Dotô, existem vírus que fazem bem?

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Sim, existem vírus que não deixam a gente doente e, ainda por cima, possuem atividade antimicrobiana. Hoje, falaremos dos bacteriófagos, vírus com a capacidade de infectar bactérias.

Um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos trabalha na detecção de bacteriófagos, também chamados de fagos, são vírus que infectam exclusivamente as bactérias, na mucosa do trato gastrointestinal de diversas espécies, como corais, peixes e seres humanos. Os fagos possuem uma estrutura bastante complexa, apresentando uma região chamada de cabeça e uma região chamada de cauda, de ondem saem diversas fibras.  Eles possuem diferentes aplicações na pesquisa, podendo ser usados como vetores para inserir um ou mais genes de outro organismo em uma bactéria ou também como um método alternativo para o uso de antibióticos no tratamento de infecções bacterianas, pois muitas bactérias apresentam resistência a um amplo espectro de antimicrobianos. Baseado no fato do muco produzido pela mucosa do intestino criar uma barreira de proteção muito importante contra agentes infecciosos, esse grupo conseguiu observar que há uma alta porcentagem de bacteriófagos na mucosa intestinal. Outro dado interessante é que esses bacteriófagos possuem em seu capsídeo proteínas semelhantes à imunoglobulina, que confere a capacidade de se mantê-los aderidos na mucosa do intestino, protegendo-a contra infecções.

Para testar essa hipótese, os pesquisadores adicionaram em cultura de células in vitro uma bactéria muito famosa chamada Escherichia coli (E. coli). Essas bactérias foram divididas em dois grupos: um grupo tratado com bacteriófagos e outro grupo não tratado. As células que foram tratadas com bacteriófagos foram protegidas da infecção bacteriana pela E. coli quando comparadas com o grupo não tratado. Agora o objetivo do estudo é avaliar se esses bacteriófagos conseguem matar a bactéria de forma específica ou se eles simplesmente aumentam os mecanismos da resposta imunológica inata de manter a microbiota da mucosa normal.

Caros pacientes, vocês estão vendo a importância disso? No nosso corpo temos vírus que fazem bem! Que infectam bactérias, podendo inibir o crescimento de microrganismos patogênicos no nosso intestino! Não é demais? O Dotô também adorou! Agora imagina construir bacteriófagos semelhantes aos do nosso intestino para tratar aquela infecção intestinal brava, bye bye bye antibióticos! Adeus efeitos colaterais. E o mais importante, vai contribuir para diminuir a resistência aos antibióticos! O Dotô gostou da ideia e é a favor de mais pesquisas que utilizem bacteriófagos, até porque ele está cansado de prescrições errôneas de antibióticos, de colegas de profissão que receitam antibióticos para qualquer coisa. Isso é o que eles chamam de “virose”, um conceito já debatido antes aqui no blog e que sempre é bom reafirmarmos. Viva os métodos alternativos!

GLOSSÁRIO:

Atividade antimicrobiana: Capacidade de inibir o crescimento de microrganismos bacterianos.

Bacteriófagos: Vírus que apresentam material genético de DNA e RNA que infectam somente procariotos, que são organismos que não apresentam membrana nuclear, diferentemente dos vírus que infectam eucariotos, que são organismos que apresentam membrana nuclear.  Possuem a capacidade de se invadir a bactéria e rapidamente se multiplicar, lisando a bactéria e liberando novos fagos (chamado de ciclo lítico). Ou então o material genético do bacteriófago pode se integrar ao material genético da bactéria, se multiplicando junto com o genoma da bactéria (chamado ciclo lisogênico).

Cultura de células in vitro: Células que se proliferam em garrafas de cultura em um ambiente controlado para simular o que acontece num organismo.

Escherichia coli: Bactéria mais conhecida que infecta o intestino. Porém, existem tipos de E. coli diferentes que podem vir a causar doenças, sendo a mais famosa a infecção intestinal, causando diarreia.

Imunoglobulina: Conhecido popularmente como anticorpo.  É importante para proteger o organismo de uma forma específica e mais tardia contra um microrganismo.

Microbiota: Bactérias presentes no organismo que contribuem para o seu bom funcionamento, além de fornecer proteção.

Resposta Imunológica Inata: Mecanismo do hospedeiro de se proteger imediatamente contra um microrganismo.

Trato gastrointestinal: Compreende o sistema digestivo humano, incluindo boca, faringe, esôfago, estômago, intestino delgado (formado pelo duodeno, jejuno e íleo), intestino grosso, (formado pelo ceco, apêndice, cólon e sigmoide), reto e ânus.