da vacina é que a epidemia possa acabar, e os ensaios tenham que ser interrompidos. Aguardemos as próximas notícias! Mas e outras alternativas, Dotô? Existe algum tratamento sendo testado? Outro tratamento, utilizando RNA de interferência (RNAi), também começou a ser testado em humanos, em Serra Leoa. Produzido pela empresa canadense Tekmira Pharmaceuticals e chamado de TKM-Ebola, consiste em RNAi sintéticos recobertos por nanopartículas lipídicas, que possuem a capacidade de bloquear a replicação do vírus. O TKM-Ebola funcionou em macacos e seus ensaios de eficácia ainda estão começando também. Outra terapia alternativa para tratamento é o ZMapp, desenvolvido pela Mapp Biopharmaceutical Inc, que usa três anticorpos monoclonais humanizados diferentes, produzidos contra uma glicoproteína de superfície do vírus Ebola Zaire em plantas de tabaco (Nicotiana benthamiana) para combater a doença. Os ensaios clínicos começaram a ser testados em adultos e crianças infectadas na Libéria no final de fevereiro. O ensaio clínico está disponível na internet em: https://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT02363322 Vale a pena lembrar que o ZMapp já havia sido testado em dois profissionais de saúde norte-americanos infectados, porém os ensaios clínicos só tinham sido feitos em primatas. Você lembra do Kent Brantly e  Nancy Writebol, que foram tratados e sobreviveram? O artigo sobre esses dois casos até foi publicado em uma revista inglesa, chamada The New England Journal of Medicine, mas o próprio autor afirma que não há como concluir o quanto ou se o ZMapp influenciou na sua sobrevivência, pois não houve um controle no estudo. Agora, com a possibilidade do início do estudo em humanos em um ensaio randomizado e com grupos controles, poderemos realmente ver a eficácia e segurança do uso do ZMapp nos indivíduos infectados. Um profissional de saúde voluntário que se infectou em Serra Leoa foi transferido para o NIH para ser tratado. Além dele, outros dez profissionais de saúde estão sob suspeita e também foram enviados para o NIH, por entrarem em contato com o profissional infectado. Agora que os ensaios clínicos se iniciaram, o profissional infectado poderia ser incluído, caso estivesse dentro dos critérios de inclusão, nos ensaios clínicos do ZMapp. Será? Aguardem as cenas do próximo capítulo!

GLOSSÁRIO:

Instituto Nacional de Saúde (NIH) : Agência de pesquisa médica nacional, que inclui 27 Institutos e Centros e faz parte do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. É a principal agência federal que conduz e apoia a pesquisa médica básica, clínica e translacional, além de investigar as causas, tratamentos e curas para doenças raras e comuns.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

National Institutes of Health. Liberia-U.S. clinical research partnership opens trial to test Ebola treatments. Disponível em: http://www.nih.gov/news/health/feb2015/niaid-27.htm. Acessado em 15/03/2015 National Institutes of Health. Ebola Vaccine Trial Opens in Liberia. Disponível em: http://www.nih.gov/news/health/feb2015/niaid-02.htm. Acessado em 15/03/2015 Word Health Organization. Ebola Situation Report – 11 March 2015. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/155082/1/roadmapsitrep_11March2015_eng.pdf?ua=1&ua=1. Acessado em 15/03/2015 Time. Lack of Ebola Cases Shifts Vaccine Trials Away From Liberia. Disponível em: http://time.com/3743945/ebola-vaccine-trials/. Acessado em 15/03/2015. The New England Journal of Medicine. Clinical Care of Two Patients with Ebola Virus Disease in the United States. Disponível em: http://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMoa1409838. Acessado em 16/03/2015. Link de vídeo para a reflexão sobre o ebola, falando sobre as pessoas que lutam no combate ao ebola e a realidade vivenciada pela população, um exemplo para nós. O vídeo está em inglês: Lutadores contra o ebola na África Ocidental

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Dotô, tem como saber se tenho ebola?

Caros pacientes, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aprovou hoje um teste rápido para detecção do vírus ebola! Isso é uma vitória para os países da África Ocidental, onde o vírus ebola continua matando pessoas e se alastrando na população. O kit será distribuído nos países afetados, podendo ser utilizado nas emergências onde estão acontecendo os surtos.

Embora o vírus ebola também possa ser detectado através da detecção do material genético (RNA), que é muito mais preciso, possui uma metodologia mais complexa e precisa ser feitos em laboratórios e por pessoas preparadas. Assim, o diagnóstico final pelo material genético demora mais, podendo levar de 12 a 24 horas para ser feito.

Já o teste rápido é, como o nome diz, muito mais rápido! O teste demora 15 minutos para ser feito, e detecta uma proteína do vírus, ao invés do RNA. Quando comparado com a detecção do RNA, o teste rápido é capaz de identificar 92% dos pacientes infectados com o e ebola e descartar 85% das pessoas não infectadas.

Embora esse teste rápido da OMS seja menos preciso, ele consegue ser rápido, fácil de executar e, o mais importante, não precisa de equipamentos nem eletricidade para ser realizado! Pode ser usado tanto em locais com estrutura mais precária, locais remotos e unidades móveis. Porém, o Dotô alerta que sempre que possível o teste rápido deve ser confirmado pela detecção do RNA.

 GLOSSÁRIO

RNA: ácido ribonucleico, que corresponde ao material genético do vírus ebola

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Nota da OMS sobre o teste rápido: First Antigen Rapid Test for Ebola through Emergency Assessment and Eligible for Procurement. Disponível em: http://www.who.int/medicines/ebola-treatment/1st_antigen_RT_Ebola/en/ Acessado em: 20/02/2015.

Pacientes, curtam esse vídeo com uma música sobre o Ebola, é bem bonito e explicativo, não se esqueçam de colocar a legenda no youtube:

Dotô, e o ebola, como é que tá?

Dotô, e o ebola, como é que tá?

Caro paciente, a epidemia do Ebola na África ainda continua…sem previsão de acabar. De acordo com o último boletim da Organização Mundial de Saúde (OMS), até o momento foram reportados 15.351 casos (dentre casos confirmados, prováveis e suspeitos) em oito países (Guiné, Libéria, Serra Leoa, Mali, Nigéria, Senegal, Espanha e Estados Unidos), totalizando 5.459 óbitos. Enquanto a transmissão do vírus continua intensa em Guiné, Libéria e Serra Leoa, os outros países tiveram apenas casos iniciais ou com transmissão localizada.

Mas e os casos de ebola fora da África?

Caro paciente, tiveram sim, casos fora da África (na Espanha e nos Estados Unidos), mas que já estão contidos e a transmissão cessou. Esses países não são o alvo do problema, devido à magnitude que a maior epidemia do vírus ebola da história está causando na África Ocidental. Só para você ter uma ideia, dá uma olhada nesse gráfico de casos reportados em Guiné, Libéria e Serra Leoa, pra você ter noção de como essa epidemia está crescendo e está bem longe do fim:

mapa da epidemia

 Total de casos reportados nos três países da África Ocidental: Guiné, Libéria e Serra Leoa (CDC, 19 de novembro de 2014).

Dentre esses casos, foram relatados 588 casos em profissionais da saúde, dos quais 337 vieram a óbito. Por isso o Dotô queria aproveitar e deixar um alerta pra dizer para os outros Dotôres, que eles tem que se cuidar. Existe toda uma roupa especial, que esse pessoal deve usar em casos relacionados à epidemia, chamada de equipamento de proteção pessoal, ou simplesmente EPI.

Dotô, eu quero ajudar as pessoas doentes, como faço?

Caro paciente, o Dotô incentiva e admira a sua vontade de participar e desejaria que todo mundo pensasse como você. Por isso, preparei uma listinha de organizações que estão trabalhando bastante pra acabar com essa epidemia.

Uma delas é a Médicos Sem Fronteiras, para doar, basta acessar o site www.msf.com.br

Outro exemplo é a International Medical Corps, onde também é possível doar pelo site https://internationalmedicalcorps.org/ e a Save the Children http://www.savethechildren.org/

E aproveitando que estamos em clima natalino, artistas se uniram para arrecadar fundos para o Combate ao Ebola. Juntos, eles gravaram uma música chamada “Do they Know It´s Christmas?”. Ao baixar a música, caros pacientes, vocês estarão ajudando no combate à essa doença tão devastadora….então, vamos ajudar? Veja o clipe aqui: http://www.bandaid30.com/

Dotô, já teve casos da epidemia atual de Ebola no Brasil?

ebolaFonte: http://rt.com/news/ebola-virus-guinea-border-177/

 

            Meu caro paciente, não entre em pânico, ATÉ O MOMENTO NÃO HOUVE CASO COMPROVADO DE INFECÇÃO PELO VÍRUS EBOLA DENTRO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO.           

            Mas Dotô, eu li na internet sobre dois casos comprovados no Brasil. O primeiro caso diz que um nigeriano teria sido internado no Hospital Universitário Huufma no Maranhão e teria sido diagnosticado com Ebola no começo de agosto de 2014. Este Nigeriano teria morrido e foi ordenado que o caso fosse mantido em sigilo. O outro caso que eu li na internet dizia que dois Africanos foram diagnosticados com Ebola nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Botafogo e de Marechal Hermes no Rio de Janeiro e que, também, a Secretaria de Saúde se recusou a divulgar. Isso é verdade? Será que o governo quer esconder os casos da gente?

            E você acredita em tudo que lê na internet, meu estimado paciente? Não acredite em tudo o que você lê, busque sempre informações de fontes oficiais do governo. Essas mensagens não são verdadeiras, elas apenas ajudam a causar pânico e medo entre a população. Se você estiver em dúvida, você sempre pode perguntar que o Dotô vai te responder ou então acessar o site oficial do ministério da saúde.

            Não foi apenas no Brasil que não foram encontrados casos de Ebola. Até o momento nenhum caso de Ebola foi visto tendo transmissão ocorrendo fora da África. Os únicos casos de indivíduos de fora da África que foram diagnosticados com Ebola foram aqueles em que os indivíduos de alguma forma entraram em contato com pessoas infectadas pelo vírus, seja profissionais de saúde (como enfermeiras ou médicos) ou pesquisadores enquanto estavam na África.

            Mas será que essa epidemia pode chegar aqui no Brasil, Dotô?

Olha, eu tenho duas notícias para você, uma notícia boa e outra notícia ruim.  A notícia ruim é que a transmissão da doença pode chegar até o Brasil. Essa possibilidade de uma epidemia do vírus Ebola no Brasil (e em outros países fora da África) ocorre pois sua transmissão acontece de 2-21 dias após o indivíduo entrar em contato com o vírus (a transmissão começa a ocorrer no mesmo momento em que aparecem os primeiros sintomas). A notícia boa é que é extremamente improvável que ocorra uma epidemia de Ebola aqui no Brasil. Como a transmissão do Ebola ocorre apenas pelo contato direto ou contato com os fluidos corporais de pessoas infectadas (como sangue, urina, fezes ou suor) os pacientes que apresentam os sintomas podem ser isolados e seus contactantes facilmente rastreados e também isolados. Esses pacientes suspeitos, após serem isolados, serão confirmados ou não de estarem infectados pelo vírus e seriam tratados, dificultando assim uma provável epidemia. Diferente do vírus Influenza que se propaga pelo ar através de tosse ou espirros podendo ser facilmente transmitido e aumentando o risco de epidemias, o vírus Ebola, como dito antes, só é transmitido através do contato direto ou contato com fluidos corporais, dificultando a ocorrência de uma epidemia em locais com uma estrutura mínima de saúde.

            Ah Dotô, nessa eu não caio. Se você está falando que é difícil ocorrer uma epidemia do vírus Ebola, porque sempre falam de varias epidemias causadas por ele?

              Por vários motivos. O primeiro deles tem relação ao local onde, geralmente, ocorrem os primeiros casos da epidemia. Geralmente, o vírus Ebola começa a ser transmitido em vilarejos extremamente pobres, desprovidos de assistência básica em saúde. No caso do Ebola, os casos só são diagnosticados após o inicio dos sintomas e consequente começo da transmissão. Então, quando as autoridades começam a observar o aparecimento de indivíduos infectados pelo vírus, o número de casos suspeitos já é relativamente grande e a cadeia de transmissão pessoa-pessoa já se estabeleceu. O segundo problema é a cultura local. Alguns povos africanos tem como tradição velar seu ente querido após a sua morte, tendo como costume, inclusive, a lavagem do corpo dos mortos, o que aumenta o contato direto com o individuo infectado, aumentando o número de pessoas infectadas. Agora imaginem o que eles acham de não poder seguir essa tradição? Sim, pois logo que chegam os médicos e pesquisadores o seu ente querido é isolado do resto da população e nunca mais é visto (pois morreu infectado pela doença). Simplesmente, uma parte das pessoas dessas regiões infectadas acreditam que a doença não existe e que os órgãos de saúde não estão lá para ajuda-los e sim para extermina-los. Alguns profissionais são recebidos com pedradas pelos moradores dessas regiões. Esse fato dificulta a cooperação desses individuos com os profissionais de saúde. Chegando a ocorrer casos em que um possível caso de Ebola não é relatado aos profissionais de saúde, pois o individuo doente tem medo de ser morto pelos agentes de saúde.

            Por esses motivos, é difícil que ocorra uma epidemia de Ebola no Brasil e em outros países fora da África. Mas é sempre bom ficar de olho. O Dotô está observando atentamente a evolução da epidemia de Ebola e irá atualiza-los aos poucos. Teremos novos posts logo, logo. Podem contar.

            Ahhhh….não deixem de ler nosso primeiro post sobre a epidemia do Ebola e a crítica do filme Epidemia que se baseou na infecção pelo vírus Ebola.

Agora um vídeo divertido sobre o Ebola.

Observação do Dotô: O vídeo contém algumas explicações sobre o Ebola erradas. Você consegue descobrir quais? Se conseguir, deixe um recado para o Dotô.

GLOSSÁRIO:

Contactantes: indivíduos que tiveram contato com um indivíduo doente.

Corram para as colinas, o vírus Ebola está de volta!

 

O Dotô vai explicar o que esta acontecendo na Guiné e o porquê do pânico relacionado a esse vírus.

foto

Surto na Guiné

     Desde o final do mês de março casos de infecções causadas pelo vírus Ebola vem sendo registrados na África, a maioria ocorrendo na Guiné. Em aproximadamente 15 dias, 208 casos clinicamente compatíveis foram reportados às autoridades de saúde locais, onde cerca de 60% dos pacientes vieram à óbito. O surto se iniciou na região sudeste do país, mas logo se expandiu para a capital. Os casos têm ocorrido em todas as faixas etárias e em ambos os sexos. Mais de 623 contactantes foram rastreados e estão sob acompanhamento médico e 23 indivíduos encontram-se em isolamento.

     O Ministério da Saúde do país junto com a Organização Mundial de Saúde (OMS) instituíram campanhas em massa veiculadas através da mídia local (rádio e TV), redes sociais e até mensagens de texto. As amostras de casos suspeitos estão sendo enviadas para laboratórios especializados que compõe a rede de patógenos emergentes e perigosos situados na África e na Europa.

      Alertas têm sido gerados principalmente aos viajantes daquela região. A preocupação é de que o surto se dissemine para outros países. Casos importados foram identificados na Libéria (30 casos suspeitos), Mali (quatro casos suspeitos) e Serra Leoa com 19 casos suspeitos. Um caso suspeito no Canadá e outro em Gana foram logo descartados, assim que os testes laboratoriais mais específicos foram realizados.

 Boletins diários contendo as informações sobre o surto na Guiné são emitidos no site da OMS: http://www.who.int/csr/don/archive/year/2014/en/

O porquê de tanto pânico Dotô?

      Meu caro paciente, o vírus Ebola é constantemente associado com medo e pânico, devido à sua alta taxa de letalidade, cerca de 90%, ou seja, aproximadamente 90% dos indivíduos infectados vão a óbito. O vírus pode ser transmitido de uma pessoa para outra através do contato com sangue e secreções (saliva, urina, fezes e sêmen) provenientes de indivíduos infectados. Uma das características marcantes da doença causada por esse vírus é o sangramento interno e externo que ocorre em alguns casos. Não existe um tratamento específico ou uma vacina.

      Apesar da febre hemorrágica causada pelo vírus Ebola ser considerada uma zoonose, o animal responsável pela transmissão e disseminação desse agente ainda não foi reconhecido. Acredita-se que morcegos frutívoros sejam os prováveis reservatórios naturais deste vírus, mas primatas não humanos, antílopes e suínos já foram encontrados infectados. Sendo assim, não se sabe ao certo como o homem adquire a infecção.

     Este vírus possui um histórico um tanto quanto sinistro, onde aldeias inteiras foram dizimadas durante surtos ocorridos nas primeiras décadas após sua identificação. Um total de 2.387 casos de febre hemorrágica por Ebola, com 1.590 mortes foram registradas de 1976 a 2012 na África Central. Somado a esses fatores, estão a dificuldade de contenção desde vírus, assim como o grande numero de profissionais de saúde que se infectam a partir do contato com os doentes e suas secreções.

      Um exemplo desse pânico pode ser visto em países vizinhos à Guiné, como o Senegal, onde a população já evita contato próximo como o apertar de mãos. Comerciantes de produtos oriundos da Guiné encontram dificuldades em vender seus produtos e os hospitais já se encontram em alerta para isolar qualquer paciente que apresente sinais e sintomas compatíveis com a doença.

        Bem meus caros pacientes, deixo prescrito para vocês apenas uma boa dose de reflexão sobre a fragilidade das unidades de saúde e da população em geral frente às doenças virais de alta letalidade como o vírus Ebola. Adicione a isso a proximidade da copa do mundo e a diversidade de microrganismos que podem ser trazidos pelos jogadores e, principalmente, torcedores de diversas nacionalidades e a facilidade de se deslocar de um país a outro em questão de horas. Pensem no numero de agentes virais que podem chegar ao Brasil?!

Será que estamos preparados? Fica a reflexão!

GLOSSÁRIO:

Contactantes: indivíduos que tiveram contato com um indivíduo doente.

Zoonose: doenças que são transmitidas dos animais para o homem.

Frutívoros: se alimentam de frutas.