Dotô, a epidemia do filme Contágio pode virar realidade?

filme contagio

O Dotô está aqui hoje para discutir um dos seus filmes preferidos sobre epidemias virais na atualidade. Se você nunca viu o filme, cuidado! Não leia esse post, pois ele contém spoilers! Vamos discutir aqui qual o objetivo desse filme, quais foram as ferramentas utilizadas, pontos altos e baixos, e fazer uma reflexão se, afinal, a epidemia do filme Contágio pode ou não virar realidade?

 Dotô, qual o objetivo do filme Contágio?

 O filme tem como objetivo divulgar a ciência e seus impactos na nossa realidade. O diretor buscou mostrar o universo científico que envolve uma epidemia de origem desconhecida e todas as etapas de vigilância epidemiológica da descoberta do agente responsável, neste caso um novo vírus, sua transmissão, o pânico gerado, e a produção de uma vacina.

 Mas Dotô, o que o diretor fez de diferente nesse filme?

 Elaborar um filme sobre uma epidemia fictícia é uma tarefa árdua. Com os avanços cada vez maiores da ciência e tecnologia e com os recursos audiovisuais disponíveis, aliados a um público cada vez mais exigente, os diretores de cinema se unem a pesquisadores científicos (como pesquisadores do Centro de Controle de Doenças – CDC) para fazer um filme de ficção científica com um apelo que se assemelha à realidade. E foi assim que aconteceu no Filme Contágio: muita pesquisa foi feita para torna-lo ultrarrealista, como a inspiração dos roteiristas em vírus reais para criar um vírus fictício, chamado de MEV-1. Assistir a este filme claramente nos remete a outro filme clássico, Epidemia (1995), (veja o nosso post sobre esse filme aqui) que retrata uma história de ficção científica sobre uma epidemia causada por um vírus letal, semelhante ao vírus ebola, causador de febre hemorrágica viral, altamente letal.

Remetendo a uma reportagem da Revista Veja, “Estamos preparados para enfrentar um vírus igual ao do filme Contágio?”, (2011), o Jornalista Jones Rossi aborda justamente a possibilidade desse contexto cinematográfico do filme se tornar uma realidade. O autor dá exemplos dos vírus mais perigosos do mundo, como o vírus da gripe, varíola, ebola, marburg, etc. Ao lermos o texto escrito por Jones Rossi e se o compararmos com o filme, vemos algumas semelhanças com a realidade, mas precisamos ser críticos com esse filme de ficção científica.

 Dotô, quais são os pontos altos do filme?

  A iniciativa do filme em retirar os cientistas da “torre de marfim”, simbolizada pelos prédios do CDC e da Organização Mundial de Saúde (OMS) e mostrá-los como pessoas reais, que erram, com sentimentos, que também podem ficar doentes e até morrer, é de extrema importância para desmistificar a visão da população quanto ao profissional da ciência. Os Dotôres não são pessoas antissociais e malucas, eles são normais, possuem famílias, amigos e os mesmos problemas que todo mundo tem.

No filme, os detentores do conhecimento seriam os centros de investigação científica, e a população em pânico sofreria com esse déficit do entendimento da epidemia, ansiosos por uma explicação do que estava acontecendo. Essa película também retrata de maneira fidedigna o caos gerado por uma pandemia desconhecida, com a instalação do pânico e inclusive a divulgação de informações errôneas, como o jornalista fanático que escrevia em um blog, dizendo descobrir uma medicação eficaz contra o vírus. O filme, de maneira criativa, demonstra o vírus se espalhando na população, desde o primeiro caso (caso índice). Porém, deixa somente para o final como esse vírus teria atingido os humanos, o que permite ao telespectador criar diversas hipóteses de como a primeira pessoa a ficar doente teria se infectado. O filme retrata que a necessidade de informações sobre ciência por parte da população são maiores em momentos de crise (nesse caso, a crise seria a epidemia do MEV-1), quando os próprios cientistas estariam incertos quanto aos fatos, pois a “ciência” estava sendo construída (os cientistas estavam pesquisando qual era a causa de tantas mortes).

 Dotô, quais são os pontos baixos do filme?

  O tempo entre a descoberta do vírus e a fabricação da vacina foge à realidade. Apesar de já termos ferramentas disponíveis que nos permitem fazer a descoberta de novos microrganismos, essas ferramentas estão limitadas aos grandes centros de referência, por serem locais onde são mantidos laboratórios aptos a manipular esses patógenos, chamados de Laboratórios de Nível de Segurança 4 (NB4). Por ser um filme norte-americano, observa-se um forte apelo na “propaganda” do CDC, não foi à toa que esse filme teve recorde de bilheteria nos EUA na época de estreia. Além disso, sabe-se que o tempo de aprovação de uma vacina é longo, geralmente são necessários 10 anos de estudos clínicos e uma forte injeção monetária das indústrias farmacêuticas para torná-la comercial. Porém, quando o risco de morte é iminente (como no filme), etapas acabam sendo deixadas de lado, podendo gerar muitos efeitos colaterais. Um exemplo de vacina que é produzida anualmente em apenas seis meses é a vacina da gripe, para ser aplicada na população de risco, e que contribui diminuindo a taxa de mortalidade, principalmente em idosos, mas que está fortemente associada à efeitos adversos nessa faita etária.

Muita gente diz que não gostou do filme por não ser cheio de emoções, sendo semelhante a um documentário, ficando sem entender algumas partes. Mas, olhando cientificamente, foi exatamente o fato de parecer um documentário que fez o Dotô gostar tanto do filme.

Dotô, qual o público-alvo do filme?

 Pessoas que frequentam o cinema, que alugam o DVD, ou que baixam filmes. A classificação indicativa do filme é de 12 anos, embora o ideal seja uma classificação de 16 anos. Por se tratar de um filme mais técnico, sugere-se utilizá-lo como objeto de estudo entre estudantes universitários, das mais diversas áreas, seja de comunicação ou de saúde. Também pode ser aplicado em contextualização com grupos de discussão sobre o tema que permitindoum diálogo mais voltado para a realidade da nossa população eque inclusive possam englobar a conversa com especialistas multidisciplinares para esclarecer as dúvidas e decodificar alguns aspectos técnicos do filme.

Trazendo o filme para a nossa realidade, em 2014 e 2016, o Brasil como um todo e em especial, o Rio de Janeiro, será palco de eventos esportivos, a Copa do Mundo, e as Olimpíadas. Porém, atualmente, nós não temos uma estrutura de hospitais públicos de qualidade para lidar com doenças emergentes que se disseminem pela população, importadas de outros países, por isso, o Brasil não está preparado para enfrentar um vírus igual ao do  filme, nossa estrutura não permite atender aos pacientes e a taxa de letalidade seria elevada. Infelizmente, precisaríamos de ajuda externa para lidar com a situação. Os governos atuais não levaram a saúde como premissa de atuação, e acabaram confirmando a hipótese do jogador Ronaldo de que Copa se faz com estádios e não com hospitais. As consequências dessa escolha estão presentes no dia-a-dia da população, independente da existência de uma epidemia viral: morte da população por descaso, falta de atendimento, filas e falta de estrutura. Essa é a realidade. O Dotô recomenda a todos os seus pacientes que assistam ao filme em casa, com amigos e famílias, e que discutam com seus colegas sobre esse tema após o filme. O assunto pode ser muito enriquecedor!

 Trailer do filme:

GLOSSÁRIO:

 

Caso índice: É o primeiro caso que chama a atenção do investigador pelo que determina uma série de ações necessárias para conhecer um foco de infecção.

Centro de Controle de Doenças – CDC: Órgão norte-americano localizado em Atlanta responsável pelo controle e vigilância de doenças infectocontagiosas.

 

Laboratórios de Nível de Segurança 4 (NB4): Laboratórios de Nível de Biossegurança 4 são utilizados para pesquisa e diagnósticos que envolvam agentes exóticos e perigosos que exponham o indivíduo a um alto risco de contaminação de infecções que podem ser fatais, além de apresentarem um potencial relevado de transmissão por aerossóis, classificados como microrganismos da classe de risco 4.

 

BIBLIOGRAFIA:

 Filme Contágio (2011), dirigido por Steven Soderbergh.

ROSSI, JONES. Estamos preparados para enfrentar um vírus igual ao do filme ‘Contágio’? Revista Veja, 2011. Disponível em:

http://veja.abril.com.br/noticia/saude/estamos-preparados-para-enfrentar-um-virus-igual-ao-do-filme-contagio#amea%C3%A7a

 

 

 

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O Dotô está com Raaaaaaaaaaiiiivaa!!!!

raiva

Tomado por essa onda de filmes e séries apocalípticas, onde a humanidade sucumbe aos mortos vivos (zumbis), o Dotô decidiu investigar na virologia de onde poderia vir tanta inspiração?! E sim, meu querido paciente, nós temos um vírus bem conhecido pela humanidade, com características bem semelhantes aos possíveis responsáveis pelas pandemias zumbis que surgem por ai: o vírus da Raiva.

Por que o vírus da Raiva, Dotô? O que ele tem de parecido com um possível vírus “Zumbi”?

A primeira característica semelhante entre os dois é a forma de transmissão. O vírus da raiva é transmitido para o homem através do contato com a saliva de animais infectados, podendo ocorrer por arranhões ou mordidas, porém a transmissão também pode ocorrer através do contato de mucosas íntegras ou tecido lesionado com secreções contaminadas. O ferimento causado pela mordida de um animal raivoso resulta na deposição de saliva infectada com vírus no interior dos músculos e tecidos próximos, servindo de porta de entrada para a infecção.

O inicio dos sintomas da infecção pelo vírus da raiva também são bem parecidos com os primeiros sintomas de um possível vírus zumbi, sendo: vômito, febre, anorexia, diarreia, fotofobia e dores no corpo. Após esse período, o paciente infectado pelo vírus da raiva desenvolve um quadro neurológico agudo e progressivo com agitação, desorientação, alucinação, rigidez da nuca, aerofobia, espasmos de faringe, arritmias cardíacas e respiratórias, entre outras manifestações, que mostram o comprometimento do sistema nervoso central (SNC). A hidrofobia é um sintoma característico, não sendo encontrado em nenhuma outra infecção do SNC, contudo nem todos os indivíduos infectados desenvolvem esse sintoma. Os doentes que sobrevivem à fase de excitação aguda evoluem para um quadro paralítico, caracterizado por paralisia progressiva ascendente, apatia, coma e morte.

Assim como os “vírus zumbis”, o vírus da Raiva tem 100% de letalidade, ou seja, todas as pessoas que adquirem a infecção chegam ao desfecho da doença. No caso da raiva o desfecho é a morte, já no caso dos “vírus zumbis”. é um acordar para uma “vida após a morte”, onde o zumbi mantém apenas suas características primitivas, como locomoção e busca por alimento. Existem registrados menos de 10 casos de cura da raiva, sendo uma registrada aqui no Brasil. A cura da raiva segue um protocolo experimental e não evita que o paciente recuperado esteja livre das sequelas provenientes da infecção.

Mas Dotô?! Será que o vírus da Raiva pode causar uma pandemia zumbi???

      Calma …não é bem assim… A raiva é uma zoonose, ou seja, tem o envolvimento de animais (cães, gatos, morcegos, macacos, etc ..) no ciclo de transmissão do vírus.  E assim a transmissão pessoa-pessoa ainda não foi descrita, apesar de se acreditar que um paciente raivoso possa transmitir raiva para outra pessoa através da mordedura. Além disso, a raiva, apesar de não ter tratamento, tem profilaxia. Existem vacinas e soros para o tratamento pré e pós-exposição ao vírus.

      O Dotô lembra que a raiva, apesar de esquecida, ainda é uma doença de grande importância mundial. 50.000 casos de raiva são registrados no mundo, sendo que a população mais atingida, cerca de 40%, são crianças com menos de 15 anos de idade. A fonte mais comum de infecção é a mordida por cães raivosos. Ainda hoje no mundo o cão é a principal fonte de infecção pelo vírus da raiva, com exceção da América do Sul, onde os morcegos são a principal fonte dos casos de raiva. No Brasil, casos humanos de raiva já foram notificados em 22 estados, a maioria ocorrendo nas regiões Norte e Nordeste do país. Desde 2004 a principal fonte de infecção passou a ser o morcego, seguido pelo cão. Os indivíduos mais atingidos são adultos jovens entre 20 e 29 anos do sexo masculino. Então, fiquem alerta e procurem um médico caso sofram um acidente envolvendo animais silvestres ou domésticos que vocês não tenham conhecimento de terem sido vacinados contra raiva.

      E você meu paciente, que curte esse tipo de filme, pode apreciar a “atuação” do vírus da raiva em diferentes filmes como: 28 dias depois (28 Days Later), Cujo, Eu bebo seu sangue ( I Drink Your Blood), Quarentena ou REC, Rage, Extermínio 1 e 2 e mais recentemente o filme Guerra Mundial Z (World War Z), ainda em cartaz nos cinemas.

GLOSSÁRIO:

Aerofobia: é o medo de estar ao ar livre ou exposto a correntes de ar.

Hidrofobia: Medo de água, que pode acontecer devido a uma alteração psiquiátrica, ou, no caso da raiva, devido à infecção viral.

Pandemia: Quando uma doença infecciosa atinge níveis globais, estando presente em mais de um continente, podendo atingir o mundo inteiro. Um exemplo de uma infecção viral recente que atingiu níveis pandêmicos foi causada pelo vírus Influenza H1N1 em 2009, que conseguiu atingir a fase de alerta máximo de pandemias definida pela Organização Mundial de Saúde.

Dotô, você já assistiu o filme Epidemia?

Roupa legal né?

Mas é claro que já assisti meu caro paciente. Na verdade, acho que agora eu vou trazer para vocês um pouco mais sobre a virologia no cinema. Não, calma aí. Apenas no cinema não, de tempos em tempos eu vou passar todo o meu conhecimento sobre a virologia no cinema, televisão, musica e outros instrumentos da cultura pop. Vamos começar falando sobre esse clássico de filmes de pandemias: o filme Epidemia.

                Esse filme foi lançado em 1995, embalado com os surtos epidêmicos do vírus Ebola que ocorreram no Gabão, em 1994, e na Republica Democrática do Congo em 1995, infectando 500 pessoas e levando à morte de, aproximadamente, 400 pessoas. Além da alta taxa de mortalidade, um dos maiores motivos do medo da infecção pelo vírus é o tempo em que o vírus mata o paciente infectado. Uma pessoa infectada pode morrer em até 8 dias após a infecção primária pelo vírus. Além disso, o vírus tem como manifestação clinica principal a febre hemorrágica, onde os indivíduos apresentam manchas avermelhadas na pele, diarreia sanguinolenta e começam a sangrar pelos olhos, ouvidos, nariz, boca e reto.

                A história do filme se baseia em uma possível epidemia causada por um vírus bem parecido com o vírus Ebola e que foi levado aos Estados Unidos, infectando uma cidade inteira. O filme apresenta noções de controle de doenças emergentes nos Estados Unidos, mostrando órgãos de vigilância e controle sanitários importantes como o Center for Disease Control (CDC). O filme reuniu também ótimos atores do cinema como Dustin Hoffmann, Rene Russo (não tão boa assim, mas bastante famosa), Morgan Freeman, Kevin Spacey, Cuba Gooding Jr. (também não é um bom ator, mas fazer o quê?), Donald Sutherland e Patrick Dempsey (Doutor Gray, para os mais íntimos).

A narrativa começa como em todo filme de epidemia, com uma selva qualquer e um macaquinho. No caso do filme, essa selva era encontrada na África, no Zaire em 1967 (por um acaso a mesma época e o mesmo país em que foi encontrado o vírus Ebola pela primeira vez). Estava ocorrendo uma guerra em que soldados morriam por uma doença desconhecida (como a gripe espanhola de 1917, que estava ocorrendo no meio da primeira guerra mundial e matava os soldados sem ninguém saber a causa). O filme também mostra que a doença desconhecida avançava rápido matando os soldados em pouquíssimo tempo.

Logo após essa cena da guerra, acontece uma das cenas mais emocionantes do filme e que habitou a mente deste jovem Dotô, ajudando-o a escolher sua profissão. A sequência em si é a de uma possível visão do que seria o CDC, passando por todos os laboratórios de biossegurança, usados para manipular microrganismos, variando do nível 1 ao nível 4. O interessante é, que quanto maior o nível de biossegurança, mais graves são os agentes infecciosos que são pesquisados e, por isso, é necessária uma segurança maior na manipulação e combate desse agente. Quando chegamos ao nível 4, encontramos os patógenos mais perigosos. Esse nível de segurança é requisitado para se trabalhar com agentes perigosos que representam risco individual de doença fatal. Existem poucos desses laboratórios ao redor do mundo (nenhum deles na América do Sul, o que é bastante estranho, considerando que existem vírus emergentes e reemergentes causadores de febres Hemorrágicas, como os arenavirus). Nos laboratórios de nível quatro são manipulados os vírus Ebola, por exemplo, os quais são altamente transmissíveis e sem cura conhecida. Nele só entram profissionais extremamente treinados, o que faz o Dotô perguntar: “quem é que limpa esses laboratórios”?

Trinta anos depois, a mesma doença que matou os soldados é encontrada em pequenas vilas no Zaire. O personagem principal Sam Daniels (nosso querido Dustin Hoffmann), um, digamos, cientista/militar precisa fazer a investigação da doença. Na viagem, um dos cientistas/militares da equipe (Kevin Spacey) afirma que essa doença é uma febre hemorrágica e explica suas manifestações clínicas. Já que ele explica, por que eu faria isso? Recomendo que todos assistam ao filme.

Quando a equipe chega à vila do Zaire, aparecem os primeiros casos da “nova” doença e as cenas seguintes ilustram os sintomas vivenciados pelos doentes. Na verdade, os sintomas desses pacientes são bastante parecidos com os do vírus Ebola. Ao mesmo tempo, o filme demonstra como é estressante o trabalho desses cientistas em situações de risco. Tão estressante que um dos cientistas/militares (Cuba Gooding Jr.) entra em pânico e tira o equipamento de proteção individual (EPI). O que poderia acontecer? É lógico que sem o EPI, o personagem ficaria vulnerável ao vírus, mas por sorte essa febre hemorrágica por si só não se transmite (até o momento) pelo ar, então não houve transmissão da doença pela via aérea para esse indivíduo. Ainda na vila do Zaire, Sam Daniels discute com um médico local, esse médico explica que o período de incubação da doença é bastante rápido (2 a 3 dias) levando a uma taxa de mortalidade de 100%. Aí temos um erro no filme, mas que podemos entender facilmente. Não existe até hoje uma doença infecciosa com taxa de mortalidade de 100%, talvez apenas a raiva. Em qualquer infecção, sempre há algum caso de alguém que sobrevive. Mas em Hollywood tudo pode acontecer. Nessa mesma conversa, eles falam sobre o paciente zero.

Vocês se lembram do macaquinho do começo do filme? Pois bem, ele aparece de novo. Mas agora o coitadinho é capturado e levado à civilização. Coitadinho do bichinho (cadê as Sociedades Protetoras dos Animais quando a gente precisa?). Mas mesmo raptado e fora do seu habitat natural, ele prevalece e arranja um amiguinho que dá umas bananinhas para o macaquinho.

Conversa vai, conversa vem e Sam vai trabalhar no laboratório com sua equipe. Logo que coloca o EPI especifico para o nível 4 de biossegurança (antes de entrar no laboratório, pois nesse nível de biossegurança é necessário ter uma ante-sala para colocar a roupa), ele percebe que seu EPI está rasgado. Dependendo do vírus, um rasgo na sua roupa de proteção pode ser o suficiente para o vírus atravessar a roupa e conseguir causar uma infecção. Ao perceber o estrago a tempo, e antes de entrar no laboratório de nível 4, ele consegue isolar a roupa e trabalhar eficientemente. A partir daí, o filme mostra muito bem como deve ser um laboratório de nível 4. Assim o vírus é observado em um microscópio eletrônico, e então vemos que ele tem formato diferente do usual, extremamente fino e parecido com qual vírus???? Dou uma consulta grátis para quem adivinhar. É o vírus Ebola que é mostrado. Na verdade, é uma foto clássica do vírus Ebola (Dotô é virose deveria ganhar um prêmio pela sua habilidade em encontrar erros nos filmes). O vírus passa a ser nomeado pelo mesmo nome da vila onde foi encontrado, Motaba (mas como eu vejo o Ebola na foto do vírus, então vamos chamá-lo de MotEbola).

Em uma cena posterior, o chefe de Sam pede para ele ir ao Novo México avaliar um surto de Hanta. E Sam responde se querem que ele vá caçar ratos. Sam está certíssimo, pois Hanta na verdade é um grupo de vírus chamados de hantavírus que infectam ratos. Esse vírus pode ser transmitido para os homens através da inalação de partículas virais aerolisadas (tipo o seu desodorante) presentes nas secreções de roedores, principalmente roedores silvestres. Ahh é, se vocês querem saber resumidamente como é feito o isolamento de um novo vírus (chamado de emergente) vejam os 30 segundos de discussão de Sam após falar sobre os hantavírus. Sam nos explica tudo, ele é o cara (Roberto Carlos fez a música inspirado nele).

Ahhh meu Deus e o macaquinho mais “bunitinho” desse filme??? Onde ele está??? Já chegou de barquinho aos EUA e encontra-se com um amigo meu, o Dotô Gray, do Gray’s Anatomy. Só que antes de ser médico, ele vendia macacos trazidos da África para compradores inescrupulosos. Disseram-me que ele fazia isso para pagar a faculdade de medicina. Nunca vamos saber. Mas o nosso amigo macaquinho, revoltado com esse futuro médico, cospe em sua cara e arranha o comprador da loja de animais. Nosso macaquinho, que agora sabemos que é uma macaquinha, é muito nervosa e logo, logo, ela é levada a uma florestinha que fica ali por perto (Existe um fato bastante importante sobre o macaco que interpretou essa macaquinha na continuação do filme.Vocês só saberão se lerem até o final dessa resenha).

O nosso amigo Gray, triste por ter libertado a macaquinha, viaja de avião e começa a ficar doente. Os sintomas começam a aumentar e descobrimos que a nossa amiga macaquinha infectou uma boa parte das pessoas que entrou em contato com ela e, com isso, a infecção foi se espalhando. Além disso, um técnico de laboratório bem esperto se corta na centrifuga. Acho que ninguém ensinou noções de biossegurança para essas pessoas. Existem péssimos professores na área da saúde, desde o curso técnico até a pós-graduação. Aonde a saúde no mundo vai parar? Além disso, nosso amigo Gray morre antes de virar médico. Mas como pode isso? Será que foi o irmão gêmeo dele que morreu?

A partir dessas infecções, ocorre um surto em uma cidade americana que passa a ser isolada pelos militares e a população fica em quarentena, para a doença não se espalhar. O nosso herói Dustin “Sam” Hoffmann descobre que a doença é transmissível pelo ar. Mas como assim? Como esse vírus é transmitido pelo ar se no começo do filme não era? A explicação é que ocorreu uma mutação do vírus que o tornou capaz de ser transmitido pelo ar. Nãããão, ele ficou mais parecido com o vírus Influenza. O que faremos? Temos que encontrar o hospedeiro original, que nós sabemos que é a nossa famosa amiguinha macaquinha. Nossos heróis imaginam que o hospedeiro original deve ter os dois tipos de vírus (o MotEbola original e o MotEbola transmitido pelo ar).

Quando começam a analisar as amostras de sangue dos pacientes, ocorre o maior e mais absurdo erro de todos os filmes de epidemia que foram analisados pelo nosso blog até o momento (ou seja, nenhum): as amostras de sangue foram analisadas com a utilização de um simples microscópio ótico. Aquele microscópio que tem em qualquer laboratório de ensino médio, no qual você consegue ver “bichinhos” se movendo e começa a se achar “O cientista”. Por que está errado? Pois, em um microscópio ótico, não conseguimos visualizar nenhum vírus, eles são extremamente pequenos, só podemos visualizá-los com um microscópio eletrônico. O que ele veria em um exame de sangue seria apenas a contagem de células sanguíneas, o que poderia dizer se a pessoa tinha ou não uma infecção. Mas que infecção seria essa, não daria para saber.

Ao trabalhar com o vírus e extremamente cansado, um dos pesquisadores da equipe (Kevin Spacey) de Sam, desastrado demais, tem seu traje de biossegurança danificado e, por isso, contrai o vírus. Como desgraça pouca é bobagem, a ex-mulher do protagonista (Rene Russo) se fere com uma agulha contendo sangue infectado e também contrai o vírus (isso ocorre mais vezes do que a gente imagina em hospitais desse nosso Brasil varonil). E, me esqueci de dizer, que nesse momento descobrimos que a atriz Rene Russo é tão branca como a luva que ela está usando (na verdade eu achei que ela não estava usando luva).

Com várias pessoas morrendo, dentre eles sua ex-mulher (ex-mulher atrapalha até para morrer). Nosso herói descobre que a nossa amiguinha macaquinha é a hospedeira e ele precisa encontrá-la. A chave da cura está nela. Em uma jogada do destino absurdamente estranha, uma mãe descobre que sua filha tem brincado com nossa amiga macaquinha apenas de olhar pro desenho da garota (que deve ter mais ou menos 5 anos) e comparar com a foto do macaco na TV. Isso é que é mãe com sexto sentido. A macaquinha é capturada e começam a sintetizar o soro, contendo seus anticorpos, que tem os dois tipos de vírus (o vírus em que ocorreu a mutação e o que não teve a mutação). Neste caso, isto foi o suficiente para salvar os pacientes. Fim da história (ainda tem outras coisinhas hollywoodianas que não vem ao caso).

Uoopppsss .CALMA AÍ!!! Um grande último erro do filme: o soro retirado da macaquinha era composto de anticorpos. Os anticorpos dão proteção imediata por, mais ou menos, 3 meses. Não protegem por muito tempo. Então não é “a cura” para o vírus. Seria necessária a produção de uma vacina para o MotEbola, utilizando o vírus ou antígenos do vírus, por exemplo, o que não ocorreu. Desta forma, as pessoas não estão curadas da doença para sempre, e sim por apenas 3 meses. Em pouco tempo todos poderiam morrer pela doença, se houvesse uma segunda infecção.

OBSERVAÇÃO ESPECIAL E QUE TODOS ESTAVAM ESPERANDO. SE VOCÊ LEU ATÉ AQUI, MERECE SABER DISSO

                Alguém aqui se lembra do seriado Friends? Aquele no qual Joey sempre dizia “How you doing”? Se não sabem, procurem no Google. Mas se vocês sabem, se lembram do animal de estimação do Ross no começo da série? Era um macaquinho bonitinho que se chamava Marcel. Adivinhem quem era Marcel? Era nossa querida macaquinha que causou todos os problemas para Sam Daniels e a população daquela cidade dos Estados Unidos. Pois é, ela resolveu trabalhar no seriado Friends.

                Na verdade, os produtores da série fizeram até uma piada com isso. Em determinado episódio, Rachel perde Marcel, para, na temporada seguinte, ele ser encontrado por Ross fazendo parte de um filme como estrela principal. Esse filme se chama “Outbreak 2: The Virus Takes Manhattan”. Oh, meu Deus! É a continuação do filme Epidemia. Será que Sam Daniels aparece de novo?

macacos

Olha a nossa querida macaquinha no filme Epidemia na primeira figura e na série Friends na segunda figura

GLOSSÁRIO

Antígeno – É considerado como toda partícula ou molécula capaz de iniciar uma resposta imune. No caso de vírus, os antígenos geralmente são proteínas que desencadeiam essa resposta imune.

Doenças emergentes – São aquelas cuja incidência nos seres humanos tem aumentado nas últimas duas décadas ou que poderão ameaçar a humanidade num futuro próximo (Ex: AIDS).

Paciente zero – Paciente inicial em uma população que está infectada pela doença. Considerado o primeiro paciente que indica a existência de um surto.

 

O trailer do filme Epidemia, vale a pena ver esse filme.