Dotô, a epidemia do filme Contágio pode virar realidade?

filme contagio

O Dotô está aqui hoje para discutir um dos seus filmes preferidos sobre epidemias virais na atualidade. Se você nunca viu o filme, cuidado! Não leia esse post, pois ele contém spoilers! Vamos discutir aqui qual o objetivo desse filme, quais foram as ferramentas utilizadas, pontos altos e baixos, e fazer uma reflexão se, afinal, a epidemia do filme Contágio pode ou não virar realidade?

 Dotô, qual o objetivo do filme Contágio?

 O filme tem como objetivo divulgar a ciência e seus impactos na nossa realidade. O diretor buscou mostrar o universo científico que envolve uma epidemia de origem desconhecida e todas as etapas de vigilância epidemiológica da descoberta do agente responsável, neste caso um novo vírus, sua transmissão, o pânico gerado, e a produção de uma vacina.

 Mas Dotô, o que o diretor fez de diferente nesse filme?

 Elaborar um filme sobre uma epidemia fictícia é uma tarefa árdua. Com os avanços cada vez maiores da ciência e tecnologia e com os recursos audiovisuais disponíveis, aliados a um público cada vez mais exigente, os diretores de cinema se unem a pesquisadores científicos (como pesquisadores do Centro de Controle de Doenças – CDC) para fazer um filme de ficção científica com um apelo que se assemelha à realidade. E foi assim que aconteceu no Filme Contágio: muita pesquisa foi feita para torna-lo ultrarrealista, como a inspiração dos roteiristas em vírus reais para criar um vírus fictício, chamado de MEV-1. Assistir a este filme claramente nos remete a outro filme clássico, Epidemia (1995), (veja o nosso post sobre esse filme aqui) que retrata uma história de ficção científica sobre uma epidemia causada por um vírus letal, semelhante ao vírus ebola, causador de febre hemorrágica viral, altamente letal.

Remetendo a uma reportagem da Revista Veja, “Estamos preparados para enfrentar um vírus igual ao do filme Contágio?”, (2011), o Jornalista Jones Rossi aborda justamente a possibilidade desse contexto cinematográfico do filme se tornar uma realidade. O autor dá exemplos dos vírus mais perigosos do mundo, como o vírus da gripe, varíola, ebola, marburg, etc. Ao lermos o texto escrito por Jones Rossi e se o compararmos com o filme, vemos algumas semelhanças com a realidade, mas precisamos ser críticos com esse filme de ficção científica.

 Dotô, quais são os pontos altos do filme?

  A iniciativa do filme em retirar os cientistas da “torre de marfim”, simbolizada pelos prédios do CDC e da Organização Mundial de Saúde (OMS) e mostrá-los como pessoas reais, que erram, com sentimentos, que também podem ficar doentes e até morrer, é de extrema importância para desmistificar a visão da população quanto ao profissional da ciência. Os Dotôres não são pessoas antissociais e malucas, eles são normais, possuem famílias, amigos e os mesmos problemas que todo mundo tem.

No filme, os detentores do conhecimento seriam os centros de investigação científica, e a população em pânico sofreria com esse déficit do entendimento da epidemia, ansiosos por uma explicação do que estava acontecendo. Essa película também retrata de maneira fidedigna o caos gerado por uma pandemia desconhecida, com a instalação do pânico e inclusive a divulgação de informações errôneas, como o jornalista fanático que escrevia em um blog, dizendo descobrir uma medicação eficaz contra o vírus. O filme, de maneira criativa, demonstra o vírus se espalhando na população, desde o primeiro caso (caso índice). Porém, deixa somente para o final como esse vírus teria atingido os humanos, o que permite ao telespectador criar diversas hipóteses de como a primeira pessoa a ficar doente teria se infectado. O filme retrata que a necessidade de informações sobre ciência por parte da população são maiores em momentos de crise (nesse caso, a crise seria a epidemia do MEV-1), quando os próprios cientistas estariam incertos quanto aos fatos, pois a “ciência” estava sendo construída (os cientistas estavam pesquisando qual era a causa de tantas mortes).

 Dotô, quais são os pontos baixos do filme?

  O tempo entre a descoberta do vírus e a fabricação da vacina foge à realidade. Apesar de já termos ferramentas disponíveis que nos permitem fazer a descoberta de novos microrganismos, essas ferramentas estão limitadas aos grandes centros de referência, por serem locais onde são mantidos laboratórios aptos a manipular esses patógenos, chamados de Laboratórios de Nível de Segurança 4 (NB4). Por ser um filme norte-americano, observa-se um forte apelo na “propaganda” do CDC, não foi à toa que esse filme teve recorde de bilheteria nos EUA na época de estreia. Além disso, sabe-se que o tempo de aprovação de uma vacina é longo, geralmente são necessários 10 anos de estudos clínicos e uma forte injeção monetária das indústrias farmacêuticas para torná-la comercial. Porém, quando o risco de morte é iminente (como no filme), etapas acabam sendo deixadas de lado, podendo gerar muitos efeitos colaterais. Um exemplo de vacina que é produzida anualmente em apenas seis meses é a vacina da gripe, para ser aplicada na população de risco, e que contribui diminuindo a taxa de mortalidade, principalmente em idosos, mas que está fortemente associada à efeitos adversos nessa faita etária.

Muita gente diz que não gostou do filme por não ser cheio de emoções, sendo semelhante a um documentário, ficando sem entender algumas partes. Mas, olhando cientificamente, foi exatamente o fato de parecer um documentário que fez o Dotô gostar tanto do filme.

Dotô, qual o público-alvo do filme?

 Pessoas que frequentam o cinema, que alugam o DVD, ou que baixam filmes. A classificação indicativa do filme é de 12 anos, embora o ideal seja uma classificação de 16 anos. Por se tratar de um filme mais técnico, sugere-se utilizá-lo como objeto de estudo entre estudantes universitários, das mais diversas áreas, seja de comunicação ou de saúde. Também pode ser aplicado em contextualização com grupos de discussão sobre o tema que permitindoum diálogo mais voltado para a realidade da nossa população eque inclusive possam englobar a conversa com especialistas multidisciplinares para esclarecer as dúvidas e decodificar alguns aspectos técnicos do filme.

Trazendo o filme para a nossa realidade, em 2014 e 2016, o Brasil como um todo e em especial, o Rio de Janeiro, será palco de eventos esportivos, a Copa do Mundo, e as Olimpíadas. Porém, atualmente, nós não temos uma estrutura de hospitais públicos de qualidade para lidar com doenças emergentes que se disseminem pela população, importadas de outros países, por isso, o Brasil não está preparado para enfrentar um vírus igual ao do  filme, nossa estrutura não permite atender aos pacientes e a taxa de letalidade seria elevada. Infelizmente, precisaríamos de ajuda externa para lidar com a situação. Os governos atuais não levaram a saúde como premissa de atuação, e acabaram confirmando a hipótese do jogador Ronaldo de que Copa se faz com estádios e não com hospitais. As consequências dessa escolha estão presentes no dia-a-dia da população, independente da existência de uma epidemia viral: morte da população por descaso, falta de atendimento, filas e falta de estrutura. Essa é a realidade. O Dotô recomenda a todos os seus pacientes que assistam ao filme em casa, com amigos e famílias, e que discutam com seus colegas sobre esse tema após o filme. O assunto pode ser muito enriquecedor!

 Trailer do filme:

GLOSSÁRIO:

 

Caso índice: É o primeiro caso que chama a atenção do investigador pelo que determina uma série de ações necessárias para conhecer um foco de infecção.

Centro de Controle de Doenças – CDC: Órgão norte-americano localizado em Atlanta responsável pelo controle e vigilância de doenças infectocontagiosas.

 

Laboratórios de Nível de Segurança 4 (NB4): Laboratórios de Nível de Biossegurança 4 são utilizados para pesquisa e diagnósticos que envolvam agentes exóticos e perigosos que exponham o indivíduo a um alto risco de contaminação de infecções que podem ser fatais, além de apresentarem um potencial relevado de transmissão por aerossóis, classificados como microrganismos da classe de risco 4.

 

BIBLIOGRAFIA:

 Filme Contágio (2011), dirigido por Steven Soderbergh.

ROSSI, JONES. Estamos preparados para enfrentar um vírus igual ao do filme ‘Contágio’? Revista Veja, 2011. Disponível em:

http://veja.abril.com.br/noticia/saude/estamos-preparados-para-enfrentar-um-virus-igual-ao-do-filme-contagio#amea%C3%A7a