Dotô, o que mudou no esquema vacinal do Zé Gotinha?

 

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Imagem licenciada para uso pelo Creative Commons.
Fonte: https://www.flickr.com/photos/portalpbh/6050570798

 

Caros papais, mamães e familiares, desde janeiro de 2016 o calendário de vacinação vem sofrendo algumas modificações, dentre elas, a mudança no esquema de vacinação contra poliomielite, também reconhecida como paralisia infantil – causada pelos vírus da poliomielite 1, 2 e 3.

Existem dois tipos de vacina contra poliomoelite, a vacina oral atenuada, também chamada de Vacina Oral contra Poliomielite (VOP), a popular “Zé Gotinha”; e a vacina inativada contra poliomielite (VIP), injetável, contendo apenas os vírus da pólio 1 e 3 (não existem mais casos associados ao vírus da pólio 2 desde 1999).

O programa da Iniciativa Global de Erradicação da Poliomielite, lançado pela Organização Mundial da Saúde em 1988, que utilizou a VOP, vem obtendo sucesso na interrupção da transmissão do vírus selvagem, hoje restrita a três países (Afeganistão, Nigéria, e Paquistão) (www.polioeradication.org). Por existir ainda o vírus selvagem circulando nesses países, precisamos sempre estar atentos e vacinarmos nossas crianças.

No entanto, é relevante relatar a existência de casos de poliomielite em países com baixa cobertura vacinal, causados pelos vírus derivados da vacina oral devido a sucessivas alterações genéticas. Estima-se que possa ocorrer um caso a cada 2 a 3 milhões de doses administradas. Porém até a presente data nenhum caso de poliomielite causado por virus vacinal tem sido descrito no Brasil.

Sendo assim, para erradicar totalmente a doença, existe a necessidade da retirada gradual da VOP, com a introdução de um novo esquema vacinal. Assim, na nova campanha de vacinação para pólio, toda criança recebe as três primeiras doses do esquema – aos dois, quatro e seis meses de vida – com VIP (forma injetável) seguida por reforço com a VOP (gotinha) aos 15 meses, quatro anos e anualmente durante a campanha nacional, para crianças de um a quatro anos.

Portanto, fiquem atentos na hora de vacinar seus filhos, olhem sempre a caderneta de vacinação de seus pequenos quanto ao momento certo e forma de administrar a vacina contra polio.

REFERÊNCIAS

BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação. Brasília, 2008.

BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de Vigilância Epidemiológica. Plano de Erradicação da Poliomielite: Estratégia no Brasil. Brasília, 2015.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL. Progress toward eradication of polio worldwide – Nigeria, January 2011–September 2012. MMWR Morb Mortal Wkly  2012 Rep61:899–904.

HAMPTON LM, FARRELL M, RAMIREZ-GONZALEZ A et al. Cessation of Trivalent Oral Poliovirus Vaccine and Introduction of Inactivated Poliovirus Vaccine – Worldwide, 2016. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2016 Sep 9;65(35):934-8.

Organização Mundial de Saúde – OMS. Polio Laboratory Manual. 4a edição, Geneva, 2004.

THACKER N, YEWALE VN, PATHAK A. Global Polio Eradication, The Journey So Far. Indian Pediatr. 2016 Aug 7;53 Suppl 1:S61-S64.

VASHISHTHA VM, CHOUDHARY J, YADAV S, UNNI JC et al. Introduction of Inactivated Poliovirus Vaccine in National Immunization Program and Polio Endgame Strategy. Indian Pediatr. 2016 Aug 8;53 Suppl 1:S65-S69.

 

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

Texto realizado pelo aluno de pós-graduação em Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Lucas Morgado, sob a orientação da Dra Elba R. Sampaio de Lemos e DraRenata Carvalho de Oliveira.

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Dotô, eu preciso dar vacina contra sarampo para o meu bebê?

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Sim, cara(o) mãe/pai! Tomar a vacina contra o sarampo é super importante e a dose deve ser administrada quando o seu bebê completar 12 meses.

A vacina tríplice viral protege contra os vírus do sarampo, da rubéola e da caxumba. O Ministério da Saúde também disponibiliza a vacina tetra viral. Essa vacina, além dos três vírus da vacina tríplice viral também tem mais uma proteção, contra o vírus da catapora (varicela). Ela deve ser tomada aos 15 meses de idade.

Você pode ter feito essa pergunta por que foi divulgado na mídia em 2016 que todos os países da região das Américas: América do Norte, América Central e a América do Sul (claro que o Brasil está incluído) estão livres do sarampo. Isso mesmo…
Conseguimos essa vitória graças aos esforços por muitos anos para que todas as crianças tomassem a vacina contra o sarampo.

A gravidade do sarampo deixou de ser evidente graças à vacinação. Devido à drástica redução dos casos, muitas pessoas pensam que o sarampo é uma doença “boba da infância”, simples de ser tratada e que não colocam as crianças em risco. Está muito enganado quem pensa desse jeito!

O sarampo pode levar a problemas sérios de saúde, como pneumonia, cegueira, diarreia, e mais raramente a uma complicação no cérebro. O tratamento dessa infecção no sistema nervoso central é tão complicado como falar o nome dela, é chamada de panencefalite subaguda esclerosante. Quem tem mais de 49 anos e viveu antes da vacinação contra o sarampo deve ter visto todo o estrago, quantas mortes essa doença já causou e ainda causa em alguns países.

O sarampo é tão grave e contagioso que todos os países se comprometeram com a Organização Mundial da Saúde de controlar essa doença. Porém ainda há muitos países onde o vírus do sarampo está presente no ar, circulando e “passeando para lá e para cá, fazendo a festa quando encontra alguém que não tem proteção contra ele”, causando surtos e epidemias.

Apesar da disponibilidade de uma vacina eficaz por mais de 5 décadas, o vírus do sarampo ainda acomete cerca de 20 milhões de pessoas em todo o mundo, levando a óbito mais de 115 mil pessoas, anualmente.

Em países desenvolvidos, o acesso aos cuidados médicos é mais fácil. E a gravidade do sarampo, como falado antes, não é mais tão reconhecida pela população. Então alguns responsáveis deixaram de dar a vacina contra o sarampo para os seus filhos por medo de reações adversas, questões filosóficas e religiosas ou por pensar que a doença natural é mais saudável.

No Brasil, geralmente, a não administração da vacina ocorre por problemas sociais, como o responsável pela criança (por motivo de trabalho) não ter tempo de levá-la até o posto de saúde.

Em diversos países, principalmente países da Ásia e da África, o sarampo até os dias de hoje mata muito. Crianças que não tem acesso aos serviços básicos de saúde, a vacinação e uma alimentação adequada estão mais vulneráveis as complicações ocasionadas pela doença. Ultimamente, têm ocorrido surtos de sarampo em vários países incluindo alguns países da Europa.

Aqui no Brasil, os últimos surtos ocorreram em 2013 a 2015 no nordeste, nos estados do Ceará e de Pernambuco. No estado do Ceará 27 dos 184 municípios tiveram a cobertura vacinal baixa. É necessário que a cobertura vacinal da população esteja acima de 95% em todos os bairros, municípios, cidades e estados do país para que não ocorram surtos.

 Você sabia que o vírus do sarampo é transmitido pela respiração?

As gotinhas jogadas para fora quando uma pessoa com sarampo fala, tosse ou espirra e respiradas por pessoas próximas que não tenham proteção contra o sarampo podem se contaminar com o vírus. Pensa comigo, ainda existem lugares que tem o vírus circulando e também as pessoas vivem viajando, inclusive para outros países. Quem vai garantir que uma pessoa com o vírus do sarampo e que não está doente não vai embarcar num avião com tosse, espirro e espalhar o vírus pelo ar?

O período de maior transmissibilidade ocorre nos dois dias antes e depois do aparecimento das manchas na pele (exantema). Outra possibilidade são pessoas não vacinadas viajarem e se infectarem com o sarampo, voltando para o lugar onde residem e espalhando a doença. Ao trazer o vírus do sarampo consigo, nesse caso, a pessoa será “o mala” da história.

Então… Se as crianças deixarem de tomar a vacina, os casos de sarampo voltarão a explodir. Basta ter pessoas susceptíveis para ocorrer surtos.  Assim, proteja o seu filho levando-o até o posto de saúde para a vacinação. Com a vacina ele não precisará adoecer para estar protegido.

 A vacinação é responsabilidade de todos para construir uma barreira de proteção e assim manter as crianças livres do sarampo.

Pense nisso e faça seu papel como cidadão brasileiro e pela saúde de nossas crianças. Elas agradecem!

GLOSSÁRIO:

Epidemia: É a ocorrência de surtos de uma determinada doença em diversos locais num mesmo período de tempo.

Exantema: É o aparecimento de erupções cutâneas vermelhas no corpo causadas por infecções ou efeito colateral de medicamentos.

Panencefalite subaguda esclerosante: É uma doença inflamatória, neurodegenerativa, rara e crônica

Surto: Aumento no número de casos além da normalidade. Às vezes, um ou dois casos podem ser considerados um surto em lugares onde não ocorre determinada doença.

REFERÊNCIAS:

Castillo-Solorzano, C., C. Marsigli, M. C. Danovaro-Holliday, C. Ruiz-Matus, G. Tambini and J. K. Andrus (2011). “Measles and rubella elimination initiatives in the Americas: lessons learned and best practices.” J Infect Dis 204 Suppl 1: S279-283.

Leite, R. D., J. L. Barreto and A. Q. Sousa (2015). “Measles Reemergence in Ceará, Northeast Brazil, 15 Years after Elimination.” Emerg Infect Dis 21(9): 1681-1683.

MEASLES & RUBELLA INICIATIVE, 2016. Read the World Health Organization’s Progress Toward regional measles elimination Disponível em: < http://measlesrubellainitiative.org/learn/the-impact/mortality-reduction/. Acesso: 23 set. 2016

MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2016. O Brasil recebe o certificado de eliminação do sarampo. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/25846-brasil-recebe-certificado-de-eliminacao-do-sarampo. Acesso: 01 out. 2016]

Secretaria de Vigilância em Saúde, 2014. Guia de Vigilância em Saúde. Ministério da Saúde. Brasília; 2014, 812 p.

PROGRAMA NACIONAL DE IMUNIZAÇÕES. Disponível em : http://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/pni/. Acesso: 17 nov. 2016.

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

Texto realizado pelo aluna de pós-graduação em Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Suelen Soares, sob a orientação da Dra Elba R. Sampaio de Lemos e DraRenata Carvalho de Oliveira.

Dotô, eu preciso tomar vacina da gripe todo ano?

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A gripe é uma doença causada pelo vírus influenza, que pode ser prevenida anualmente através da vacina anti-influenza. Embora qualquer pessoa, a partir de seis meses de idade, possa tomar a vacina, apenas alguns grupos têm direito a vacina gratuitamente na rede pública de saúde. Isso porque a intenção da vacina não é evitar ou até mesmo eliminar a doença como, por exemplo, as vacinas da poliomielite ou do sarampo. O objetivo da vacinação contra o vírus influenza é reduzir a morbidade e a mortalidade nas populações que têm maior chance de desenvolver a forma mais grave da doença.

Os grupos prioritários a serem vacinados de acordo com recomendações do Ministério da Saúde são:

Crianças de 6 meses a menores de 5 anos;
Gestantes;
Puérperas;
Trabalhador de saúde;
Povos indígenas;
Indivíduos com 60 anos ou mais de idade;
População privada de liberdade;
Funcionários do sistema prisional;
Pessoas portadoras de doenças crônicas não transmissíveis;
Pessoas portadoras de outras condições clínicas especiais (doença respiratória crônica, doença cardíaca crônica, doença renal crônica, doença hepática crônica, doença neurológica crônica, diabetes, imunossupressão, obesos, transplantados e portadores de trissomias).
Fonte: Portal da Saúde – Ministério da Saúde

A gripe pode ser causada pelos vírus influenza A (subtipos H1N1pdm09 ou H3N2) e pelo vírus influenza B. A vacina anti-influenza protege para todos esses vírus e anualmente a OMS (Organização Mundial da Saúde) reune-se para que, com base em relatórios dos países do Hemisfério Sul reportando quais cepas virais irão circular no inverno de cada uma das regiões, possa recomendar quais serão as cepas vacinais que irão compor a vacina do ano seguinte.

Mas Dotô, por que tem que tomar a vacina todos os anos?

Porque os vírus influenza possuem uma taxa de mutação muito alta, isso significa dizer que o vírus pode mudar muito de um ano para o outro, sendo assim a vacina do ano anterior pode não proteger para o vírus que circula no ano seguinte. Além disso, algumas pesquisas científicas mostram que a imunidade contra o vírus dura entre seis meses a um ano, reforçando a necessidade de uma nova dose da vacina a cada ano.

Então, se você faz parte de algum grupo prioritário, deve tomar a vacina anti-influenza todos os anos sim, preferencialmente entre os meses de abril a junho quando o vírus, normalmente, começa a circular no Brasil.

Muitos cientistas estudam uma forma de produzir uma vacina universal que proteja de forma mais duradoura contra qualquer tipo de vírus influenza, porém esses estudos ainda não mostraram nenhum candidato à vacina eficaz.

Caso você tenha curiosidade sobre a produção da vacina anti-influenza, veja no link abaixo um vídeo abaixo mostrando como o Instituto Butantan fabrica a vacina:
Como é feita a vacina da gripe?

 

GLOSSÁRIO

Morbidade: número de pessoas doentes com relação a uma doença e uma população.
Puérpera: mulher que acabou de parir.
Trissomias: presença de um cromossomo extra
Cepa viral: vírus de uma determinada espécie viral que já foi caracterizado fenotipicamente e/ou genotipicamente.

REFERÊNCIAS:

SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. Influenza.  2016.  Disponível em: < http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/svs/influenza >.  Acesso em: 13 de novembro de 2016.

SIQUEIRA, M. M.  et al. Influenza. In: COURA, J. R. (Ed.). Dinâmica das doenças infecciosas e parasitárias. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, v.2, 2013. cap. 161, p.1855-1872.  (Doenças produzidas por vírus). ISBN 9788527710947.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Health topics. Influenza.  2016.  Disponível em: < http://www.who.int/topics/influenza/en/ >. Acesso em: 13 de novembro de 2016. (página em inglês)

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

Texto realizado pelo alun de pós-graduação em Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Priscila Born, sob a orientação da Dra Elba R. Sampaio de Lemos e Dra Renata Carvalho de Oliveira.

 

 

Dotô, vacino ou não meu filho contra o HPV?

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Fonte: autoria de Luana Lorena Silva Rodrigues

O Ministério da Saúde anunciou no dia 11 de outubro de 2016 que meninos de 12 e 13 anos também serão incluídos no público-alvo de vacinação contra o HPV a partir de 2017. Desde a implantação em 2014, até o ano de 2016, a vacina quadrivalente contra o HPV (Papilomavírus humano) foi destinada a meninas de 9 a 13 anos e para mulheres que vivem com HIV (Vírus da imunodeficiência humana) de 9 a 26 anos pelo Programa Nacional de Imunização (PNI) no Sistema Único de Saúde (SUS). Diante das  novidades algumas perguntas sobre as principais  dúvidas são apresentadas a seguir.

Pergunta: Para começo de conversa a vacina contra o HPV pode causar eventos adversos? Quais?

Dotô: Sim. O evento adverso mais comum é a dor, inchaço ou vermelhidão no local da aplicação da vacina. Há também relatos de febre, dor de cabeça, náusea, tonturas, vômito e desmaios associados a distúrbio psicogênico. Eventos adversos mais graves foram relacionados a doenças- autoimune, como síndrome de Guillain-Barré. Entretanto, a ocorrência dos eventos adversos graves foi rara e ainda não comprovada, porque alguns estudos científicos sugerem a relação, enquanto outros não.

Pergunta: Não entendi, o que é distúrbio psicogênico?

Dotô: Distúrbio psicogênico ou doença psicogênica é um conjunto de sintomas relacionados a transtornos psíquicos, isto é, alteração que ocorre no campo mental e comportamental de uma pessoa. Desmaio, dores, taquicardia e fibromialgia têm sido descritos isoladamente após a vacinação contra o HPV. Alguns estudos levantam a hipótese de que o alumínio (um componente da vacina) é o responsável por ocasionar esses eventos e que algumas pessoas são mais propensas. Em contrapartida, outros especialistas afirmam que o distúrbio psicogênico é um evento adverso comum em resposta a qualquer vacinação, não sendo exclusivo da vacina HPV e que ocorre principalmente entre adolescentes e que as tentativas de relacionar essas síndromes com a vacinação não têm base científica ainda comprovada.

Pergunta: Mas se a vacina contra o HPV causa evento adverso porque é considerada segura?

Dotô: As principais autoridades em saúde e reguladoras do mundo monitoram continuadamente a segurança da vacina HPV. Na ONU (Organização das Nações Unidas), por exemplo, isso ocorre através de um comitê de especialistas. Com a recomendação de que todos os eventos adversos sejam minunciosamente avaliados para se confirmar a causalidade, é importante frisar que a ocorrência de casos graves é raro, inferior a 0,1% e que a vacina HPV deve ser ministrada em virtude dos benefícios. No entanto, casos de pessoas com história de doença autoimune devem ser criteriosamente avaliados por médico, considerando o maior o risco de eventos adversos graves.

Pergunta: Porque tomar uma vacina que não protege contra todos os tipos de HPV…

Dotô: A Gardasil® é uma vacina que protege contra os quatro tipos do HPV que mais causam doenças nas pessoas. O HPV-6 e HPV-11 são os que mais causam verrugas em mucosas e o HPV-16 e HPV-18 podem causar lesões que podem evoluir para câncer. A infecção persistente pelo HPV é associada aos carcinomas anogenitais, de cabeça e pescoço. O HPV-16 e HPV-18 são identificados em 70% dos casos de câncer do colo do útero, 75,6% dos casos de câncer anal, 47,3% de câncer de vagina e 20,9% de câncer de vulva.

Pergunta: Se as meninas já estão sendo vacinadas, porque vacinar os meninos?

Dotô: Os meninos assim como as meninas podem se infectar e desenvolver manifestações clínicas associadas à infecção pelo HPV. Dificilmente uma campanha de vacinação atinge uma cobertura de 100%. Então, pode ser que no futuro ocorra algum contato sexual de homens com mulheres não vacinadas. Sem falar no contato sexual entre pessoas do mesmo sexo.

Pergunta: Ok Dotô…mas se a contaminação pelo HPV se dá pelo contato sexual porque vou vacinar minha filha e meu filho que ainda são muito jovens e não têm vida sexual?

Dotô: Justamente porque a vacinação deve ser antes do contato com o HPV, que frequentemente ocorre com o início da vida sexual. Além disso, a vacina induz a produção de anticorpos mais eficiente em pré-adolescentes do que em adolescentes e mulheres jovens. O contato sexual é a principal forma de infecção pelo HPV, mas existem outras possibilidades menos comum, como durante o parto se a mãe estiver infectada e pelo compartilhamento de objetos de uso pessoal contaminados. É importante ter o entendimento de que a vacina contra o HPV proporciona benefícios a curto, médio e longo prazo. Após a vacinação, o seu filho ou filha estará imune aos quatro tipos de HPV que a vacina protege. No futuro, ainda que bem distante, seu filho ou filha ao iniciar a vida sexual estará protegido contra verrugas genitais, lesões pré-câncer e o câncer associado à infecção pelo HPV.

Pergunta: Como vou explicar para uma criança de 9 anos que essa vacina vai protegê-la contra um vírus que causa uma IST (infecção sexualmente transmitida)?

Dotô: A principal preocupação com a infecção pelo HPV é o câncer. A relação de diálogo estabelecida entre pais e filhos é algo muito particular de cada família. Uma sugestão é que você contextualize que o grande problema da infecção pelo HPV é o desenvolvimento de câncer, uma doença que ocorre na maior parte dos casos em adultos. Causado por diferentes agentes, o câncer está associado, entre diferentes fatores, com o uso do tabaco, fatores genéticos e agentes infecciosos, como no caso do câncer do colo do útero, que está associado com a infecção pelo HPV, demonstrando, assim, a importância da vacinação.

Por fim é preciso na fase na qual a criança se torna pré-adolescente/adolescente que, com muito diálogo em um ambiente de confiança, os pais esclareçam que infecções sexualmente transmissíveis (IST) são causadas por diversos microrganismos e que a vacina só protege contra um deles, o HPV. Por isso deve-se usar o preservativo nas relações sexuais sempre.

Pergunta: A vacina contra HPV disponibilizada no SUS é a mesma de clínicas particulares?

Dotô: Sim, é a mesma. A vacina disponibilizada no SUS é a quadrivalente Gardasil® que protege contra os tipos HPV-6, HPV-11, HPV-16 e HPV-18. Nas clínicas particulares pode-se encontrar tanto a quadrivalente Gardasil® quanto a bivalente Cervarix® que protege contra o HPV-16 e HPV-18. No SUS são duas doses com um intervalo de seis meses.

É isso pessoal, espero ter esclarecido algumas dúvidas. Consulte o glossário de termos se tiver dúvida sobre alguma palavra mencionada.

GLOSSÁRIO:

Vacina quadrivalente: aquela que protege contra quatro tipos do vírus, HPV-6, HPV-11, HPV-16 e HPV-18.

Vacina bivalente: aquela que protege contra dois tipos do vírus, HPV-16 e HPV-18.

Distúrbio psicogênico ou doença psicogênica: está relacionado a doenças causadas por transtornos psíquicos. Isto é, relacionado a distúrbio que ocorre no campo mental e comportamental de uma pessoa.

Prognóstico: Avaliação baseada no diagnóstico de uma possível doença, se pautando em dados reais, indica o que poderá acontecer.

Síndrome de dor regional complexa: é uma condição crônica e dolorosa, afetando apenas um membro que normalmente segue um episódio de trauma ou imobilização.

Síndrome de taquicardia ortostática postural: é caracterizada por um aumento anormal da frequência cardíaca quando muda-se de uma posição horizontal para uma posição vertical, o que pode causar desmaio de curta duração.

Frequência cardíaca: quantidade de vezes que o coração bate por minuto. O valor depende da idade, atividades físicas ou doenças cardíacas.

Fibromialgia: é caracterizada por dor muscular generalizada no corpo acompanhada de sintomas de fadiga, e alterações de sono, memória e humor. É uma das doenças reumatológicas mais frequentes.

Doenças auto-imunes: Doença que ocorre com uma falha no sistema imunológico levando ataque e destruição de tecidos saudáveis do corpo por engano.

Síndrome de Guillain-Barré: Doença auto-imune caracterizada por uma inflamação aguda causada por auto-anticorpos contra sua própria mielina (membrana de lipídios e proteína que envolve os nervos e facilita a transmissão do estímulo nervoso) dos nervos periféricos e às vezes de raízes nervosas proximais e de nervos cranianos (nervos que emergem de uma parte do cérebro chamada tronco cerebral e suprem às funções específicas da cabeça, região do pescoço e vísceras).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOGAZ, Camila; AMORIM, Ana Cláudia. Portal Saude. Ministério da Saúde. Imunização. Meninos também serão vacinados contra HPV. Disponível em: < http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/25953-meninos-tambem-serao-vacinados-contra-hpv&gt; Acesso em 11 de nov de 2016.

Bruni L, Barrionuevo-Rosas L, Albero G, Serrano B, Mena M, Gómez D, Muñoz J, Bosch FX, De Sanjosé S. ICO Information Centre on HPV and Cancer (HPV Information Centre). Human Papillomavirus and Related Diseases in the World. Summary Report 7 October 2016. Acesso em 11 de nov de 2016.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Genital HPV Infection – Fact Sheet. Disponível em: <http://www.cdc.gov/std/hpv/stdfact-hpv.htm&gt; Acesso em 11 de nov de 2016.

Kash N, Lee MA, Kollipara R, Downing C, Guidry J, Tyring SK. Safety and Efficacy Data on Vaccines and Immunization to Human Papillomavirus. J Clin Med. 2015 Apr 3;4(4):614-33. doi: 10.3390/jcm4040614. PubMed PMID: 26239350; PubMed Centrar PMCID: PMC4470159.

LARSON H. The world must accept that the HPV vaccine is safe. Nature, 528(7580):9. doi: 10.1038/528009a. PMID: 26632553.

Martínez-Lavín M, Martínez-Martínez LA, Reyes-Loyola P. HPV vaccination syndrome. A questionnaire-based study. Clin Rheumatol. 2015 Nov;34(11):1981-3. doi: 10.1007/s10067-015-3070-3. PMID: 26354426.

MARTÍNEZ-LAVIN M. Re: Proposed HPV vaccination syndrome is unsubstantiated. Clin Rheumatol. 2016 Mar;35(3):835-6; discussion 837-8. doi: 10.1007/s10067-015-3118-4. PMID: 26576761.

Nicol AF, de Andrade CV, Russomano FB, Rodrigues LS, Oliveira NS, Provance DW Jr, Nuovo GJ. HPV vaccines: their pathology-based discovery, benefits, and adverse effects. Ann Diagn Pathol. 2015 Dec;19(6):418-22. doi: 10.1016/j.anndiagpath.2015.07.008. PMID: 26321154.

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PETOUSIS-HARRIS H. Proposed HPV vaccination syndrome is unsubstantiated. Clin Rheumatol. 2016 Mar;35(3):833-4. doi: 10.1007/s10067-015-3090-z. PMID: 26490038.

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WORLD HEALTH ORGANIZATION. Safety of HPV vaccines. Disponível em: <http://www.who.int/vaccine_safety/committee/topics/hpv/Dec_2015/en/&gt; Acesso em 12 de nov de 2016.

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a
fonte (Dotô, é virose?)

Texto realizado pela aluna de pós-graduação em Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Luana Lorena Silva Rodrigues, sob a orientação da Dra Elba R. Sampaio de Lemos e Dra Renata Carvalho de Oliveira.

 

Dotô, eu posso ter hepatite mesmo depois de vacinado?

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Sim, é possível! A hepatite é uma inflamação que acontece no fígado e pode ter diversas causas. Entre elas estão as hepatites A e B (que possuem vacina) e a D (que é prevenida de forma indireta pela vacina da hepatite B). No entanto, diversos outros agentes (infecciosos ou não) podem causar os mesmos sinais e sintomas e alguns deles não podem ser prevenidos através de vacinação. Vamos falar de alguns deles.

Entre os vírus existem cinco tipos principais que causam a doença. Além dos três que já foram citados anteriormente, há também os causadores das hepatites C e E. Entretanto, apesar de não ser o quadro clínico mais comum, existem casos relatados de hepatite que surgiram após infecções pelos vírus da dengue e herpesvírus, por exemplo.

Em relação às bactérias, a literatura científica mostra grande importância dos casos associados à sífilis e à leptospirose, porém outras bactérias também já foram relacionadas à doença. Entre parasitas também já foi observado a possibilidade de dano no fígado causado durante a evolução de fasciolose, malária e toxoplasmose. O mesmo também foi relatado para algumas espécies de fungos capazes de causar doenças em seres humanos.

E como se não bastassem todas estas possibilidades, existem outros agentes não infecciosos que podem induzir quadros de hepatite. Entre essas causas destacam-se o álcool, uso de medicamentos (especialmente anti-inflamatórios e anabolizantes), consumo de drogas, cânceres, doenças autoimunes, entre outros.

– Mas Dotô, é possível que eu tenha hepatite A ou B depois da vacina?

Também pode acontecer, apesar de ser bastante incomum. A recomendação de muitos cientistas é que fossem feitas duas doses de vacina contra hepatite A, porém no Brasil há apenas uma dose garantida no programa nacional de imunização (PNI). Neste esquema de dose única a maior parte das pessoas já consegue produzir anticorpos e ficar protegida contra o vírus, mas não são todas. Portanto, é possível que algumas pessoas, mesmo vacinadas, estejam descobertas e venham a desenvolver a doença caso entrem em contato com o vírus posteriormente. Além disso, a vacina contra hepatite A foi disponibilizada gratuitamente à população apenas em 2014, e somente para crianças de 1 ano até 2 anos incompletos. Isto faz com que a atual população de mais idade não possa ser protegida através da vacinação.

Em relação ao vírus da hepatite B, o pensamento é diferente. As doses oferecidas pelo SUS são suficientes, porém existem alguns indivíduos que, por particularidades de seus sistemas imunológicos, não conseguem responder à vacina e produzir anticorpos mesmo se forem ofertadas doses extras de reforço. Este problema é mais comum em pacientes que tenham algumas doenças de base como hepatite C, diabetes ou insuficiência renal crônica, mas também pode ocorrer na população em geral.

Portanto, caso você tenha desenvolvido hepatite, tente sempre investigar qual foi a causa, pois dificilmente estará acontecendo falha vacinal. No entanto, mesmo que exista a possibilidade de a vacina não ser totalmente eficaz, lembramos que é sempre importante recorrer à imunização, pois ao longo da história a quantidade de exemplos de sucessos foram extremamente superiores aos fracassos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COURA, José Rodrigues. Dinâmica das doenças infecciosas e parasitárias. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.

CZAJA, A. J. Diagnosis and Management of Autoimmune Hepatitis: Current Status and Future Directions. Gut Liver, v. 10, n. 2, p. 177-203, Mar 2016. ISSN 2005-1212. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26934884 >.

FOCCACIA, R. Tratado de infectologia. VERONESI, R.: Editora Atheneu 1: 493-683 p. 2015.

MORAES, J. C.; LUNA, E. J.; GRIMALDI, R. A. Immunogenicity of the Brazilian hepatitis B vaccine in adults. Rev Saude Publica, v. 44, n. 2, p. 353-9, Apr 2010. ISSN 1518-8787. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20339636 >.

NIH. LiverTox – Clinical and research information on drug-induced liver injury.  2016.  Disponível em: < https://livertox.nlm.nih.gov/ >. Acesso em: 21/10/2016.

SAÚDE, M. D. Programa Nacional de Imunizações.  2016.  Disponível em: < http://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/pni/ >. Acesso em: 20/10/2016.

SINGH, A. E.  et al. Factors associated with vaccine failure and vertical transmission of hepatitis B among a cohort of Canadian mothers and infants. J Viral Hepat, v. 18, n. 7, p. 468-73, Jul 2011. ISSN 1365-2893. Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20546502 >.

ZHANG, X.  et al. Comparison of immune persistence among inactivated and live attenuated hepatitis a vaccines 2 years after a single dose. Hum Vaccin Immunother, v. 12, n. 9, p. 2322-6, Sep 2016. ISSN 2164-554X. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27494260 >.

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

Texto realizado pelo aluno de pós-graduação em Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, Derick Mendes Bandeira, sob a orientação da Dra Elba R. Sampaio de Lemos e Dra Renata Carvalho de Oliveira.

 

 

Dotô, vamos falar de zika?

zika olimpiadas

Jader Correa (Jornal O Correio)

 

Caros pacientes, em março, o Dotô assistiu a uma palestra na Fiocruz sobre o vírus zika e a microcefalia, a maior preocupação em saúde pública do Brasil nesse momento. Para repassar o que foi discutido nesse dia e pelo impacto direto na saúde de nossas crianças, o Dotô fará três postagens sobre o que foi apresentado nessa palestra, continuando os especiais pelos três anos de existência do nosso querido blog Dotô, é virose?.

A primeira postagem é sobre a palestra da pesquisadora do Laboratório de Flavivírus, Drª Patrícia Carvalho de Sequeira, que contou a história do zika vírus, como ele chegou ao Brasil e o panorama atual.

O vírus zika foi isolado em 1947 em macacos rhesus na Floresta Zika (daí o seu nome), na Uganda. O pesquisador responsável (Dick) inoculou o soro desses animais no cérebro de camundongos para observar seu efeito no sistema nervoso central. Além disso, Dick também fez um macerado de mosquitos (Aedes africanus) e também inoculou no cérebro de camundongos para investigação.

Outro experimento feito em 1956 por um pesquisador chamado Bearcroft, ocorreu quando este pesquisador inoculou o macerado de cérebro de camundongo com o suposto vírus zika em um voluntário. Doideira não é? Pois é, foi assim que ele observou as manchas típicas na pele, chamada de exantema. Além disso, depois de apresentar os sintomas, ele inoculou o soro do voluntário no cérebro de camundongos (como fizeram com o soro dos macacos). E ainda tem mais: quando o voluntário foi picado pelo Aedes aegypti, a infecção não se perpetuou, indicando que esse Aedes não estava adaptado ao vírus zika na época.

Em 2007 aconteceu o primeiro grande surto do vírus zika, na ilha de Yap, na Micronésia, sendo observada a presença das manchas na pele, conjuntivite (pela primeira vez descrita) e dor nas articulações, mas nenhuma manifestação grave.

Em 2013/2014, ocorreu um surto do vírus zika na Polinésia Francesa, chegando na Ilha de Páscoa em 2014. Foi nesse momento que os médicos observaram os primeiros casos de Síndrome de Gullain-Barré, e descreveram a possível transmissão perinatal do vírus zika para o feto (sem microcefalia até então).

O vírus teria chegado ao Brasil em março de 2015. Existem duas hipóteses: de que teria chegado ao Brasil durante a copa do mundo ou então por atletas da polinésia francesa que vieram em 2014 para um campeonato de canoagem. Na mesma época, o primeiro caso de transmissão autóctone no Brasil foi confirmado por biologia molecular, usando uma técnica chamada RT-PCR e confirmado por sequenciamento e análise filogenética.

Em um determinado momento, a população fica apreensiva: um vírus com fortes indícios de que pode estar relacionado a casos de microcefalia em bebês. Então, surgem dúvidas quanto à possível via de transmissão: seria pela urina? Pela saliva? Por transmissão sexual? A única confirmada foi a transmissão transparentaria, onde o vírus pode atravessar a placenta da mãe e infectar o bebê, causando lesão neurológica. Então, em novembro de 2015, a Fiocruz do Rio de Janeiro, em parceria com a Paraíba, confirmou por biologia molecular a presença do vírus zika em amostras de líquido amniótico de gestantes apresentando sintomas característicos de uma infecção pelo vírus zika. Outro estudo brasileiro confirmou que o vírus zika circulante no país tem origem da polinésia francesa, e por análise filogenética inclusive, confirmou a sua semelhança com o vírus da encefalite japonesa.

A partir daí um estudo feito com mulheres grávidas no Estado do Rio de Janeiro, observou que casos de microcefalia em gestantes podem acontecer em qualquer momento da gestação (mulheres de 8 a 35 semanas de gestação apresentaram anomalia fetal), reforçando então a prevenção durante toda a gravidez. A notificação então se tornou obrigatória e cerca de 500 municípios brasileiros já confirmaram casos de microcefalia até o momento da publicação desse post.

Então tá, Dotô…agora que você já contou a historinha do vírus zika, eu quero saber: minha sobrinha está grávida e cheia de manchas na pele e conjuntivite, como eu posso saber se ela está ou não com esse tal de vírus zika?

Primeiro ela deverá ir a um médico especialista (obstetra ou infectologista, por exemplo) que a orientará e investigará o caso dela e do bebê. Ele vai fazer uma série de perguntas e avaliar clinicamente sua sobrinha e o bebê. Ele pedirá exames como ultrassonografia, exames do pré-natal, sorologia para outras doenças que possuem sinais e sintoma semelhantes ao vírus zika, dentre outros. Caso as outras doenças forem excluídas e sua sobrinha for um caso suspeito de infecção pelo vírus zika, ele solicitará um exame chamado PCR em tempo real para zika vírus, que confere um resultado rápido e sensível. É importante coletar o sangue da sua sobrinha até 5 dias do início dos sintomas, pois é quando o vírus está circulando no soro dela. Além disso, seria interessante coletar a urina e levar junto no dia do exame. A urina entra como uma opção alternativa caso o teste não detecte o vírus nesse período, já que o vírus é encontrado na urina por um período bem maior do que no soro.  A detecção do vírus no soro da sua sobrinha é feita pesquisando uma região específica do material genético do vírus zika, que codifica o envelope do vírus.

Caros pacientes, essa é a primeira sessão especial sobre o vírus zika. Na próxima falaremos sobre a microcefalia e o impacto na vida de nossas crianças. Aguarde e até mais!

Para quem quiser dar uma espionada nos artigos que foram publicados sobre a história do vírus zika e a sua chegada ao Brasil, o Dotô fez um compilado para que seus pacientes antenados possam se atualizar. Informação é sempre a melhor forma de prevenção! Enjoy it!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DICK GW, KITCHEN SF, HADDOW AJ. Zika virus. I. Isolations and serological specificity. Trans R Soc Trop Med Hyg. 1952 Sep;46(5):509-20. PubMed PMID: 12995440.

DICK GW. Zika virus. II. Pathogenicity and physical properties. Trans R Soc Trop Med Hyg. 1952 Sep;46(5):521-34. PubMed PMID: 12995441.

BEARCROFT WG. Zika virus infection experimentally induced in a human volunteer. Trans R Soc Trop Med Hyg. 1956 Sep;50(5):442-8. PubMed PMID: 13380987.

Duffy MR, Chen TH, Hancock WT, Powers AM, Kool JL, Lanciotti RS, Pretrick M, Marfel M, Holzbauer S, Dubray C, Guillaumot L, Griggs A, Bel M, Lambert AJ, Laven J, Kosoy O, Panella A, Biggerstaff BJ, Fischer M, Hayes EB. Zika virus outbreak on Yap Island, Federated States of Micronesia. N Engl J Med. 2009 Jun 11;360(24):2536-43. doi: 10.1056/NEJMoa0805715. PubMed PMID: 19516034.

Besnard M, Lastere S, Teissier A, Cao-Lormeau V, Musso D. Evidence of perinatal transmission of Zika virus, French Polynesia, December 2013 and February 2014. Euro Surveill. 2014 Apr 3;19(13). pii: 20751. PubMed PMID: 24721538.

Cao-Lormeau VM, Roche C, Teissier A, Robin E, Berry AL, Mallet HP, Sall AA, Musso D. Zika virus, French polynesia, South pacific, 2013. Emerg Infect Dis. 2014 Jun;20(6):1085-6. doi: 10.3201/eid2006.140138. PubMed PMID: 24856001; PubMed Central PMCID: PMC4036769.

Oehler E, Watrin L, Larre P, Leparc-Goffart I, Lastere S, Valour F, Baudouin L, Mallet H, Musso D, Ghawche F. Zika virus infection complicated by Guillain-Barre syndrome–case report, French Polynesia, December 2013. EuroSurveill. 2014 Mar 6;19(9). pii: 20720. PubMed PMID: 24626205.

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Brasil P, Pereira JP Jr, Raja Gabaglia C, Damasceno L, Wakimoto M, Ribeiro Nogueira RM, Carvalho de Sequeira P, Machado Siqueira A, Abreu de Carvalho LM, Cotrim da Cunha D, Calvet GA, Neves ES, Moreira ME, Rodrigues Baião AE, Nassar de Carvalho PR, Janzen C, Valderramos SG, Cherry JD, Bispo de Filippis AM, Nielsen-Saines K. Zika Virus Infection in Pregnant Women in Rio de Janeiro – Preliminary Report. N Engl J Med. 2016 Mar 4.

Calvet G, Aguiar RS, Melo AS, Sampaio SA, de Filippis I, Fabri A, Araujo ES, de Sequeira PC, de Mendonça MC, de Oliveira L, Tschoeke DA, Schrago CG, Thompson FL, Brasil P, Dos Santos FB, Nogueira RM, Tanuri A, de Filippis AM. Detection and sequencing of Zika virus from amniotic fluid of fetuses with microcephaly in Brazil: a case study. Lancet Infect Dis. 2016 Feb 17.

 

Dotô, sempre existiram vírus no Rio de Janeiro? (Parte 1)

rio

A história da virologia no Rio de Janeiro já vem há muito tempo, meu caro paciente. Vários vírus já passaram pela cidade maravilhosa e muita coisa foi pesquisada. Nesse post especial de 3 anos do Dotô, é virose, vamos discutir um pouco mais sobre a história da virologia no município do Rio de Janeiro. E essa história é tão longa que tivemos que dividir o post em várias partes. Com vocês o primeiro post dessa história maravilhosa que a da virologia no Rio de Janeiro.

Para começar a discussão sobre virologia no Rio de Janeiro, é necessário, inicialmente, falar sobre o Brasil colônia, quando o Marques de Barbacena enviou a Portugal sete crianças não imunes para a varíola, para servir de transporte “humano” do vírus vacinal utilizado em Portugal, através da passagem do vírus de criança para criança até chegar ao Rio de Janeiro. Sim as crianças foram infectadas com o vírus que formava a vacina e trazidas ao Rio de Janeiro. Esse Marques de Barbacena não era muito legal. Entre 1886 e 1887, Dom Pedro II enviou à Paris o médico Augusto Ferreira dos Santos, para aprender as técnicas necessárias para a produção da vacina antirábica. Após aprender as técnicas, Augusto voltou ao Brasil e em 1888 se iniciou a vacinação contra o vírus da Raíva no Rio de Janeiro.

Voltando à varíola, mesmo com a vacinação, ocorreu uma epidemia na década de 1830, principalmente pela qualidade deficiente das vacinas. Em 1850 voltaram a ocorrer surtos, o que demonstra a fragilidade do sistema de vacinação da época. Nesse período se utilizava material coletado de humanos vacinados e não a vacina preparada em animais que era mais eficaz. Em 1887, mesmo com a vacina fabricada em animais, a varíola foi responsável por 47% dos óbitos na cidade do Rio de Janeiro superando a tuberculose.

No período de 1850 à 1902 ocorreram graves epidemias ou endêmicas de forma não controlada. Dentre elas, infecções causadas pelo vírus da febre amarela, sarampo e varíola. A grande quantidade de epidemias levou o presidente da república da época Rodrigues Alves a convocar o médico Oswaldo Cruz para implantar junto com o prefeito Pereira Passos uma grande reforma na cidade e utilizar métodos para eliminação de várias doenças infecciosas. Nessa época, os profissionais de saúde entravam nas residências sem pedir autorização formal dos moradores tratavam as casas com enxofre para controle de vetores (principalmente o nosso conhecido Aedes aegypti).

As metodologias utilizadas por Oswaldo Cruz foram eficientes para baixar as infecções causadas por diversos vírus. Mas agravava o descontentamento da população.

Em 1904, Oswaldo Cruz implantou a vacina obrigatória contra a varíola a qual permitia a vacinação contra a vontade da pessoa (ou seja, mais ou menos o que uma criança sente quando a mãe ou o pai a leva para se vacinar). Esse ato levou ao que hoje é conhecido como a “revolta da vacina”. A população, revoltada, começou a tomar as ruas levando à distúrbios no transito, comercio fechado, gritaria, tiros, veículos tombados e depredados, lampiões quebrados à pedradas, destruição de fachadas de edifícios públicos e privados, dentre outros (mais ou menos como ocorreu em 2013 no Rio de Janeiro e no Brasil). A “revolta da vacina” teve seu clímax em 13 de novembro de 1904 quando grandes movimentos de rua destruíram vários bens públicos e privados além de transportes urbanos. Além disso, estudantes da Escola Militar da Praia Vermelha, sob o comando de altos escalões do Exército insatisfeitos com o Presidente aderiram à esse movimento, mostrando o tom politico desse momento. Três dias depois a lei da vacinação obrigatória foi suspensa e, com isso, mesmo não sendo obrigatória a vacinação, se verificou uma rápida queda do número de casos de varíola e, por fim ocorreu a eliminação da doença na cidade maravilhosa.

Charge satirizando a atuação de Oswaldo Cruz (fonte: portal.fiocruz.br)

Charge satirizando a atuação de Oswaldo Cruz (fonte: portal.fiocruz.br)

 

Charge satirizando a atuação de Oswaldo Cruz (fonte: portal.fiocruz.br)

Charge satirizando a atuação de Oswaldo Cruz (fonte: portal.fiocruz.br)

Oswaldo Cruz e a revolta da vacina (fonte: http://chc.cienciahoje.uol.com.br/)

Oswaldo Cruz e a revolta da vacina (fonte: http://chc.cienciahoje.uol.com.br/)

Um fato interessante, é que mesmo não sendo a vacina obrigatória, se tornou obrigatório apresentar o atestado de vacinação para a matricula escolar e muitas outras atividades, o que ajudou a aumentar o número de pessoas vacinadas.

Em 1908, com o reconhecimento do trabalho de Oswaldo Cruz, o Presidente Afonso Pena renomeou o Instituto de Manguinhos como Instituto Oswaldo Cruz, que existe até hoje.

A transmissão da febre amarela pelo mosquito Aedes aegypti não era plenamente aceita, até que experiências em Cuba em 1900 e repetidas em São Paulo por Emilio Ribas, Adolpho Lutz, Oscar Moreira, Domingos Pereira Vaz, André Ramos e Januário Ferraz mostraram que haviam transmissão do vírus pelo mosquito. Entre 1902 e 1903 os médicos envolvidos na pesquisa e imigrantes italianos deixaram-se picar por mosquitos infectados com febre amarela para comprovar suas hipóteses. E assim, com a vacinação e a descoberta do mosquito como vetor da doença, em 1909 a febre amarela foi extinta do Rio de Janeiro. E com o controle do Aedes aegypti foi eliminado também os casos de Dengue (que voltou anos depois como já sabemos).

E a história continua. Logo, logo traremos a segunda parte desse grande post.

Abraços do Dotô.

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Schatzmayr HG, Cabral MC 2009. A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global. FIOCRUZ, Rio de Janeiro.