Dotô, vacino ou não meu filho contra o HPV?

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Fonte: autoria de Luana Lorena Silva Rodrigues

O Ministério da Saúde anunciou no dia 11 de outubro de 2016 que meninos de 12 e 13 anos também serão incluídos no público-alvo de vacinação contra o HPV a partir de 2017. Desde a implantação em 2014, até o ano de 2016, a vacina quadrivalente contra o HPV (Papilomavírus humano) foi destinada a meninas de 9 a 13 anos e para mulheres que vivem com HIV (Vírus da imunodeficiência humana) de 9 a 26 anos pelo Programa Nacional de Imunização (PNI) no Sistema Único de Saúde (SUS). Diante das  novidades algumas perguntas sobre as principais  dúvidas são apresentadas a seguir.

Pergunta: Para começo de conversa a vacina contra o HPV pode causar eventos adversos? Quais?

Dotô: Sim. O evento adverso mais comum é a dor, inchaço ou vermelhidão no local da aplicação da vacina. Há também relatos de febre, dor de cabeça, náusea, tonturas, vômito e desmaios associados a distúrbio psicogênico. Eventos adversos mais graves foram relacionados a doenças- autoimune, como síndrome de Guillain-Barré. Entretanto, a ocorrência dos eventos adversos graves foi rara e ainda não comprovada, porque alguns estudos científicos sugerem a relação, enquanto outros não.

Pergunta: Não entendi, o que é distúrbio psicogênico?

Dotô: Distúrbio psicogênico ou doença psicogênica é um conjunto de sintomas relacionados a transtornos psíquicos, isto é, alteração que ocorre no campo mental e comportamental de uma pessoa. Desmaio, dores, taquicardia e fibromialgia têm sido descritos isoladamente após a vacinação contra o HPV. Alguns estudos levantam a hipótese de que o alumínio (um componente da vacina) é o responsável por ocasionar esses eventos e que algumas pessoas são mais propensas. Em contrapartida, outros especialistas afirmam que o distúrbio psicogênico é um evento adverso comum em resposta a qualquer vacinação, não sendo exclusivo da vacina HPV e que ocorre principalmente entre adolescentes e que as tentativas de relacionar essas síndromes com a vacinação não têm base científica ainda comprovada.

Pergunta: Mas se a vacina contra o HPV causa evento adverso porque é considerada segura?

Dotô: As principais autoridades em saúde e reguladoras do mundo monitoram continuadamente a segurança da vacina HPV. Na ONU (Organização das Nações Unidas), por exemplo, isso ocorre através de um comitê de especialistas. Com a recomendação de que todos os eventos adversos sejam minunciosamente avaliados para se confirmar a causalidade, é importante frisar que a ocorrência de casos graves é raro, inferior a 0,1% e que a vacina HPV deve ser ministrada em virtude dos benefícios. No entanto, casos de pessoas com história de doença autoimune devem ser criteriosamente avaliados por médico, considerando o maior o risco de eventos adversos graves.

Pergunta: Porque tomar uma vacina que não protege contra todos os tipos de HPV…

Dotô: A Gardasil® é uma vacina que protege contra os quatro tipos do HPV que mais causam doenças nas pessoas. O HPV-6 e HPV-11 são os que mais causam verrugas em mucosas e o HPV-16 e HPV-18 podem causar lesões que podem evoluir para câncer. A infecção persistente pelo HPV é associada aos carcinomas anogenitais, de cabeça e pescoço. O HPV-16 e HPV-18 são identificados em 70% dos casos de câncer do colo do útero, 75,6% dos casos de câncer anal, 47,3% de câncer de vagina e 20,9% de câncer de vulva.

Pergunta: Se as meninas já estão sendo vacinadas, porque vacinar os meninos?

Dotô: Os meninos assim como as meninas podem se infectar e desenvolver manifestações clínicas associadas à infecção pelo HPV. Dificilmente uma campanha de vacinação atinge uma cobertura de 100%. Então, pode ser que no futuro ocorra algum contato sexual de homens com mulheres não vacinadas. Sem falar no contato sexual entre pessoas do mesmo sexo.

Pergunta: Ok Dotô…mas se a contaminação pelo HPV se dá pelo contato sexual porque vou vacinar minha filha e meu filho que ainda são muito jovens e não têm vida sexual?

Dotô: Justamente porque a vacinação deve ser antes do contato com o HPV, que frequentemente ocorre com o início da vida sexual. Além disso, a vacina induz a produção de anticorpos mais eficiente em pré-adolescentes do que em adolescentes e mulheres jovens. O contato sexual é a principal forma de infecção pelo HPV, mas existem outras possibilidades menos comum, como durante o parto se a mãe estiver infectada e pelo compartilhamento de objetos de uso pessoal contaminados. É importante ter o entendimento de que a vacina contra o HPV proporciona benefícios a curto, médio e longo prazo. Após a vacinação, o seu filho ou filha estará imune aos quatro tipos de HPV que a vacina protege. No futuro, ainda que bem distante, seu filho ou filha ao iniciar a vida sexual estará protegido contra verrugas genitais, lesões pré-câncer e o câncer associado à infecção pelo HPV.

Pergunta: Como vou explicar para uma criança de 9 anos que essa vacina vai protegê-la contra um vírus que causa uma IST (infecção sexualmente transmitida)?

Dotô: A principal preocupação com a infecção pelo HPV é o câncer. A relação de diálogo estabelecida entre pais e filhos é algo muito particular de cada família. Uma sugestão é que você contextualize que o grande problema da infecção pelo HPV é o desenvolvimento de câncer, uma doença que ocorre na maior parte dos casos em adultos. Causado por diferentes agentes, o câncer está associado, entre diferentes fatores, com o uso do tabaco, fatores genéticos e agentes infecciosos, como no caso do câncer do colo do útero, que está associado com a infecção pelo HPV, demonstrando, assim, a importância da vacinação.

Por fim é preciso na fase na qual a criança se torna pré-adolescente/adolescente que, com muito diálogo em um ambiente de confiança, os pais esclareçam que infecções sexualmente transmissíveis (IST) são causadas por diversos microrganismos e que a vacina só protege contra um deles, o HPV. Por isso deve-se usar o preservativo nas relações sexuais sempre.

Pergunta: A vacina contra HPV disponibilizada no SUS é a mesma de clínicas particulares?

Dotô: Sim, é a mesma. A vacina disponibilizada no SUS é a quadrivalente Gardasil® que protege contra os tipos HPV-6, HPV-11, HPV-16 e HPV-18. Nas clínicas particulares pode-se encontrar tanto a quadrivalente Gardasil® quanto a bivalente Cervarix® que protege contra o HPV-16 e HPV-18. No SUS são duas doses com um intervalo de seis meses.

É isso pessoal, espero ter esclarecido algumas dúvidas. Consulte o glossário de termos se tiver dúvida sobre alguma palavra mencionada.

GLOSSÁRIO:

Vacina quadrivalente: aquela que protege contra quatro tipos do vírus, HPV-6, HPV-11, HPV-16 e HPV-18.

Vacina bivalente: aquela que protege contra dois tipos do vírus, HPV-16 e HPV-18.

Distúrbio psicogênico ou doença psicogênica: está relacionado a doenças causadas por transtornos psíquicos. Isto é, relacionado a distúrbio que ocorre no campo mental e comportamental de uma pessoa.

Prognóstico: Avaliação baseada no diagnóstico de uma possível doença, se pautando em dados reais, indica o que poderá acontecer.

Síndrome de dor regional complexa: é uma condição crônica e dolorosa, afetando apenas um membro que normalmente segue um episódio de trauma ou imobilização.

Síndrome de taquicardia ortostática postural: é caracterizada por um aumento anormal da frequência cardíaca quando muda-se de uma posição horizontal para uma posição vertical, o que pode causar desmaio de curta duração.

Frequência cardíaca: quantidade de vezes que o coração bate por minuto. O valor depende da idade, atividades físicas ou doenças cardíacas.

Fibromialgia: é caracterizada por dor muscular generalizada no corpo acompanhada de sintomas de fadiga, e alterações de sono, memória e humor. É uma das doenças reumatológicas mais frequentes.

Doenças auto-imunes: Doença que ocorre com uma falha no sistema imunológico levando ataque e destruição de tecidos saudáveis do corpo por engano.

Síndrome de Guillain-Barré: Doença auto-imune caracterizada por uma inflamação aguda causada por auto-anticorpos contra sua própria mielina (membrana de lipídios e proteína que envolve os nervos e facilita a transmissão do estímulo nervoso) dos nervos periféricos e às vezes de raízes nervosas proximais e de nervos cranianos (nervos que emergem de uma parte do cérebro chamada tronco cerebral e suprem às funções específicas da cabeça, região do pescoço e vísceras).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOGAZ, Camila; AMORIM, Ana Cláudia. Portal Saude. Ministério da Saúde. Imunização. Meninos também serão vacinados contra HPV. Disponível em: < http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/25953-meninos-tambem-serao-vacinados-contra-hpv&gt; Acesso em 11 de nov de 2016.

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É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a
fonte (Dotô, é virose?)

Texto realizado pela aluna de pós-graduação em Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Luana Lorena Silva Rodrigues, sob a orientação da Dra Elba R. Sampaio de Lemos e Dra Renata Carvalho de Oliveira.

 

Dotô, eu posso ter hepatite mesmo depois de vacinado?

hepatite

 

Sim, é possível! A hepatite é uma inflamação que acontece no fígado e pode ter diversas causas. Entre elas estão as hepatites A e B (que possuem vacina) e a D (que é prevenida de forma indireta pela vacina da hepatite B). No entanto, diversos outros agentes (infecciosos ou não) podem causar os mesmos sinais e sintomas e alguns deles não podem ser prevenidos através de vacinação. Vamos falar de alguns deles.

Entre os vírus existem cinco tipos principais que causam a doença. Além dos três que já foram citados anteriormente, há também os causadores das hepatites C e E. Entretanto, apesar de não ser o quadro clínico mais comum, existem casos relatados de hepatite que surgiram após infecções pelos vírus da dengue e herpesvírus, por exemplo.

Em relação às bactérias, a literatura científica mostra grande importância dos casos associados à sífilis e à leptospirose, porém outras bactérias também já foram relacionadas à doença. Entre parasitas também já foi observado a possibilidade de dano no fígado causado durante a evolução de fasciolose, malária e toxoplasmose. O mesmo também foi relatado para algumas espécies de fungos capazes de causar doenças em seres humanos.

E como se não bastassem todas estas possibilidades, existem outros agentes não infecciosos que podem induzir quadros de hepatite. Entre essas causas destacam-se o álcool, uso de medicamentos (especialmente anti-inflamatórios e anabolizantes), consumo de drogas, cânceres, doenças autoimunes, entre outros.

– Mas Dotô, é possível que eu tenha hepatite A ou B depois da vacina?

Também pode acontecer, apesar de ser bastante incomum. A recomendação de muitos cientistas é que fossem feitas duas doses de vacina contra hepatite A, porém no Brasil há apenas uma dose garantida no programa nacional de imunização (PNI). Neste esquema de dose única a maior parte das pessoas já consegue produzir anticorpos e ficar protegida contra o vírus, mas não são todas. Portanto, é possível que algumas pessoas, mesmo vacinadas, estejam descobertas e venham a desenvolver a doença caso entrem em contato com o vírus posteriormente. Além disso, a vacina contra hepatite A foi disponibilizada gratuitamente à população apenas em 2014, e somente para crianças de 1 ano até 2 anos incompletos. Isto faz com que a atual população de mais idade não possa ser protegida através da vacinação.

Em relação ao vírus da hepatite B, o pensamento é diferente. As doses oferecidas pelo SUS são suficientes, porém existem alguns indivíduos que, por particularidades de seus sistemas imunológicos, não conseguem responder à vacina e produzir anticorpos mesmo se forem ofertadas doses extras de reforço. Este problema é mais comum em pacientes que tenham algumas doenças de base como hepatite C, diabetes ou insuficiência renal crônica, mas também pode ocorrer na população em geral.

Portanto, caso você tenha desenvolvido hepatite, tente sempre investigar qual foi a causa, pois dificilmente estará acontecendo falha vacinal. No entanto, mesmo que exista a possibilidade de a vacina não ser totalmente eficaz, lembramos que é sempre importante recorrer à imunização, pois ao longo da história a quantidade de exemplos de sucessos foram extremamente superiores aos fracassos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COURA, José Rodrigues. Dinâmica das doenças infecciosas e parasitárias. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.

CZAJA, A. J. Diagnosis and Management of Autoimmune Hepatitis: Current Status and Future Directions. Gut Liver, v. 10, n. 2, p. 177-203, Mar 2016. ISSN 2005-1212. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26934884 >.

FOCCACIA, R. Tratado de infectologia. VERONESI, R.: Editora Atheneu 1: 493-683 p. 2015.

MORAES, J. C.; LUNA, E. J.; GRIMALDI, R. A. Immunogenicity of the Brazilian hepatitis B vaccine in adults. Rev Saude Publica, v. 44, n. 2, p. 353-9, Apr 2010. ISSN 1518-8787. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20339636 >.

NIH. LiverTox – Clinical and research information on drug-induced liver injury.  2016.  Disponível em: < https://livertox.nlm.nih.gov/ >. Acesso em: 21/10/2016.

SAÚDE, M. D. Programa Nacional de Imunizações.  2016.  Disponível em: < http://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/pni/ >. Acesso em: 20/10/2016.

SINGH, A. E.  et al. Factors associated with vaccine failure and vertical transmission of hepatitis B among a cohort of Canadian mothers and infants. J Viral Hepat, v. 18, n. 7, p. 468-73, Jul 2011. ISSN 1365-2893. Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20546502 >.

ZHANG, X.  et al. Comparison of immune persistence among inactivated and live attenuated hepatitis a vaccines 2 years after a single dose. Hum Vaccin Immunother, v. 12, n. 9, p. 2322-6, Sep 2016. ISSN 2164-554X. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27494260 >.

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

Texto realizado pelo aluno de pós-graduação em Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Derick Mendes Bandeira, sob a orientação da Dra Elba R. Sampaio de Lemos e Dra Renata Carvalho de Oliveira.

 

 

Microcefalia, vírus Zika e Vacinas

Caros pacientes, temos a honra de inaugurar a nossa seção de post convidado com o Dr. Reinaldo de Menezes Martins, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria.
No post de hoje, Reinaldo discute sobre microcefalia, vírus zika e vacinas.
E então, tem relação, Dotô?

vacina

Microcefalia, vírus Zika e Vacinas

Sabe-se que as malformações congênitas, dentre elas a microcefalia, podem ter muitas causas, por exemplo, genéticas, alcoolismo, ou algumas infecções durante a gestação.  As evidências disponíveis até o momento indicam fortemente que o vírus Zika está relacionado ao aumento de ocorrência de microcefalia e síndrome de Guillain-Barré, doença grave do sistema nervoso, no Brasil.

O vírus Zika (nome de uma floresta onde foi descoberto o vírus em macacos) é do mesmo grupo dos vírus da febre amarela e dengue, e ainda é pouco conhecido, pois até há pouco tempo estava restrito à África. Em geral, causa uma infecção benigna.

A suspeita de que a microcefalia seja causada por vacinas não se justifica. Existe farta literatura científica documentando que as vacinas aplicadas normalmente na gravidez, isto é, a tríplice acelular tipo adulto contra coqueluche, difteria e tétano, e a de influenza, são seguras e eficazes, para proteger a gestante a o recém-nascido. Para maiores informações sugerimos o site do CDC – Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos: http://www.cdc.gov/flu/protect/vaccine/pregnant.htm.

No que se refere à rubéola, vários estudos foram feitos no Brasil, mostrando que a aplicação inadvertida dessa vacina em gestantes não acarretou consequências para o feto. A Organização Mundial de Saúde fez extensa revisão sobre o assunto, chegando à mesma conclusão.

Estudos estão sendo feitos e vão continuar, visando melhorar o diagnóstico de Zika e se possível obter uma vacina. Enquanto isso, colocar em prática o que todos sabem, mas muitos não fazem: eliminar os criadouros de mosquito, que além do Zika transmitem  o dengue e a febre amarela.

Reinaldo de Menezes Martins
Membro Titular da Academia Brasileira de Pediatria
Currículo lattes
Blog “Tire Suas Dúvidas Sobre Vacinas”

REFERÊNCIAS:

Castillo-Solorzano C, Reef SE, Morice A,  Vascones N, Ana Elena Chevez AE, Castalia-Soares R, Torres C, Vizzotti C,  Cuauhtemoc RM.  Rubella Vaccination of Unknowingly Pregnant Women During Mass Campaigns for Rubella and Congenital Rubella Syndrome Elimination, The Americas 2001–2008. JID, 204:S713–S717, 2011.

CDC – Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos:  http://www.cdc.gov/flu/protect/vaccine/pregnant.htm.

Da Silva e Sá GR, Camacho LAB, Stavola MS, Lemos XR, Oliveira CAB, Siqueira MM. Pregnancy Outcomes Following Rubella Vaccination: A Prospective Study in the State of Rio de Janeiro, Brazil, 2001–2002. JID,204: S722-S728, 2011

Global Advisory Committee on Vaccine Safety. Safety of Immunization during Pregnancy – A Review of the Evidence. WHO, 2014.

Ministério da Saúde. Protocolo de Vigilância e Resposta à Ocorrência de Microcefalia, v. 1.3., Secretaria de Vigilância em Saúde, Brasília, 2016

Sato HK, Sanajotta AT, Moraes JC, Andrade JQ, Duarte G, Cervi MC, Curti SP, Pannuti CS, Milanez H, Pessoto M, Flannery B, Oselka GW, São Paulo Study Group for Effects of Rubella Vaccination During Pregnancy. Rubella Vaccination of Unknowingly Pregnant Women: The São Paulo Experience.  JID, 204:S737–S744, 2001.

Soares RC, Siqueira MM, Toscano CM, Maia MLS, Flannery B, Sato HK, Will RM, Rodrigues RCM, Oliveira IC, Barbosa TC, Sá GRS, Rego MF, Curti SP, Lemos XR, Morhdieck R, Sturmer D, Oliveira MJC, Silva JB, Solorzano CC, Camacho LAB, Luna E. Follow-up Study of Unknowingly Pregnant Women Vaccinated Against Rubella in Brazil, 2001–2002. JID, 204:S729–S736, 2011.