Dotô é verdade que somos formados por microrganismos?

É verdade sim meu caro paciente. Nas últimas semanas tem sido veiculado em algumas mídias que cientistas descobriram o fato de parte do nosso código genético ser formado por bactérias, fungos, protozoários e vírus. Esses genes não apenas fazem parte do nosso código genético, como também são responsáveis por vários papéis importantes na formação do individuo e de seu metabolismo.

Mas como os cientistas chegaram a essa conclusão?

Como nós sabemos, animais da mesma espécie transferem o DNA para seus filhos (geralmente metade sendo da mãe e metade do pai, tirando algumas exceções), esse processo é conhecido como transferência vertical de genes (de pai para filho). Em vários microrganismos pode ocorrer o processo chamado de transferência horizontal de genes (HGT), processo no qual determinados seres vivos podem passar seus genes para outros individuos que estejam no mesmo ambiente. Esse processo é interessante, pois permite aos microorganismos adquirir genes que os tornam resistentes aos antibióticos ou que são capazes de trazer outras vantagens, de forma rápida. Em laboratório, esse processo é bastante importante, pois nos possibilita realizar a clonagem de genes. Então, o processo de HGT é bastante conhecido e desempenha um papel importante na evolução de microrganismos, sendo que 81% dos genes de individuos procarióticos parecem estar envolvidos com HGT em algum momento da evolução.

Além de microorganismos, o HGT também foi encontrado em animais mais simples que os humanos como a transferência de genes de: fungos para o piolho-da-ervilha e bactérias para insetos. Mas até o momento não se conhecia o HGT sendo transferido para animais superiores.

Para tirar essa dúvida, cientistas da Universidade de Cambridge, na Inglaterra analisaram o DNA de diferentes animais, como: moscas da fruta, nematoides, primatas não humanos e humanos. Se eles encontrassem alta similaridade de sequencia entre genes destes organismos e de outras espécies bem distantes evolutivamente, poderia indicar que esses genes, originalmente, não eram desses organismos.

E qual foi o resultado?

Os pesquisadores concluíram que o processo de transferência horizontal de genes acontece nos animais superiores, porém, de maneira discreta, onde boa parte dos genes parece estar envolvido no metabolismo. Nos seres humanos, por exemplo, foram encontrados vários genes relacionados ao HGT que desempenham uma variedade de funções como quebrar ácidos graxos ou ajudar as respostas anti-inflamatórias ou antimicrobianas. Além disso, foram encontrados genes que tem relação com o sistema ABO (origem bacteriana) e com a produção de ácido hialurônico (origem fúngica). Foram encontrados pelo menos 145 genes de outras espécies, totalizando menos de 1% dos genes encontrados em humanos, mas ainda assim um resultado bastante curioso. A maioria dos genes encontrados em humanos e identificados no estudo tem origem bacteriana e de protozoários, sendo encontrados ainda genes de fungos e vírus.

Mas esse blog não fala sobre vírus? Que genes foram encontrados que tinham relação com vírus?

Foram encontrados genes (potencialmente transmitidos por HGT) de vírus em moscas (Drosophila sp.) e em vermes (Caenorhabditis), além disso, foram encontrados mais de 50 genes de origem viral em primatas. Mas, não se sabe se a transferência ocorreu de vírus para primatas ou de primatas para vírus, deixando uma dúvida no ar.

É só isso que você vai falar sobre vírus? Continuo a perguntar, esse blog não fala sobre vírus? Estou achando que tem a mão dos comunistas do PT.

Ahhhn, PT? Esse blog não tem haver com o governo (ainda, esperem até o ano que vem) e nem com passeata nenhuma de: Fora Dilma!!!! ou Fora elite coxinha!!!! Na verdade, a parte mais interessante desse post foi deixado para o final. O HGT não é a única maneira de transferência de genes. Existe outra maneira simples e que faz parte do ciclo de vida de determinados vírus, os retrovírus endógenos (também chamados de HERVs).

Os HERVs são vírus humanos que fazem parte dos grupos dos retrovírus junto com o vírus da AIDS e do HTLV. O código genético dos retrovírus tem, como parte do seu ciclo de vida, a habilidade de se integrar ao DNA celular (passando a se chamar partícula proviral). Agora pense comigo, meu caro paciente. Temos dois tipos de células em nosso corpo, células somáticas (células que não estão envolvidas na reprodução) e células germinativas (ou reprodutivas). Se o vírus infectar as células somáticas, essas células não são transmitidas para a descendência do hospedeiro, pois não estão envolvidas na reprodução (esses vírus são chamados de retrovírus exógenos). Mas e se determinado retrovírus infectar as células germinativas? E se essa célula germinativa (como um espermatozoide, por exemplo) se encontrar com a célula germinativa de outro individuo (como o óvulo, por exemplo) e elas formarem outro individuo? Se isso ocorrer, o retrovírus vai ser transmitido de uma geração para outra (ou seja, transmissão vertical).

Agora, digamos que essa partícula proviral nunca se liberte do DNA celular e não se replique como um vírus? O que temos? Um grupo de genes virais integrados ao DNA do individuo que pode ser passado de pai para filho. É o que acontece com os HERVs. Uma boa parte do nosso genoma é formado por HERVs que não formam partículas virais e fazem parte essencial do nosso DNA. Ou seja, nós somos formados por vírus, nós somos parte vírus também.

Parece ficção cientifica, não parece? Mas é verdade. Há anos vários pesquisadores têm encontrados códigos genéticos inteiros de HERVs integrado ao nosso DNA. E, mais do que isso, conseguiram fazer esse código genético formar proteínas e, consequentemente, formar partículas virais completas que podem se reproduzir normalmente como qualquer outro vírus. Demonstrando que o código genético dos HERVs ainda pode formar novos vírus infectantes. Mas não se desespere, pois se isso não acontece por centenas de milhares de anos de evolução, não deve acontecer agora não é mesmo?

Mas parece que alguns HERVs podem ter efeitos negativos no hospedeiro quando ocorrem circunstâncias incomuns. Estudos demonstraram que os retrovírus endógenos mais jovens (ou seja, integrados ao DNA do hospedeiro a pouco tempo na escala evolutiva) podem estar associados com doenças em gatos, coalas e pássaros. Já foi proposto que os HERVs podem estar envolvidos com esclerose múltipla e esquizofrenia em humanos.

O mais interessante é que esses vírus (até agora já foram descobertos mais de 100 tipos) estão relacionados com a produção de várias proteínas importantes evolutivamente para a formação dos animais e dos seres vivos. Só para se ter uma ideia, já se sabe que sequencias dos vírus HERVs podem estar associados com a formação das células multicelulares, ou seja, se não fossem eles, não existiriam toda a diversidade de seres vivos que existem hoje, só teriam os microrganismos unicelulares. Eles também estão associados com a formação de placenta na reprodução de mamíferos, então imaginem vocês que sem os HERVs não existiriam mamíferos. Por fim, eles estão associados à formação dos olhos e a cada novo estudo vão sendo encontradas novas associações de HERVs com o metabolismo e constituição dos seres vivos.

Viram só? Os microrganismos e, principalmente, os vírus são parte integrante do nosso DNA e sem eles a humanidade e todos os seres vivos não seriam o que são hoje. A evolução, como dita por Darwin, não teria saído do papel (na verdade, não teria como ter saído do papel mesmo, pois não teria nenhum humano para descrever a teoria da evolução).

Então, quando você estiver pensando que os vírus só fazem mal para humanidade, lembre-se que uma parte bastante importante de você é formado por vírus (e por outros microrganismos) e que sem eles, sua vida não existiria.

 

GLOSSÁRIO:

Clonagem de genes: Também chamado de clonagem molecular. Processo de engenharia genética utilizado em biotecnologia em que se cria cópias de fragmentos de DNA em microorganismos para formar múltiplas cópias da proteína alvo.

Procarióticos: Também chamados de procariontes ou procariotas. Individuos unicelulares que não possuem membrana delimitando suas organelas. São constituídos por Bactérias e Arqueobactérias.

Sistema ABO:  Grupo sanguíneo classificado pela presença ou ausência de aglutinação dos glóbulos vermelhos (hemácias). Essa aglutinação ocorre pela reação de anticorpos específicos à antígenos encontrados na superfície das hemácias. Os grupos se dividem em : A (presença de antígeno do tipo A), B (presença de antígeno do tipo B), AB (presença do antígeno A + presença do antígeno B) e tipo O (ausência de antígenos A e B).

Ácido hialurônico: Substância existente no líquido sinovial, humor vítreo e no tecido conjuntivo. Importante na articulação, hidratação e elasticidade da pele, responsável pela forma dos olhos dentre outros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Microbiology World. Humans are all a bit genetically modified. Disponível em: http://microbiologyworld.com/humans-are-all-a-bit-genetically-modified/. Acessado em 20/03/2015

ERV. Disponível em: http://endogenousretrovirus.blogspot.com.br/2006/09/more-syncytia-sweetness.html. Acessado em 20/03/2015

Ryan, F. Virolution. Editora: Harper Collins Publishers. 2009

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Dotô, me falaram que a Africa está livre do ebola, é verdade?

Por enquanto não, caro paciente. Mas, temos novidades vindas da África Ocidental. A Libéria, por enquanto, parece estar no caminho para se livrar definitivamente do ebola. Até o dia 8 de março a Libéria não notificou novos casos por duas semanas consecutivas. Isso é um avanço, principalmente em um país que vem sofrendo com essa epidemia de ebola há tanto tempo (os primeiros casos na África Ocidental começaram a ser notificados em março de 2014). Mas, como os vírus são imprevisíveis, tudo pode acontecer. A Organização Mundial de Saúde (OMS) só dará o veredicto de que a África estará livre do ebola quando os três países estiverem livres da doença. É necessário prestar atenção, também, pois a movimentação de pessoas nessa região pode causar mais surtos na Libéria. Nesse gráfico podemos observar todos os casos confirmados (em azul) e os locais em que continuam a ocorrer casos nas últimas semanas (bolas amarelas). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), Guiné e Serra Leoa continuam tendo casos até hoje, mas há uma tendência à queda no aparecimento de novos casos.   ebola março nova   Distribuição de casos confirmados de ebola na África Ocidental: totais e novos. Fonte: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/155082/1/roadmapsitrep_11March2015_eng.pdf?ua=1&ua=1. Desde o início do surto em 2014, foram notificados 24.282 casos (incluindo casos suspeitos, prováveis e confirmados), com 9.976 mortes. Na semana de 8 de março, foram confirmados somente 116 casos novos de Ebola, 58 em Serra Leoa e 58 em Guiné. Mas e a vacina Dotô, quando estará disponível para a população? Em fevereiro de 2015, a OMS aprovou duas vacinas para serem testadas em voluntários na África Ocidental. Uma das vacinas foi desenvolvida pelo Instituto Nacional de Saúde (NIH) em parceria com a GlaxoSmithKline (GSK). A outra vacina foi desenvolvida pela empresa de biotecnologia NewLink Genetics em parceria com a Merck. Os ensaios clínicos que começaram na Libéria conseguiram realizar a primeira fase de testes, responsável por avaliar a segurança da vacina. Porém, não puderam continuar, pois não ocorreram novos casos nas duas últimas semanas naquela região. Segundo o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), “Precisamos ter certeza de que escolhemos uma população que ainda está em risco de infecção pelo vírus Ebola para que possamos mostrar o efeito protetor de uma ou de ambas as vacinas.” Por esse motivo, os estudos foram transferidos para Guiné e começaram dia 07 de março. O receio para o desenvolvimento dos testes clínicos da vacina é que a epidemia possa acabar, e os ensaios tenham que ser interrompidos. Aguardemos as próximas notícias! Mas e outras alternativas, Dotô? Existe algum tratamento sendo testado? Outro tratamento, utilizando RNA de interferência (RNAi), também começou a ser testado em humanos, em Serra Leoa. Produzido pela empresa canadense Tekmira Pharmaceuticals e chamado de TKM-Ebola, consiste em RNAi sintéticos recobertos por nanopartículas lipídicas, que possuem a capacidade de bloquear a replicação do vírus. O TKM-Ebola funcionou em macacos e seus ensaios de eficácia ainda estão começando também. Outra terapia alternativa para tratamento é o ZMapp, desenvolvido pela Mapp Biopharmaceutical Inc, que usa três anticorpos monoclonais humanizados diferentes, produzidos contra uma glicoproteína de superfície do vírus Ebola Zaire em plantas de tabaco (Nicotiana benthamiana) para combater a doença. Os ensaios clínicos começaram a ser testados em adultos e crianças infectadas na Libéria no final de fevereiro. O ensaio clínico está disponível na internet em: https://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT02363322 Vale a pena lembrar que o ZMapp já havia sido testado em dois profissionais de saúde norte-americanos infectados, porém os ensaios clínicos só tinham sido feitos em primatas. Você lembra do Kent Brantly e  Nancy Writebol, que foram tratados e sobreviveram? O artigo sobre esses dois casos até foi publicado em uma revista inglesa, chamada The New England Journal of Medicine, mas o próprio autor afirma que não há como concluir o quanto ou se o ZMapp influenciou na sua sobrevivência, pois não houve um controle no estudo. Agora, com a possibilidade do início do estudo em humanos em um ensaio randomizado e com grupos controles, poderemos realmente ver a eficácia e segurança do uso do ZMapp nos indivíduos infectados. Um profissional de saúde voluntário que se infectou em Serra Leoa foi transferido para o NIH para ser tratado. Além dele, outros dez profissionais de saúde estão sob suspeita e também foram enviados para o NIH, por entrarem em contato com o profissional infectado. Agora que os ensaios clínicos se iniciaram, o profissional infectado poderia ser incluído, caso estivesse dentro dos critérios de inclusão, nos ensaios clínicos do ZMapp. Será? Aguardem as cenas do próximo capítulo!

GLOSSÁRIO:

Instituto Nacional de Saúde (NIH) : Agência de pesquisa médica nacional, que inclui 27 Institutos e Centros e faz parte do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. É a principal agência federal que conduz e apoia a pesquisa médica básica, clínica e translacional, além de investigar as causas, tratamentos e curas para doenças raras e comuns.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

National Institutes of Health. Liberia-U.S. clinical research partnership opens trial to test Ebola treatments. Disponível em: http://www.nih.gov/news/health/feb2015/niaid-27.htm. Acessado em 15/03/2015 National Institutes of Health. Ebola Vaccine Trial Opens in Liberia. Disponível em: http://www.nih.gov/news/health/feb2015/niaid-02.htm. Acessado em 15/03/2015 Word Health Organization. Ebola Situation Report – 11 March 2015. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/155082/1/roadmapsitrep_11March2015_eng.pdf?ua=1&ua=1. Acessado em 15/03/2015 Time. Lack of Ebola Cases Shifts Vaccine Trials Away From Liberia. Disponível em: http://time.com/3743945/ebola-vaccine-trials/. Acessado em 15/03/2015. The New England Journal of Medicine. Clinical Care of Two Patients with Ebola Virus Disease in the United States. Disponível em: http://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMoa1409838. Acessado em 16/03/2015. Link de vídeo para a reflexão sobre o ebola, falando sobre as pessoas que lutam no combate ao ebola e a realidade vivenciada pela população, um exemplo para nós. O vídeo está em inglês: Lutadores contra o ebola na África Ocidental

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Dotô é verdade que podemos pegar febre amarela no Rio de Janeiro?

IslBG

Haemagogus leucocelaenus, um dos mosquitos responsáveis pela transmissão da febre amarela silvestre (Extraído de: www.fiocruz.br)

            Isso é mentira, meu caro paciente. “Ox cariocax podem ficar dexpreocupadox”. Até o momento não foi encontrado nenhum caso de febre amarela no Rio de Janeiro. Na verdade, o que ocorreu há pouco tempo foi um caso isolado de um turista Grego que veio ao Brasil e se infectou em uma comunidade rural na cidade de Alto paraíso em Goiás. Após sair de Alto paraíso, o turista foi passar um tempo na cidade maravilhosa, aonde foi diagnosticado com febre amarela silvestre e teve alta. O maior problema foi que o turista Grego não foi vacinado contra a febre amarela, como deve ser feito quando você for viajar uma área de risco.

Mas Dotô, como ocorrem os casos de febre amarela?

            A febre amarela, de forma geral, se assemelha com a dengue, sendo transmitida por picadas de mosquitos da família Culicidae, principalmente os mosquitos dos gêneros Haemagogus, Sabethes e Aedes (sim, aquele mesmo mosquito que transmite o vírus da dengue). É uma doença infecciosa febril aguda, que age rapidamente, podendo causar febre, dor de cabeça, dor nos músculos (mialgia), mal-estar e dor nas costas, podendo chegar a causar, nas formas mais graves, os sintomas anteriores, além de vômitos hemorrágicos, dor epigástrica, dor muscular intensa, febre elevada (acima de 40ºC), icterícia (leva à uma coloração amarelada da pele, por isso que a doença é chamada de “febre amarela”, oligúria (urina escura) e hemorragia de múltiplos órgãos que pode levar à morte em uma semana, se a infecção não for tratada adequadamente.

E porque ela só é encontrada em algumas áreas do Brasil e em outras não?

            Para entender isso, é necessário entender um pouso sobre a epidemiologia da doença.

            O ciclo do vírus que causa Febre amarela, aqui na América latina é divido em ciclo silvestre e ciclo urbano. A febre amarela silvestre é muito comum em macacos encontrados em áreas silvestres, como florestas ou regiões de mata à beira dos rios. Geralmente, nessa região, mosquitos do gênero Haemagogus ou Sabethes são encontrados e picam os macacos. Dentro dos macacos ocorre a multiplicação dos vírus e quando outro mosquito se alimenta desse macaco infectado ele se torna capaz de transmitir o vírus para outros macacos. Normalmente, o homem não participa desse ciclo, mas com a derrubada da vegetação e a maior proximidade do homem com o ambiente silvestre, o mosquito pode acabar picando o homem. Nesse caso, o homem se torna o hospedeiro acidental do vírus. Já no ciclo urbano (que atualmente não ocorre no Brasil, mas é encontrado em outros países), esse hospedeiro acidental deixa a área silvestre a vai até a área urbana onde pode ser picado pelos mosquitos do gênero Aedes, que também transmite o vírus da dengue.

            Segundo informações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o único ciclo encontrado atualmente no Brasil é o ciclo silvestre, encontrado em regiões de matas perto de rios de todos os estados da Região Norte e Centro-Oeste, alguns estados do Nordeste (Maranhão, Sudoeste do Piauí, Oeste e extremo sul da Bahia), algumas localizações no Sudeste (Minas Gerais, Oeste de São Paulo e Norte do Espírito Santo) e Região Sul (Oeste do Paraná, Santa Catarina e Rio grande do Sul). Como o estado do Rio de Janeiro não é uma área de risco, até o momento não foi visto nenhum caso de Febre amarela em terras cariocas.

Mas e a vacinação para Febre amarela? É para todos?

            Todos podem se vacinar contra a febre amarela, mas a vacina é indicada apenas para residenres em área com recomendação da vacina ou viajantes para essa área. Segue abaixo as últimas recomendações de vacinação contra a febre amarela no Brasil:

  • Crianças de 9 meses até 4 anos 11 meses e 29 dias de idade: Administrar 1 dose aos 9 meses de idade e 1 dose de reforço aos 4 anos de idade, com intervalo mínimo de 30 dias entre as doses.
  • Pessoas a partir de 5 anos de idade, que receberam uma dose da vacina antes de completar 5 anos de idade: Administrar uma única dose de reforço, com intervalo mínimo de 30 dias entre as doses.
  • Pessoas a partir de 5 anos de idade, que nunca foram vacinadas ou sem comprovante de vacinação: Administrar a primeira dose da vacina e 1 dose de reforço, 10 anos após a administração dessa dose.
  • Pessoas a partir de 5 anos de idade que receberam 2 doses da vacina: Considerar vacinado. Não administrar nenhuma dose.
  • Pessoas acima de 60 anos, que nunca foram vacinadas ou sem comprovante de vacinação: O médico deverá avaliar o beneficio/risco da doença nessa faixa etária.
  • Gestantes (independente se foi vacinada ou não): A vacinação é contraindicada.
  • Mulheres que estejam amamentando crianças com até 6 meses de idade (independente do estado vacinal): Vacinação contra indicada, devendo ser adiada até a criança completar 6 meses de idade.
  • Viajantes dentro do Brasil em áreas de risco: Vacinar pelo menos 10 dias antes da viagem (apenas se for a primeira dose).

            Além disso, se você for viajar para fora do Brasil, tente descobrir se é necessário vacinar contra a Febre amarela, pois alguns países da América do Sul, América Central e África pedem que os visitantes estejam vacinados para poderem entrar nesses países.

            Então meu caro paciente, carioca ou de qualquer região do Brasil. A vacinação contra a Febre amarela é extremamente necessária de acordo com a região que você pretende viajar. Procure saber e se vacinar sempre que possível e necessário. O Dotô espera que você faça a sua parte.

Glossário

Epidemiologia – Disciplina que estuda a distribuição dos fenômenos de saúde/doença (seja transmitida por quaisquer organismos infecciosos ou não) e seus fatores na população humana.

Hospedeiro acidental – Hospedeiro que obrigatoriamente não faz parte da cadeia de transmissão e que, geralmente, não transmite o agente infecioso para outros animais.

Referência

Links:

Livros:

  • Santos NSO, Romanos MTVR, Wigg MD. Introdução a Virologia Humana. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2008.
  • Knipe DM, Howley PM, Griffin DE, Lamb RA, Martin MA, Roizman B, et al. Fields’ Virology: Lippincott Williams & Wilkins; 2007. 

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Dotô ainda existem vírus desconhecidos?

Imagem virus Doto eh virose

Vírus Bourbon. Fonte:http://dx.doi.org/10.3201/eid2105.150150

Sim, existem mais vírus entre o céu e a terra que julga a nossa vã filosofia, meu caro paciente. Acredita-se que os vírus são as “entidades” biológicas em maior número no planeta Terra, sendo que a maioria permanece desconhecida.

Mas então, como se descobre um novo vírus Dotô?

Bem, são muitas as formas de estudos para a detecção e descoberta de novos vírus. Muitos grupos de dotôres tem como linha de pesquisa a procura por novos grupos de vírus nos mais diferentes tipos de amostras: água salgada e doce, insetos, fezes, fosseis, entre outros. Ainda existe outra forma, a qual a maioria dos vírus que causam doença no homem são detectados, que é através do diagnóstico laboratorial, ou seja, pela pesquisa do agente causador da doença.

É mesmo Dotô, existem casos de novos vírus causando doenças em humanos?

Sim, prova disso foi um novo vírus detectado em um caso fatal no Kansas que ocorreu no ano de 2014 nos Estados Unidos. O homem de, aproximadamente, 50 anos de idade, apresentava sintomas inespecíficos (fraqueza, diarreia, febre, …) e o que chamava atenção era o histórico de diversas picadas de carrapatos, foi internado e morreu dias depois. A suspeita inicial foi de bactérias causadoras de doenças humanas que tem como forma de transmissão a picada de carrapatos (rickettsioses ). Os exames laboratoriais não confirmaram a suspeita médica e o caso continuou a ser investigado em laboratórios americanos especializados em doenças transmitidas por artrópodes .

Meses de análises levaram os dotôres americanos à identificação de um novo vírus que pertence à mesma família do vírus Influenza. O vírus recebeu o nome de vírus Bourbon, por ser o mesmo nome do local onde o paciente vivia (condado de Bourbon). Assim como esse vírus, outros vírus da família Orthomyxoviridae, os thogotovírus, foram associados a carrapatos, mas a maioria sem descrição de infecção em humanos.

Apesar de ser o primeiro caso diagnosticado, esse pode não ser o único caso de infecção pelo vírus Bourbon. Agora com o reconhecimento e caracterização do vírus, novos casos poderão ser investigados resultando em um maior conhecimento sobre o agente e a doença. Esse é um exemplo atual meus pacientes, mas como esses, diversos outros vírus e doenças já foram descobertos e muitos mais estão por vir. O Dotô continua de olho!

Glossário

Artrópodes – são um filo de animais invertebrados, que possuem exoesqueleto rígido e vários pares de apêndices articulados, cujo número varia de acordo com a classe.

Rickettsioses – são bactérias gram-negativas intracelulares obrigatórias que são transmitidas ao homem através da picada de artrópodes.

Referência

Kosoy OI, Lambert AJ, Hawkinson DJ, Pastula DM, Goldsmith CS, Hunt DC, et al. Novel Thogotovirus species associated with febrile illness and death, United States, 2014. Emerg Infect Dis. 2015 May [date cited].http://dx.doi.org/10.3201/eid2105.150150

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