Dotô, eu preciso tomar vacina da gripe todo ano?

gripe

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A gripe é uma doença causada pelo vírus influenza, que pode ser prevenida anualmente através da vacina anti-influenza. Embora qualquer pessoa, a partir de seis meses de idade, possa tomar a vacina, apenas alguns grupos têm direito a vacina gratuitamente na rede pública de saúde. Isso porque a intenção da vacina não é evitar ou até mesmo eliminar a doença como, por exemplo, as vacinas da poliomielite ou do sarampo. O objetivo da vacinação contra o vírus influenza é reduzir a morbidade e a mortalidade nas populações que têm maior chance de desenvolver a forma mais grave da doença.

Os grupos prioritários a serem vacinados de acordo com recomendações do Ministério da Saúde são:

Crianças de 6 meses a menores de 5 anos;
Gestantes;
Puérperas;
Trabalhador de saúde;
Povos indígenas;
Indivíduos com 60 anos ou mais de idade;
População privada de liberdade;
Funcionários do sistema prisional;
Pessoas portadoras de doenças crônicas não transmissíveis;
Pessoas portadoras de outras condições clínicas especiais (doença respiratória crônica, doença cardíaca crônica, doença renal crônica, doença hepática crônica, doença neurológica crônica, diabetes, imunossupressão, obesos, transplantados e portadores de trissomias).
Fonte: Portal da Saúde – Ministério da Saúde

A gripe pode ser causada pelos vírus influenza A (subtipos H1N1pdm09 ou H3N2) e pelo vírus influenza B. A vacina anti-influenza protege para todos esses vírus e anualmente a OMS (Organização Mundial da Saúde) reune-se para que, com base em relatórios dos países do Hemisfério Sul reportando quais cepas virais irão circular no inverno de cada uma das regiões, possa recomendar quais serão as cepas vacinais que irão compor a vacina do ano seguinte.

Mas Dotô, por que tem que tomar a vacina todos os anos?

Porque os vírus influenza possuem uma taxa de mutação muito alta, isso significa dizer que o vírus pode mudar muito de um ano para o outro, sendo assim a vacina do ano anterior pode não proteger para o vírus que circula no ano seguinte. Além disso, algumas pesquisas científicas mostram que a imunidade contra o vírus dura entre seis meses a um ano, reforçando a necessidade de uma nova dose da vacina a cada ano.

Então, se você faz parte de algum grupo prioritário, deve tomar a vacina anti-influenza todos os anos sim, preferencialmente entre os meses de abril a junho quando o vírus, normalmente, começa a circular no Brasil.

Muitos cientistas estudam uma forma de produzir uma vacina universal que proteja de forma mais duradoura contra qualquer tipo de vírus influenza, porém esses estudos ainda não mostraram nenhum candidato à vacina eficaz.

Caso você tenha curiosidade sobre a produção da vacina anti-influenza, veja no link abaixo um vídeo abaixo mostrando como o Instituto Butantan fabrica a vacina:
Como é feita a vacina da gripe?

 

GLOSSÁRIO

Morbidade: número de pessoas doentes com relação a uma doença e uma população.
Puérpera: mulher que acabou de parir.
Trissomias: presença de um cromossomo extra
Cepa viral: vírus de uma determinada espécie viral que já foi caracterizado fenotipicamente e/ou genotipicamente.

REFERÊNCIAS:

SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. Influenza.  2016.  Disponível em: < http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/svs/influenza >.  Acesso em: 13 de novembro de 2016.

SIQUEIRA, M. M.  et al. Influenza. In: COURA, J. R. (Ed.). Dinâmica das doenças infecciosas e parasitárias. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, v.2, 2013. cap. 161, p.1855-1872.  (Doenças produzidas por vírus). ISBN 9788527710947.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Health topics. Influenza.  2016.  Disponível em: < http://www.who.int/topics/influenza/en/ >. Acesso em: 13 de novembro de 2016. (página em inglês)

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

Texto realizado pelo alun de pós-graduação em Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Priscila Born, sob a orientação da Dra Elba R. Sampaio de Lemos e Dra Renata Carvalho de Oliveira.

 

 

Dotô, vamos falar de zika?

zika olimpiadas

Jader Correa (Jornal O Correio)

 

Caros pacientes, em março, o Dotô assistiu a uma palestra na Fiocruz sobre o vírus zika e a microcefalia, a maior preocupação em saúde pública do Brasil nesse momento. Para repassar o que foi discutido nesse dia e pelo impacto direto na saúde de nossas crianças, o Dotô fará três postagens sobre o que foi apresentado nessa palestra, continuando os especiais pelos três anos de existência do nosso querido blog Dotô, é virose?.

A primeira postagem é sobre a palestra da pesquisadora do Laboratório de Flavivírus, Drª Patrícia Carvalho de Sequeira, que contou a história do zika vírus, como ele chegou ao Brasil e o panorama atual.

O vírus zika foi isolado em 1947 em macacos rhesus na Floresta Zika (daí o seu nome), na Uganda. O pesquisador responsável (Dick) inoculou o soro desses animais no cérebro de camundongos para observar seu efeito no sistema nervoso central. Além disso, Dick também fez um macerado de mosquitos (Aedes africanus) e também inoculou no cérebro de camundongos para investigação.

Outro experimento feito em 1956 por um pesquisador chamado Bearcroft, ocorreu quando este pesquisador inoculou o macerado de cérebro de camundongo com o suposto vírus zika em um voluntário. Doideira não é? Pois é, foi assim que ele observou as manchas típicas na pele, chamada de exantema. Além disso, depois de apresentar os sintomas, ele inoculou o soro do voluntário no cérebro de camundongos (como fizeram com o soro dos macacos). E ainda tem mais: quando o voluntário foi picado pelo Aedes aegypti, a infecção não se perpetuou, indicando que esse Aedes não estava adaptado ao vírus zika na época.

Em 2007 aconteceu o primeiro grande surto do vírus zika, na ilha de Yap, na Micronésia, sendo observada a presença das manchas na pele, conjuntivite (pela primeira vez descrita) e dor nas articulações, mas nenhuma manifestação grave.

Em 2013/2014, ocorreu um surto do vírus zika na Polinésia Francesa, chegando na Ilha de Páscoa em 2014. Foi nesse momento que os médicos observaram os primeiros casos de Síndrome de Gullain-Barré, e descreveram a possível transmissão perinatal do vírus zika para o feto (sem microcefalia até então).

O vírus teria chegado ao Brasil em março de 2015. Existem duas hipóteses: de que teria chegado ao Brasil durante a copa do mundo ou então por atletas da polinésia francesa que vieram em 2014 para um campeonato de canoagem. Na mesma época, o primeiro caso de transmissão autóctone no Brasil foi confirmado por biologia molecular, usando uma técnica chamada RT-PCR e confirmado por sequenciamento e análise filogenética.

Em um determinado momento, a população fica apreensiva: um vírus com fortes indícios de que pode estar relacionado a casos de microcefalia em bebês. Então, surgem dúvidas quanto à possível via de transmissão: seria pela urina? Pela saliva? Por transmissão sexual? A única confirmada foi a transmissão transparentaria, onde o vírus pode atravessar a placenta da mãe e infectar o bebê, causando lesão neurológica. Então, em novembro de 2015, a Fiocruz do Rio de Janeiro, em parceria com a Paraíba, confirmou por biologia molecular a presença do vírus zika em amostras de líquido amniótico de gestantes apresentando sintomas característicos de uma infecção pelo vírus zika. Outro estudo brasileiro confirmou que o vírus zika circulante no país tem origem da polinésia francesa, e por análise filogenética inclusive, confirmou a sua semelhança com o vírus da encefalite japonesa.

A partir daí um estudo feito com mulheres grávidas no Estado do Rio de Janeiro, observou que casos de microcefalia em gestantes podem acontecer em qualquer momento da gestação (mulheres de 8 a 35 semanas de gestação apresentaram anomalia fetal), reforçando então a prevenção durante toda a gravidez. A notificação então se tornou obrigatória e cerca de 500 municípios brasileiros já confirmaram casos de microcefalia até o momento da publicação desse post.

Então tá, Dotô…agora que você já contou a historinha do vírus zika, eu quero saber: minha sobrinha está grávida e cheia de manchas na pele e conjuntivite, como eu posso saber se ela está ou não com esse tal de vírus zika?

Primeiro ela deverá ir a um médico especialista (obstetra ou infectologista, por exemplo) que a orientará e investigará o caso dela e do bebê. Ele vai fazer uma série de perguntas e avaliar clinicamente sua sobrinha e o bebê. Ele pedirá exames como ultrassonografia, exames do pré-natal, sorologia para outras doenças que possuem sinais e sintoma semelhantes ao vírus zika, dentre outros. Caso as outras doenças forem excluídas e sua sobrinha for um caso suspeito de infecção pelo vírus zika, ele solicitará um exame chamado PCR em tempo real para zika vírus, que confere um resultado rápido e sensível. É importante coletar o sangue da sua sobrinha até 5 dias do início dos sintomas, pois é quando o vírus está circulando no soro dela. Além disso, seria interessante coletar a urina e levar junto no dia do exame. A urina entra como uma opção alternativa caso o teste não detecte o vírus nesse período, já que o vírus é encontrado na urina por um período bem maior do que no soro.  A detecção do vírus no soro da sua sobrinha é feita pesquisando uma região específica do material genético do vírus zika, que codifica o envelope do vírus.

Caros pacientes, essa é a primeira sessão especial sobre o vírus zika. Na próxima falaremos sobre a microcefalia e o impacto na vida de nossas crianças. Aguarde e até mais!

Para quem quiser dar uma espionada nos artigos que foram publicados sobre a história do vírus zika e a sua chegada ao Brasil, o Dotô fez um compilado para que seus pacientes antenados possam se atualizar. Informação é sempre a melhor forma de prevenção! Enjoy it!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DICK GW, KITCHEN SF, HADDOW AJ. Zika virus. I. Isolations and serological specificity. Trans R Soc Trop Med Hyg. 1952 Sep;46(5):509-20. PubMed PMID: 12995440.

DICK GW. Zika virus. II. Pathogenicity and physical properties. Trans R Soc Trop Med Hyg. 1952 Sep;46(5):521-34. PubMed PMID: 12995441.

BEARCROFT WG. Zika virus infection experimentally induced in a human volunteer. Trans R Soc Trop Med Hyg. 1956 Sep;50(5):442-8. PubMed PMID: 13380987.

Duffy MR, Chen TH, Hancock WT, Powers AM, Kool JL, Lanciotti RS, Pretrick M, Marfel M, Holzbauer S, Dubray C, Guillaumot L, Griggs A, Bel M, Lambert AJ, Laven J, Kosoy O, Panella A, Biggerstaff BJ, Fischer M, Hayes EB. Zika virus outbreak on Yap Island, Federated States of Micronesia. N Engl J Med. 2009 Jun 11;360(24):2536-43. doi: 10.1056/NEJMoa0805715. PubMed PMID: 19516034.

Besnard M, Lastere S, Teissier A, Cao-Lormeau V, Musso D. Evidence of perinatal transmission of Zika virus, French Polynesia, December 2013 and February 2014. Euro Surveill. 2014 Apr 3;19(13). pii: 20751. PubMed PMID: 24721538.

Cao-Lormeau VM, Roche C, Teissier A, Robin E, Berry AL, Mallet HP, Sall AA, Musso D. Zika virus, French polynesia, South pacific, 2013. Emerg Infect Dis. 2014 Jun;20(6):1085-6. doi: 10.3201/eid2006.140138. PubMed PMID: 24856001; PubMed Central PMCID: PMC4036769.

Oehler E, Watrin L, Larre P, Leparc-Goffart I, Lastere S, Valour F, Baudouin L, Mallet H, Musso D, Ghawche F. Zika virus infection complicated by Guillain-Barre syndrome–case report, French Polynesia, December 2013. EuroSurveill. 2014 Mar 6;19(9). pii: 20720. PubMed PMID: 24626205.

Zanluca C, de Melo VCA, Mosimann ALP, dos Santos GIV, dos Santos CND, Luz K. First report of autochthonous transmission of Zika virus in Brazil. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. 2015;110(4):569-572. doi:10.1590/0074-02760150192.

Brasil P, Pereira JP Jr, Raja Gabaglia C, Damasceno L, Wakimoto M, Ribeiro Nogueira RM, Carvalho de Sequeira P, Machado Siqueira A, Abreu de Carvalho LM, Cotrim da Cunha D, Calvet GA, Neves ES, Moreira ME, Rodrigues Baião AE, Nassar de Carvalho PR, Janzen C, Valderramos SG, Cherry JD, Bispo de Filippis AM, Nielsen-Saines K. Zika Virus Infection in Pregnant Women in Rio de Janeiro – Preliminary Report. N Engl J Med. 2016 Mar 4.

Calvet G, Aguiar RS, Melo AS, Sampaio SA, de Filippis I, Fabri A, Araujo ES, de Sequeira PC, de Mendonça MC, de Oliveira L, Tschoeke DA, Schrago CG, Thompson FL, Brasil P, Dos Santos FB, Nogueira RM, Tanuri A, de Filippis AM. Detection and sequencing of Zika virus from amniotic fluid of fetuses with microcephaly in Brazil: a case study. Lancet Infect Dis. 2016 Feb 17.

 

Dotô, é verdade que a microcefalia é causada pela vacina de Rubéola?

grávida

Fonte: http://www.canalgravidez.com.br

                Não, é mentira. Uma mentira extremamente exagerada e sem nexo.  Quando a mulher engravida, algumas vacinas são necessárias como a vacina de tétano e difteria causadas por bactérias, bem como a vacina da gripe causada pelo vírus Influenza. Mas a vacina da Rubéola é contra-indicada na gravidez. Na verdade, a vacina da Rubéola em grávidas pode causar uma doença chamada “Sindrome da Rubéola Congênita”, que afeta principalmente os fetos quando a mãe é vacinada no primeiro trimestre de gravidez. Essa doença pode causar aborto e comprometer o desenvolvimento do feto, causando mal formações como deficiência auditiva, catarata, glaucoma e deficiência auditiva. Podendo ainda causar retardo do desenvolvimento e diabetes mellitus. A vacina é formada pelo vírus da Rubéola no estado atenuado (vacina atenuada), que não causa a doença em geral, mas em grávidas, pelo seu sistema imune estar fraco, o vírus pode reverter e causar a doença. Por esse motivo, ela não é indicado para grávidas.

                Por conta desta contraindicação para grávidas é que esse boato não tem cabimento. O boato surgiu na semana passada quando uma pessoa, que não parece conhecer direito a área de saúde, afirmou em um vídeo no youtube e em sua página no facebook de que a microcefalia causada pelo Zika, na verdade era causada por um lote de vacina de Rubéola vencido que estava sendo inoculado nas grávidas e, por isso, os bebês estavam tendo microcefalia. Se você, caro paciente, procurar um pouco na internet para se informar melhor verá que o que foi dito pelo individuo não faz o mínimo sentido, pois além de não ser indicada a vacinação para Rubéola em grávidas, ele faz várias afirmações que não coincidem com a realidade na virologia. Vocês podem até fazer uma brincadeira. Vejam o vídeo e tentem descobrir quantas vezes ele falou besteiras sobre a virologia. Chamem seus amigos. Vai ser super divertido. Aqui está o link para vocês brincarem: https://www.youtube.com/watch?v=Boy9_naXBEA

Além desse boato, outros boatos apareceram. Segue alguns dos que o Dotô soube:

1) O Zika não veio na Copa, foi produzido em laboratório.

2) O Zika só apareceu pois os mosquitos geneticamente modificados soltos pela Fundação Oswaldo Cruz para tentar diminuir a quantidade de mosquitos transmissores do mosquito da dengue, foram capazes de se infectar pelo Zika (então a culpa é da Fundação Oswaldo Cruz).

3) A epidemia de Zika é muito maior do que pensamos e o governo está escondendo tudo, a maior parte das crianças que nascerão em 2016 terão microcefalia (A verdade está lá fora…).

4) Alguns repelentes caseiros são mais fortes do que outros repelentes para “espantar” o Aedes aegypti.

4) O Zika só veio para o Brasil, pois ele gosta de futebol.

                Esses boatos atrapalham mais do que ajudam os Dotôres e o Ministério da Saúde. Simplesmente, pois ao acreditar nesses boatos as pessoas começam a deixar de se cuidar e, com isso, pode aumentar o número de mosquitos e aumentar o número de nascimentos de crianças com microcefalia. Afinal, para que se cuidar se a culpa não é do mosquito? Além disso, o alarde e preocupação das pessoas tem aumentado muito o uso de repelentes em crianças de todas idades, o que levou ao aumento de crianças com problemas ao usar os repelentes. Principalmente repelentes caseiros, não certificados. O filme Contágio mostra bem isso, quando um jornalista (interpretado pelo ator Jude Law), acredita que existe um remédio que pode tratar a infecção causada pelo vírus MEV-1 e alerta a população, dizendo que o governo está escondendo da população que esse remédio pode levar à cura da doença. Ao ver esse relato do jornalista, várias pessoas começam à procurar esse remédio e o utilizam acreditando que vão ser curados. O que não é bem a verdade. Assistam o filme, ele é bem interessante.

                Além dos boatos relacionados ao Zika, vários boatos relacionados à virologia vem sendo espalhado pela internet, facebook e o whatsapp todos os dias e muitas pessoas estão acreditando em boatos assim. É só pararmos para pensar se realmente faz sentido acreditar em um áudio que você recebeu pelo whatsapp de alguém que você não conhece ou de um vídeo de uma pessoa qualquer dizendo que vai acontecer isso ou aquilo, ou de que a causa de determinada doença não é exatamente a que a ciência diz. Você tem que avaliar o seguinte: Eu devo acreditar em uma pessoa sem credenciais cientificas, que não estudou, que não é um especialista na área ou acreditar em profissionais altamente gabaritados que passam a vida discutindo, estudando, testando e aplicando o seu conhecimento para melhorar a saúde da população? Uma imagem postada no facebook está mais correta do que páginas oficiais como as páginas da Fiocruz, Ministério da Saúde ou Organização Mundial da Saúde? Antes de pensar em uma teoria da conspiração pense em como as coisas podem dar errado se você não acreditar no trabalho dos dotôres e da ciência. Pergunte, se informe e sempre questione, pois acreditar em qualquer um pode ser a diferença entre você ficar doente, seus filhos ficarem doentes ou seus vizinhos ficarem doentes, e ajudar na diminuição de doenças como Zika e a microcefalia. O Dotô, por exemplo, estará sempre aqui para tirar suas dúvidas e discutir melhor sobre a virologia.

Abraços e até a próxima.

 

 

GLOSSÁRIO:

Vacina atenuada: Vacina formada por vírus ou bactérias vivas, mas que foram cultivados em condições que levam à perda da capacidade de provocar doença. Mesmo não provocando a doença, o vírus é reconhecido pelo sistema imune que leva à resposta imune contra novas infecções pelo vírus. Em virologia, temos como exemplo vacinas atenuadas contra sarampo, varicela, febre amarela, rubéola, rotavírus e poliomielite.

REFERÊNCIAS:

Canal gravidez. A mulher pode tomar vacinas durante a gravidez?. Disponível em: http://www.canalgravidez.com.br/a-mulher-pode-tomar-vacinas-durante-a-gravidez/. Acessado em 19/12/2015.

Hayes EB. Zika Virus Outside Africa. Emerging Infectious Diseases. 2009;15(9):1347-1350. doi:10.3201/eid1509.090442.

Portal Saúde. Perguntas e respostas – Zika vírus. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/maio/14/PERGUNTAS-E-RESPOSTAS-Zika.pdf. Acessado em: 19/12/2015.

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

Em tempos de Zika, porque ainda temos medo do Ebola?

Ebola

Em meio à tantas notícias preocupantes sobre o vírus Zika e possíveis impactos da sua infecção durante a gestação, como discutimos em nosso último post, nos surpreendemos no mês de novembro com o anuncio de mais um caso suspeito de Ebola no Brasil. Após meses de silêncio e de uma falsa sensação de que o vírus Ebola não era mais um problema mundial, eis que surge a dúvida: “é ebola ou não é?!”

Uffa, não foi! O caso suspeito se tratava de um paciente brasileiro que viajou para Guiné, país que ainda sofre com a epidemia causada pelo vírus Ebola. O paciente foi atendido no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) e, através de testes realizados pela própria fundação, a suspeita foi descartada. O paciente foi diagnosticado com malária e recebeu alta na manhã do dia 14/11.

Quer saber mais detalhes sobre o caso? Segue o link: http://www.fiocruz.br/ioc/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2449&sid=32

Mas Dotô, a epidemia de Ebola não acabou?

Não, meu caro paciente, a epidemia, que começou em março de 2014, já contabiliza cerca de 29 mil casos e mais de 11 mil mortes, seis países africanos e mais quatro países dos continentes Europeu e Americano. Apesar de um aparente controle, ainda existem alguns focos ativos da doença na África, como Guiné e Libéria.

Vamos focar na Libéria: A OMS havia anunciado no dia 03/09 o fim da transmissão do vírus Ebola na Libéria, onde a epidemia já deixou cerca de 4.000 mortos, com um total de 10.600 casos. A declaração foi feita após 42 dias sem casos no país. Porém, na última semana, três novos casos de ebola foram confirmados no país, depois de dois meses da Libéria ter sido declarada livre do vírus. O anúncio foi feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS), na última sexta-feira (20/11). Um dos casos confirmados foi de um garoto de 15 anos de idade, admitido em uma unidade de saúde na Libéria, no dia 19/11. Depois de diagnosticado, o rapaz foi transferido para um centro de tratamento de Ebola, juntamente com outros cinco membros da sua família. Os outros dois casos confirmados com ebola eram da família do rapaz: um menino de 8 anos e seu pai, que já estão em isolamento. Além da família, 149 contatos foram identificados até agora, incluindo 10 profissionais de saúde que tiveram contato próximo com o jovem de 15 anos antes do isolamento. As investigações para descobrir a origem da infecção estão em um estágio inicial.

Dotô essa epidemia vai ter fim? O Ebola pode ser erradicado?

Bem, é difícil prever um fim para essa epidemia, porque pequenos focos continuam aparecendo, além de casos esporádicos. O ressurgimento da doença já era esperado, provavelmente por um vírus persistente em um indivíduo convalescente, ou através da infecção a partir de animais silvestres. Lembrando que, apesar do Ebola ser transmitido de uma pessoa para outra, estamos falando de uma zoonose. Além disso, a fonte das infecções iniciais desse surto está associada a transmissão a partir de animais silvestres.

Por esse motivo, o Ebola não pode ser erradicado, pois não possuímos uma vacina eficaz para interromper a transmissão pessoa a pessoa, e o mais importante: por poder infectar outros animais além do homem, o vírus Ebola vai continuar na natureza. Não podemos falar de erradicação, mas sim de controle, e este controle deve ser focado na vigilância de casos suspeitos, não só nos países africanos, mas no mundo inteiro.

Sim, o vírus Zika é um problema grave de saúde pública, mas lembrem-se que o Zika foi introduzido na Copa de 2014 e as Olimpíadas vêm aí! Precisamos ficar de olho … o Dotô com certeza está antenado!

GLOSSÁRIO:

Zoonose: são doenças que podem ser transmitidas do animal para o homem e vice-versa, tanto através do contato direto com secreções ou excreções, quanto através da ingestão de alimentos contaminados de origem animal.

 

REFERENCIAS:

Organização Mundial de Saúde. Ebola report. http://apps.who.int/ebola/current-situation/ebola-situation-report-25-november-2015

Organização Mundial de Saúde. Update Libéria. http://www.who.int/csr/disease/ebola/flare-up-liberia/en/

Organização Médicos Sem Fronteiras. Informações sobre o ebola. http://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/ebola

 

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Dotô, tô grávida e com medo do zika, o que eu faço?

Zikagravida

Caras mamães, estamos aqui para informar e alertar sobre o vírus zika, que atualmente está circulando pelo Brasil e está causando um rebuliço só nas famílias brasileiras. Mas, o que acontece de verdade? Vou contar desde o início para quem não acompanhou as últimas notícias do mundo dos vírus.

Nos últimos três meses o Brasil registrou 399 casos de bebês recém-nascidos com microcefalia em 7 estados do Nordeste. O primeiro boletim divulgado no dia 17/11/2015 registra, só em Pernambuco, por exemplo, 268 novos casos. Já nos outros estados foram registrados: Sergipe (44), Rio Grande do Norte (39), Paraíba (21), Piauí (10), Ceará (9) e Bahia (8). Por causa desse aumento repentino, o Ministério da Saúde decretou no último dia 11 de novembro, Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional.

Mas o que é esse nome aí, Dotô? Micro o quê?

Microcefalia. É uma má formação detectada através da ultrassonografia do feto. Nesses casos, os bebês nascem com um cérebro menor do que o normal. Por exemplo, um bebê em tempo normal de gestação (que não seja prematuro) apresenta geralmente um perímetro de, pelo menos, 34 cm da cabeça. Já em casos de microcefalia, esses valores podem ser menores do que 33 cm, podendo causar algumas complicações neurológicas no bebê. Essa alteração pode ser causada por diversos fatores, como medicações, infecções por vírus e bactérias e até por radiação.

Mas e o Zika vírus com isso?

Inicialmente, gostaríamos de deixar claro que casos de microcefalia sempre ocorreram em nosso país e no mundo. O que chamou a atenção dos médicos e das autoridades foi o grande número de casos que começaram a ocorrer neste ano. Durante a revisão dos prontuários e históricos das gestantes e mães de bebês com microcefalia, observou-se que muitas delas relatavam ter apresentado febre e manchas pelo corpo, mas sem maiores alardes. Então os responsáveis apontaram a possível associação entre esses casos e vírus Zika, recém chegado no país em 2014.

A discussão ganhou ainda mais força com a divulgação dos resultados obtidos pelo Laboratório de Flavivirus da Fiocruz  (Rio de Janeiro), onde os pesquisadores detectaram a presença do material genético do vírus zika no líquido amniótico de duas gestantes da Paraíba cujos bebês tiveram a microcefalia confirmada pela ultrassonografia. E quando confrontaram o sequenciamento do material genético com o banco de dados de genes, descobriram que o vírus encontrado aqui é semelhante ao que circula pela Ásia. Confira a reportagem na integra aqui: (http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2015/11/deteccao-de-zika-no-liquido-amniotico-feita-pela-fiocruz-e-inedita-na-ciencia.html)

Mas atenção, não podemos dizer ainda que existe uma relação de causa e efeito, ou que todas as mamães que se infectarem com o zika vão ter bebês com microcefalia, e vice-versa. Mas sim que existe uma hipótese de que isso possa acontecer.

Esse estudo é muito importante em termos de saúde pública, e o que temos pra dizer agora pra todas as mamães grávidas que acompanham o blog do Dotô, e que ficam super preocupadas (com razão) é:

Na dúvida, se protejam.

Mantenham as portas e janelas fechadas ou com telas de proteção, usem calça e blusa de manga comprida e usem o repelente adequado para vocês, gestantes!

Se antes vocês tinham que se proteger da dengue, se protejam mais ainda. Também se informem, seja por aqui, seja pelo blog do Ministério da Saúde (www.blog.saude.gov.br/), e de outras fontes que sejam confiáveis, busquem se atualizar não só sobre infecções congênitas como a do vírus zika, mas também tantas outras que podem ser transmitidas para o seu bebê durante a gestação.

Façam o pré-natal, tenham todas as vacinas em dia, tenham cuidados na alimentação e usem bastante repelente, afinal, o vírus zika é transmitido pela picada do mosquito mais famoso do Brasil, o Aedes aegypti.

É só o que podemos dizer enquanto não temos novas novidades na pesquisa para as mamães mega ansiosas. Em breve voltamos com mais updates virais! Até mais!

Ficou na dúvida sobre os sintomas do zika vírus, o Dotô relembra: manchas na pele, conjuntivite e febre, acompanhado ou não de dores nas articulações.

REFERÊNCIAS:

Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (publicado dia 17/11/2015). Disponível em:
http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/20805-ministerio-da-saude-divulga-boletim-epidemiologico

Ministério orienta as gestantes sobre casos de microcefalia (publicado dia 13/11/2015):
http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/20692-orientacoes-as-gestantes-sobre-os-casos-de-microcefalia

IOC Fiocruz identifica a presença do zika virus em dois casos de microcefalia. Disponível em:
http://portal.fiocruz.br/pt-br/content/iocfiocruz-identifica-presenca-de-zika-virus-em-dois-casos-de-microcefalia

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

 

Dotô, deu Zika?

charge_zikafonte: http://jornaldebrasilia.com.br/charges/442/doencas-provocadas-pelo-aedes-aegypti/

Dotô, tô com medo de pegar esse tal de vírus Zika e ficar zicado….

O vírus Zika está bombando nos jornais brasileiros, desde a suspeita da sua circulação no Brasil. Um grupo na Universidade Federal da Bahia (UFBA), e outro no Rio Grande do Norte, na UFRN, identificaram 16 pacientes com diagnóstico preliminar de infecção pelo vírus Zika até o momento, 8 em cada Estado. Essas amostras foram encaminhadas aos laboratórios de referência Instituto Evandro Chagas, em Belém, e ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) para avaliação. A confirmação da circulação do vírus Zika no Brasil só vai acontecer após o laudo do laboratório de referência ratificando os achados, o que deve acontecer em breve. As pesquisas indicam que existem três tipos de vírus Zika: um de origem asiática e dois de origem africana. Os resultados preliminares de pacientes brasileiros indicam que o vírus Zika que circula aqui seria de origem asiática. A hipótese é que o vírus tenha chegado ao Brasil durante os jogos da Copa do Mundo, mas pra responder essa pergunta mais estudos precisam ser feitos para investigar a dispersão desse vírus no Brasil.

Mas Dotô, porque esse vírus tem esse nome?

Por incrível que pareça, não é porque deixa a gente zicado, ou com zic zira. Na verdade, o vírus Zika foi descoberto em macacos em 1947, em uma floresta tropical chamada Zika (que na língua local significa coberta), em Uganda, daí que vem o seu nome. Além da África, esse vírus já foi descrito na Ásia e na Oceania causando surtos, sendo definido como um vírus emergente. Os surtos mais recentes registrados aconteceram na Micronésia (em 2007) e na Polinésia Francesa (em 2013), esse último com dez mil casos, sendo que alguns pacientes tiveram sintomas neurológicos. Casos importados do vírus Zika foram descritos no Canadá, Alemanha, Itália, Japão, Estados Unidos e Austrália. Esse vírus é transmitido por meio da picada de mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite o vírus da dengue. O vírus Zika é mantido no ambiente por um ciclo chamado de zoonótico, que envolve os mosquitos Aedes spp., e os primatas, podendo ocasionalmente infectar os humanos. A doença que ele causa, chamada de Febre do Vírus Zika, também tem sintomas parecidos com a dengue, porém mais  leves. Apenas 18% das pessoas infectadas pelo vírus Zika apresentarão manifestações clínicas da doença. Sua evolução é benigna, com um período de incubação de quatro dias. A doença é caraterizada por febre baixa, olhos vermelhos sem secreção e sem coceira, dores nas articulações, erupção cutânea com pontos brancos ou vermelhos, dores musculares, dor de cabeça e dor nas costas. Os sinais e sintomas podem durar até 7 dias.

Se eu pegar o vírus Zika, o que eu faço?

O tratamento é parecido com um quadro de dengue clássica. O recomendado é usar paracetamol para febre e dor no corpo, ingestão de líquidos e não ingerir o ácido acetilsalicílico, devido às complicações hemorrágicas. Quanto à prevenção e controle, as medidas são focadas em eliminar o mosquito. Além disso, é recomendado o uso de repelentes e roupas que cubram as regiões expostas da pele, principalmente quando estão ocorrendo surtos e epidemias. Mais um Flavivírus achado no Brasil, um agravo semelhante à dengue e chikungunya. Por isso o Dotô chama a atenção de todos os seus pacientes: agora não temos só que combater a dengue, mas o chikungunya e o vírus Zika também. Por isso, atenção triplicada!

GLOSSÁRIO:

Vírus emergentes: são representativos de infecções virais em constante evolução. Podem ser ou não conhecidos anteriormente e se expandiram para uma região geográfica, muitas vezes sendo acompanhados por uma mudança na patogenia. Casos importados: São os pacientes que se infectaram em um país, mas viajaram e só apresentaram os sinais e sintomas quando já estavam fora. Isso acontece porque a maioria dos vírus tem um período de incubação, onde não há nenhum sinal e sintoma da doença. Zoonótico: É um ciclo que se mantem em animais, mas que pode potencialmente infectar os humanos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Diallo D, Sall AA, Diagne CT, et al. Zika Virus Emergence in Mosquitoes in Southeastern Senegal, 2011. Attoui H, ed. PLoS ONE. 2014;9(10):e109442. doi:10.1371/journal.pone.0109442.

Faye O, Freire CCM, Iamarino A, et al. Molecular Evolution of Zika Virus during Its Emergence in the 20th Century. Bird B, ed. PLoS Neglected Tropical Diseases. 2014;8(1):e2636. doi:10.1371/journal.pntd.0002636.

FioCruz confirma novos casos do vírus Zika. Disponível em: http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/fiocruz-confirma-novos-casos-do-virus-zika-16151785. Acessado em 19/05/2015. Hayes EB. Zika Virus Outside Africa. Emerging Infectious Diseases. 2009;15(9):1347-1350. doi:10.3201/eid1509.090442.

Portal Saúde. Perguntas e respostas – Zika vírus. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/maio/14/PERGUNTAS-E-RESPOSTAS-zika.pdf. Acessado em: 19/05/2015.

Portal Saúde. Ministério investiga casos de doenças exantemáticas. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=17684&catid=11&Itemid=103. Acessado em: 19/05/2015

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Dotô é verdade que somos formados por microrganismos?

É verdade sim meu caro paciente. Nas últimas semanas tem sido veiculado em algumas mídias que cientistas descobriram o fato de parte do nosso código genético ser formado por bactérias, fungos, protozoários e vírus. Esses genes não apenas fazem parte do nosso código genético, como também são responsáveis por vários papéis importantes na formação do individuo e de seu metabolismo.

Mas como os cientistas chegaram a essa conclusão?

Como nós sabemos, animais da mesma espécie transferem o DNA para seus filhos (geralmente metade sendo da mãe e metade do pai, tirando algumas exceções), esse processo é conhecido como transferência vertical de genes (de pai para filho). Em vários microrganismos pode ocorrer o processo chamado de transferência horizontal de genes (HGT), processo no qual determinados seres vivos podem passar seus genes para outros individuos que estejam no mesmo ambiente. Esse processo é interessante, pois permite aos microorganismos adquirir genes que os tornam resistentes aos antibióticos ou que são capazes de trazer outras vantagens, de forma rápida. Em laboratório, esse processo é bastante importante, pois nos possibilita realizar a clonagem de genes. Então, o processo de HGT é bastante conhecido e desempenha um papel importante na evolução de microrganismos, sendo que 81% dos genes de individuos procarióticos parecem estar envolvidos com HGT em algum momento da evolução.

Além de microorganismos, o HGT também foi encontrado em animais mais simples que os humanos como a transferência de genes de: fungos para o piolho-da-ervilha e bactérias para insetos. Mas até o momento não se conhecia o HGT sendo transferido para animais superiores.

Para tirar essa dúvida, cientistas da Universidade de Cambridge, na Inglaterra analisaram o DNA de diferentes animais, como: moscas da fruta, nematoides, primatas não humanos e humanos. Se eles encontrassem alta similaridade de sequencia entre genes destes organismos e de outras espécies bem distantes evolutivamente, poderia indicar que esses genes, originalmente, não eram desses organismos.

E qual foi o resultado?

Os pesquisadores concluíram que o processo de transferência horizontal de genes acontece nos animais superiores, porém, de maneira discreta, onde boa parte dos genes parece estar envolvido no metabolismo. Nos seres humanos, por exemplo, foram encontrados vários genes relacionados ao HGT que desempenham uma variedade de funções como quebrar ácidos graxos ou ajudar as respostas anti-inflamatórias ou antimicrobianas. Além disso, foram encontrados genes que tem relação com o sistema ABO (origem bacteriana) e com a produção de ácido hialurônico (origem fúngica). Foram encontrados pelo menos 145 genes de outras espécies, totalizando menos de 1% dos genes encontrados em humanos, mas ainda assim um resultado bastante curioso. A maioria dos genes encontrados em humanos e identificados no estudo tem origem bacteriana e de protozoários, sendo encontrados ainda genes de fungos e vírus.

Mas esse blog não fala sobre vírus? Que genes foram encontrados que tinham relação com vírus?

Foram encontrados genes (potencialmente transmitidos por HGT) de vírus em moscas (Drosophila sp.) e em vermes (Caenorhabditis), além disso, foram encontrados mais de 50 genes de origem viral em primatas. Mas, não se sabe se a transferência ocorreu de vírus para primatas ou de primatas para vírus, deixando uma dúvida no ar.

É só isso que você vai falar sobre vírus? Continuo a perguntar, esse blog não fala sobre vírus? Estou achando que tem a mão dos comunistas do PT.

Ahhhn, PT? Esse blog não tem haver com o governo (ainda, esperem até o ano que vem) e nem com passeata nenhuma de: Fora Dilma!!!! ou Fora elite coxinha!!!! Na verdade, a parte mais interessante desse post foi deixado para o final. O HGT não é a única maneira de transferência de genes. Existe outra maneira simples e que faz parte do ciclo de vida de determinados vírus, os retrovírus endógenos (também chamados de HERVs).

Os HERVs são vírus humanos que fazem parte dos grupos dos retrovírus junto com o vírus da AIDS e do HTLV. O código genético dos retrovírus tem, como parte do seu ciclo de vida, a habilidade de se integrar ao DNA celular (passando a se chamar partícula proviral). Agora pense comigo, meu caro paciente. Temos dois tipos de células em nosso corpo, células somáticas (células que não estão envolvidas na reprodução) e células germinativas (ou reprodutivas). Se o vírus infectar as células somáticas, essas células não são transmitidas para a descendência do hospedeiro, pois não estão envolvidas na reprodução (esses vírus são chamados de retrovírus exógenos). Mas e se determinado retrovírus infectar as células germinativas? E se essa célula germinativa (como um espermatozoide, por exemplo) se encontrar com a célula germinativa de outro individuo (como o óvulo, por exemplo) e elas formarem outro individuo? Se isso ocorrer, o retrovírus vai ser transmitido de uma geração para outra (ou seja, transmissão vertical).

Agora, digamos que essa partícula proviral nunca se liberte do DNA celular e não se replique como um vírus? O que temos? Um grupo de genes virais integrados ao DNA do individuo que pode ser passado de pai para filho. É o que acontece com os HERVs. Uma boa parte do nosso genoma é formado por HERVs que não formam partículas virais e fazem parte essencial do nosso DNA. Ou seja, nós somos formados por vírus, nós somos parte vírus também.

Parece ficção cientifica, não parece? Mas é verdade. Há anos vários pesquisadores têm encontrados códigos genéticos inteiros de HERVs integrado ao nosso DNA. E, mais do que isso, conseguiram fazer esse código genético formar proteínas e, consequentemente, formar partículas virais completas que podem se reproduzir normalmente como qualquer outro vírus. Demonstrando que o código genético dos HERVs ainda pode formar novos vírus infectantes. Mas não se desespere, pois se isso não acontece por centenas de milhares de anos de evolução, não deve acontecer agora não é mesmo?

Mas parece que alguns HERVs podem ter efeitos negativos no hospedeiro quando ocorrem circunstâncias incomuns. Estudos demonstraram que os retrovírus endógenos mais jovens (ou seja, integrados ao DNA do hospedeiro a pouco tempo na escala evolutiva) podem estar associados com doenças em gatos, coalas e pássaros. Já foi proposto que os HERVs podem estar envolvidos com esclerose múltipla e esquizofrenia em humanos.

O mais interessante é que esses vírus (até agora já foram descobertos mais de 100 tipos) estão relacionados com a produção de várias proteínas importantes evolutivamente para a formação dos animais e dos seres vivos. Só para se ter uma ideia, já se sabe que sequencias dos vírus HERVs podem estar associados com a formação das células multicelulares, ou seja, se não fossem eles, não existiriam toda a diversidade de seres vivos que existem hoje, só teriam os microrganismos unicelulares. Eles também estão associados com a formação de placenta na reprodução de mamíferos, então imaginem vocês que sem os HERVs não existiriam mamíferos. Por fim, eles estão associados à formação dos olhos e a cada novo estudo vão sendo encontradas novas associações de HERVs com o metabolismo e constituição dos seres vivos.

Viram só? Os microrganismos e, principalmente, os vírus são parte integrante do nosso DNA e sem eles a humanidade e todos os seres vivos não seriam o que são hoje. A evolução, como dita por Darwin, não teria saído do papel (na verdade, não teria como ter saído do papel mesmo, pois não teria nenhum humano para descrever a teoria da evolução).

Então, quando você estiver pensando que os vírus só fazem mal para humanidade, lembre-se que uma parte bastante importante de você é formado por vírus (e por outros microrganismos) e que sem eles, sua vida não existiria.

 

GLOSSÁRIO:

Clonagem de genes: Também chamado de clonagem molecular. Processo de engenharia genética utilizado em biotecnologia em que se cria cópias de fragmentos de DNA em microorganismos para formar múltiplas cópias da proteína alvo.

Procarióticos: Também chamados de procariontes ou procariotas. Individuos unicelulares que não possuem membrana delimitando suas organelas. São constituídos por Bactérias e Arqueobactérias.

Sistema ABO:  Grupo sanguíneo classificado pela presença ou ausência de aglutinação dos glóbulos vermelhos (hemácias). Essa aglutinação ocorre pela reação de anticorpos específicos à antígenos encontrados na superfície das hemácias. Os grupos se dividem em : A (presença de antígeno do tipo A), B (presença de antígeno do tipo B), AB (presença do antígeno A + presença do antígeno B) e tipo O (ausência de antígenos A e B).

Ácido hialurônico: Substância existente no líquido sinovial, humor vítreo e no tecido conjuntivo. Importante na articulação, hidratação e elasticidade da pele, responsável pela forma dos olhos dentre outros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Microbiology World. Humans are all a bit genetically modified. Disponível em: http://microbiologyworld.com/humans-are-all-a-bit-genetically-modified/. Acessado em 20/03/2015

ERV. Disponível em: http://endogenousretrovirus.blogspot.com.br/2006/09/more-syncytia-sweetness.html. Acessado em 20/03/2015

Ryan, F. Virolution. Editora: Harper Collins Publishers. 2009

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