Dotô, sempre existiram vírus no Rio de Janeiro? (Parte 1)

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A história da virologia no Rio de Janeiro já vem há muito tempo, meu caro paciente. Vários vírus já passaram pela cidade maravilhosa e muita coisa foi pesquisada. Nesse post especial de 3 anos do Dotô, é virose, vamos discutir um pouco mais sobre a história da virologia no município do Rio de Janeiro. E essa história é tão longa que tivemos que dividir o post em várias partes. Com vocês o primeiro post dessa história maravilhosa que a da virologia no Rio de Janeiro.

Para começar a discussão sobre virologia no Rio de Janeiro, é necessário, inicialmente, falar sobre o Brasil colônia, quando o Marques de Barbacena enviou a Portugal sete crianças não imunes para a varíola, para servir de transporte “humano” do vírus vacinal utilizado em Portugal, através da passagem do vírus de criança para criança até chegar ao Rio de Janeiro. Sim as crianças foram infectadas com o vírus que formava a vacina e trazidas ao Rio de Janeiro. Esse Marques de Barbacena não era muito legal. Entre 1886 e 1887, Dom Pedro II enviou à Paris o médico Augusto Ferreira dos Santos, para aprender as técnicas necessárias para a produção da vacina antirábica. Após aprender as técnicas, Augusto voltou ao Brasil e em 1888 se iniciou a vacinação contra o vírus da Raíva no Rio de Janeiro.

Voltando à varíola, mesmo com a vacinação, ocorreu uma epidemia na década de 1830, principalmente pela qualidade deficiente das vacinas. Em 1850 voltaram a ocorrer surtos, o que demonstra a fragilidade do sistema de vacinação da época. Nesse período se utilizava material coletado de humanos vacinados e não a vacina preparada em animais que era mais eficaz. Em 1887, mesmo com a vacina fabricada em animais, a varíola foi responsável por 47% dos óbitos na cidade do Rio de Janeiro superando a tuberculose.

No período de 1850 à 1902 ocorreram graves epidemias ou endêmicas de forma não controlada. Dentre elas, infecções causadas pelo vírus da febre amarela, sarampo e varíola. A grande quantidade de epidemias levou o presidente da república da época Rodrigues Alves a convocar o médico Oswaldo Cruz para implantar junto com o prefeito Pereira Passos uma grande reforma na cidade e utilizar métodos para eliminação de várias doenças infecciosas. Nessa época, os profissionais de saúde entravam nas residências sem pedir autorização formal dos moradores tratavam as casas com enxofre para controle de vetores (principalmente o nosso conhecido Aedes aegypti).

As metodologias utilizadas por Oswaldo Cruz foram eficientes para baixar as infecções causadas por diversos vírus. Mas agravava o descontentamento da população.

Em 1904, Oswaldo Cruz implantou a vacina obrigatória contra a varíola a qual permitia a vacinação contra a vontade da pessoa (ou seja, mais ou menos o que uma criança sente quando a mãe ou o pai a leva para se vacinar). Esse ato levou ao que hoje é conhecido como a “revolta da vacina”. A população, revoltada, começou a tomar as ruas levando à distúrbios no transito, comercio fechado, gritaria, tiros, veículos tombados e depredados, lampiões quebrados à pedradas, destruição de fachadas de edifícios públicos e privados, dentre outros (mais ou menos como ocorreu em 2013 no Rio de Janeiro e no Brasil). A “revolta da vacina” teve seu clímax em 13 de novembro de 1904 quando grandes movimentos de rua destruíram vários bens públicos e privados além de transportes urbanos. Além disso, estudantes da Escola Militar da Praia Vermelha, sob o comando de altos escalões do Exército insatisfeitos com o Presidente aderiram à esse movimento, mostrando o tom politico desse momento. Três dias depois a lei da vacinação obrigatória foi suspensa e, com isso, mesmo não sendo obrigatória a vacinação, se verificou uma rápida queda do número de casos de varíola e, por fim ocorreu a eliminação da doença na cidade maravilhosa.

Charge satirizando a atuação de Oswaldo Cruz (fonte: portal.fiocruz.br)

Charge satirizando a atuação de Oswaldo Cruz (fonte: portal.fiocruz.br)

 

Charge satirizando a atuação de Oswaldo Cruz (fonte: portal.fiocruz.br)

Charge satirizando a atuação de Oswaldo Cruz (fonte: portal.fiocruz.br)

Oswaldo Cruz e a revolta da vacina (fonte: http://chc.cienciahoje.uol.com.br/)

Oswaldo Cruz e a revolta da vacina (fonte: http://chc.cienciahoje.uol.com.br/)

Um fato interessante, é que mesmo não sendo a vacina obrigatória, se tornou obrigatório apresentar o atestado de vacinação para a matricula escolar e muitas outras atividades, o que ajudou a aumentar o número de pessoas vacinadas.

Em 1908, com o reconhecimento do trabalho de Oswaldo Cruz, o Presidente Afonso Pena renomeou o Instituto de Manguinhos como Instituto Oswaldo Cruz, que existe até hoje.

A transmissão da febre amarela pelo mosquito Aedes aegypti não era plenamente aceita, até que experiências em Cuba em 1900 e repetidas em São Paulo por Emilio Ribas, Adolpho Lutz, Oscar Moreira, Domingos Pereira Vaz, André Ramos e Januário Ferraz mostraram que haviam transmissão do vírus pelo mosquito. Entre 1902 e 1903 os médicos envolvidos na pesquisa e imigrantes italianos deixaram-se picar por mosquitos infectados com febre amarela para comprovar suas hipóteses. E assim, com a vacinação e a descoberta do mosquito como vetor da doença, em 1909 a febre amarela foi extinta do Rio de Janeiro. E com o controle do Aedes aegypti foi eliminado também os casos de Dengue (que voltou anos depois como já sabemos).

E a história continua. Logo, logo traremos a segunda parte desse grande post.

Abraços do Dotô.

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Schatzmayr HG, Cabral MC 2009. A virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global. FIOCRUZ, Rio de Janeiro.