Dotô, é verdade que uma pessoa com HIV não pode engravidar?

gravidez HIV                                               Fonte: http://doutissima.com.br/

NÃO, isso não é verdade meu caro paciente. Acho que é melhor checar suas fontes. Mulheres portadoras do vírus HIV podem engravidar e seus filhos podem nascer sem o vírus. A algumas semanas, saiu uma reportagem sobre o caso de uma mãe HIV positiva que processou o hospital no qual fez o acompanhamento pré-natal e o parto e seu filho se infectou pela falta de tratamento adequado. (Tenta situar melhor a frase anterior). A matéria pode ser lida no seguinte link:

(http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/hospital-universitario-tera-que-pagar-indenizacao-por-transmissao-de-hiv-durante-parto-15885495)

É importante que todas as mulheres saibam que além de ser um direito garantido por lei, as grávidas soropositivas podem ter uma gestação normal, segura e com baixo risco de que seu bebê seja infectado pelo HIV, Mas essas mulheres devem ser acompanhadas por médicos e devem seguir todas as recomendações e medidas preventivas.

Mas Dotô, se não existe uma cura para o HIV, como é possível o bebê nascer sem o vírus?

Meu caro paciente, com o acompanhamento correto durante a gestação e o parto, seguindo todas as recomendações médicas, a possibilidade de transmissão do vírus da mãe para o filho é menor que 1%. O primeiro passo nesse processo se inicia durante o pré-natal. A testagem para HIV é recomendada logo no primeiro trimestre de gestação, mas o diagnóstico pode ser feito durante toda a gravidez ou até mesmo na hora do parto.

Para as gestantes HIV positivas, diagnosticadas antes ou durante a gravidez, as recomendações médicas são: uso de remédios antirretrovirais durante a gravidez, o parto cesáreo e não amamentar o bebê. As gestantes HIV positivos como qualquer outra grávida, devem ser acompanhadas durante a gestação, o parto e a amamentação.

Dotô, só a mãe que apresenta os sintomas de AIDS deve ser tratada durante a gravidez?

NÃO, as mães portadoras do HIV, com sintomas da AIDS ou não, devem receber a medicação antirretroviral durante a gravidez. Assim, ao fim da gestação uma avaliação médica deverá ser realizada. Dependendo do estado clínico da paciente, a medicação pode ser suspendida.

Dotô, e o bebê?

O recém-nascido precisa tomar a medicação na forma de xarope, preferencialmente, nas primeiras duas horas de vida e durante as seis semanas seguintes. A mãe não deve amamentar seu filho, pois o vírus pode estar presente no leite materno. O bebê deve ser acompanhado por médicos e exames periódicos devem ser realizados para ter certeza que não houve transmissão para a criança e para monitorar possíveis efeitos adversos relacionados à medicação antirretroviral. Além disso, a criança precisa fazer acompanhamento em serviço de referência para crianças expostas ao HIV.

É importante que fique claro o quão essencial é a realização do acompanhamento pré-natal durante toda a gestação. Além de HIV, existem diversas doenças virais que podem ser transmitidas da mãe para o filho durante a gestação, no parto e na amamentação. Por isso é imprescindível fazer o acompanhamento com um especialista e realizar todos os testes para detecção desses agentes. Com isso, podemos garantir a saúde da futura mamãe e do seu bebê.

GLOSSÁRIO:

Portadoras do vírus HIV– indivíduos infectados pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV).

Acompanhamento pré-natal – é a assistência na área da enfermagem e da medicina prestada à gestante durante os nove meses de gravidez.

Soropositivas – indivíduos infectados pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV).

Antirretrovirais – são fármacos usados para o tratamento de infecções por retrovírus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

http://www.aids.gov.br/

http://aidsinfo.nih.gov/guidelines

FARIA, Evelise Rigoni et al . Gestação e HIV: Preditores da Adesão ao Tratamento no Contexto do Pré-natal. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, v. 30, n. 2, p. 197-203, June 2014.

MARTIN-CHABOT, Béatrice. Mulheres HIV-positivas e grávidas: dificuldades dentro do casal. Experiência numa associação parisiense. Ágora (Rio J.), Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 121-130, June 2010.

SOUZA JUNIOR, Paulo Roberto Borges de et al. Infecção pelo HIV durante a gestação: estudo-Sentinela Parturiente, Brasil, 2002. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 38, n. 6, p. 764-772, Dec. 2004 .

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte (Dotô, é virose?)

Dotô, que “virose” é essa? Vaca louca e febre aftosa são a mesma coisa?

aftosa

Bem meu caro paciente, essa é uma dúvida bem comum. As duas doenças não são causadas pelo mesmo agente infeccioso. A doença da vaca louca se desenvolve a partir de uma proteína animal conhecida como príon, que interage com o DNA do animal doente, causando uma série de distúrbios no sistema nervoso, como perda de equilíbrio e fúria. Já a febre aftosa é sim uma doença viral altamente contagiosa causada pelo vírus da febre aftosa, membro da família Picornaviridae, gênero Aphtovirus. No Brasil sua primeira descrição dessa doença foi feita em 1895.

Afinal de contas o que é febre aftosa?

A febre aftosa é uma doença contagiosa, de evolução aguda, que afeta os animais biungulados (animais de casco fendido) domésticos e selvagens, como por exemplo: bovinos, ovinos, caprinos e suínos. O animal infectado elimina o vírus por todas as secreções e excreções (saliva, sêmen, leite, urina e fezes), contaminando o meio ambiente. As cargas virais mais altas se encontram no líquido das vesículas e no epitélio das lesões. Os produtos derivados de animais infectados também podem estar contaminados. De acordo com o processamento, os produtos ou subprodutos são considerados de maior ou menor risco de infecção.

Dotô, existe febre aftosa em humanos?

Casos humanos de febre aftosa são extremamente raros, alguns poucos registros foram feitos na Europa em 1966. Fato comprovado pelo reduzido número de casos humanos descritos no mundo, mesmo diante das frequentes oportunidades de exposição ao agente, a ampla distribuição geográfica e a alta incidência da enfermidade nos animais de produção. A Febre Aftosa é uma doença de curta duração e os efeitos gerais da doença são similares às da gripe com a presença de aftas. Existem várias doenças humanas com sintomas semelhantes que não têm nenhuma relação com a Febre Aftosa.

A transmissão para o homem pode ocorrer através do contato com animais infectados por lesões mínimas, como, por exemplo: arranhões e erosões da pele, pelos quais o vírus penetra no organismo ou, ainda, pela ingestão de leite não pasteurizado. A contaminação humana devido à ingestão de derivados de carnes não foi comprovada. A transmissão entre seres humanos também não foi descrita até o momento.

Então porque existe tanta preocupação com uma doença que não afeta os humanos?

A doença em animais não tem implicações para a cadeia alimentar humana, mas mesmo assim seu impacto econômico é muito expressivo. A ocorrência da doença afeta diretamente o mercado de produtos de origem animal. Devido a alta transmissibilidade do vírus e à possibilidade de sua veiculação por grandes distâncias e períodos de tempo, os países estabelecem fortes barreiras à entrada de produtos das regiões onde ocorreram casos da doença. Estas barreiras têm um efeito destrutivo nos pecuaristas e na economia da região ou até de um país inteiro, mexendo com a estabilidade do país desestabilizando o preço dos alimentos. Isso afeta diretamente você e eu meu paciente, mais precisamente o nosso bolso. Apesar da “pequena” importância para saúde humana o impacto econômico da febre aftosa é de preocupação mundial.

A identificação da infecção pelo vírus já é considerada um foco da doença, independente da apresentação de sinais clínicos pelos animais, impedindo a comercialização de produtos e subprodutos de origem de animais susceptíveis para zonas e países livres da doença.

Dotô, essa doença tem cura?

Não existe cura para a doença, mas a febre aftosa é uma doença febril aguda autolimitante e nem sempre fatal. O vírus ataca a boca, língua, estômago, intestino, pele em torno das unhas dos animais. No início ocorrem, febre com pápulas, que se transformam em pústulas, depois em vesículas, que se rompem e dão aftas na língua, lábios, gengivas e entre os cascos. Em consequência desse fato, o animal baba muito e tem dificuldade de se alimentar. Devido às lesões entre os cascos, o animal tem dificuldade de se locomover. Sendo assim, estas sequelas estão presentes na maioria dos animais sobreviventes.

Apesar de não haver cura, existe a prevenção através do emprego da vacina de uso veterinário. Em nosso país, o processo mais aconselhável é a vacinação periódica dos rebanhos, assim como a vacinação de todos os bovinos antes de qualquer viagem. Em geral a vacina contra a febre aftosa é aplicada de 6 em 6 meses, a partir do 3º mês de idade do animal.

Então … sem confusões na próxima vez “virose” de verdade é a febre aftosa!

GLOSSÁRIO

Príon – é um agente infeccioso composto por proteínas

Pápulas – é uma elevação circunscrita da pele, de consistência sólida, na maioria dos casos com menos de 1 cm de diâmetro

Pústulas – são elevações circunscritas da pele repletas de pus

REFERÊNCIA

Lyra, T.M.P., & Silva, J.A.. (2004). A febre aftosa no Brasil, 1960-2002. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, 56(5), 565-576.

Polaquini, Luciano Eduardo Morello, Souza, José Gilberto de, & Gebara, José Jorge. (2006). Transformações técnico-podutivas e comerciais na pecuária de corte brasileira a partir da década de 90.

Riet-Correa, Franklin, Moojen, Valéria, Roehe, Paulo Michel, & Weiblen, Rudi. (1996). Viroses confundíveis com febre aftosa. Ciência Rural, 26(2), 323-332.

http://www.agricultura.gov.br/febreaftosa