Dotô, os vírus são os menores microorganismos conhecidos?

Isso era o que nós, Dotôres de elite, achávamos há bem pouco tempo meu caro. Mas, como as pesquisas não param, nos últimos tempos foram descobertos grupos de vírus que podem ser considerados maiores do que as menores bactérias e, alguns destes, conseguem ser visualizados no microscópio ótico podendo até serem confundidos com bactérias.

      Essa historia de que os vírus não são tão pequenos como se imaginava começou a mudar em 1992, com a descoberta de um vírus chamado Mimívirus, um vírus que infecta as Acanthamoebas. Só para lembrar aos pacientes, os vírus podem ser encontrados em qualquer lugar do mundo, infectando qualquer ser vivo, dentre eles cachorros, bactérias, moscas, aquele cantor de sertanejo chato, o Dráuzio Varella e até outros vírus. O Mimívirus não deixa de ser diferente, além de infectar as Acanthamoebas, são vírus encontrados em sistemas de ar condicionado e podem ser a causa de várias pneumonias pelo mundo afora em que não se consegue encontrar o microorganismo causador. Inicialmente, esses vírus eram considerados bactéria, pois conseguiam ser visualizados em microscópio ótico. Um fato bastante interessante é que inicialmente se tentou fazer uma coloração de Gram, técnica que se utiliza para diferenciar as bactérias, sendo classificado como uma bactéria gram-positiva de um novo grupo bacteriano chamado de “Bradfordcoccus”, devido ao distrito de Bradford na Inglaterra onde foi recolhida a Acanthamoeba. Dez anos depois (em 2003) foi publicado um artigo, identificando esse microrganismo como um vírus. Além do tamanho, esse microrganismo foi classificado como bactéria, pois sua complexidade genética era bastante alta, além de ter a capacidade de produzir proteínas pelos seus próprios meios e reparar seu próprio genoma, propriedades nunca vistas em outros vírus. A partir da descoberta do mimivírus, outros vírus tão grandes quanto (ou maiores) foram aparecendo, sendo classificados na família dos vírus gigantes Megaviridae. Esses vírus são encontrados geralmente em corpos de água no ambiente e em sedimentos associados no mundo todo (onde se encontram Acanthamoebas).

Mas, Dotô, porque os mimivírus são tão diferentes e tem essa alta complexidade genética?

      Que bom que você perguntou meu caro paciente. Inicialmente, se imaginou que os mimivírus podem ter adquiridos alguns genes de seu hospedeiro celular. Tá, até aí tudo bem, mas com o aumento dos estudos desses microorganismos, se descobriu que os genes dos mimivírus são diferentes dos seus hospedeiros e outras células. Então, aparece uma hipótese que dizia que os mimivírus descenderam de uma célula de vida livre que gradualmente perdeu a maior parte de seus outros genes ao ir se transformando em um indivíduo que parasita outros organismos. Essa hipótese sugere que o mimivírus precursor representa um desconhecido ramo da vida que existiu no passado da Terra. E que esse ramo se transformou nos mimivírus.

      Hipótese interessante, não acham? Imagina se os vírus se originaram de outros seres vivos. Será que é verdade?

      Na verdade essa hipótese foi embalada com a descoberta nesse ano (2013) de um grupo de vírus maiores do que os Megavírus descobertos anteriormente. Esses vírus foram isolados da camada de sedimentos marinhos da costa central do Chile (esse vírus passou a ser chamado de Pandoravirus salinus) e da lama do fundo de um lago perto de Melbourne na Austrália (vírus Pandoravirus dulcis). São vírus extremamente grandes e que não apresentam similaridade com nenhum microrganismo descrito anteriormente. Por isso foram classificados no gênero “Pandoravirus” da família Megaviridae. Esses vírus, dentre suas características únicas, não possuem o gene responsável pela produção da proteína do capsídeo, que, normalmente forma uma cápsula em volta dos vírus, os protegendo. Ao se fazer o sequenciamento genético desses vírus, se descobriu que 93% dos genes dos Pandoravírus não parece com nada conhecido até o momento, sua origem não pode ser ligada à qualquer linhagem celular conhecida, o que sugere ainda mais a existência de um quarto domínio da vida desconhecido até o momento. Sabe aquela história que conversamos acima sobre os mimivírus terem vindo de um ramo da vida desconhecido até o momento? Então, os Pandoravírus apareceram para trazer mais um ponto a favor dessa hipótese.

     Então fica a dúvida. Será que existiu um domínio dos seres vivos que foi simplificando, perdendo seus genes e se transformando no que conhecemos hoje em dia como vírus? Será que os vírus não são apenas outro domínio da vida? Será que existe algum indivíduo desse domínio escondido pelas curvas do mundo? Será?Será? São tantas dúvidas que o Dotô vai até descansar um pouco porque ficou com dor de cabeça.

GLOSSÁRIO:

Microscópio ótico: Instrumento usado para ampliar estruturas pequenas à partir do olho nu. Sua ampliação não é capaz de visualizar vírus, exceto os vírus da família Megaviridae.

Acanthamoebas: Gênero de protozoários ameboides encontrados no solo e, frequentemente, em água doce. Muitas espécies são de vida livre, mas algumas podem infectar o homem.

Drauzio Varella: Individuo da espécie dos Dotôres que acha que tem o conhecimento sobre toda a medicina atual e mundial. Se considera o “Hipócrates moderno”.

Coloração de Gram: Tipo de coloração que utiliza diferentes corantes para diferenciar as bactérias em bactérias Gram-negativas e bactérias Gram-positivas de acordo com propriedades da parede celular desses microrganismos.

Pandoravírus: Grupo de vírus com maior tamanho conhecido até o momento. Tem esse nome, pois seus descobridores acreditam que, com a descoberta desse vírus, eles possam ter aberto a “caixa de Pandora” da virologia, que é a descoberta de como os vírus apareceram.

Sequenciamento genético: O sequenciamento de DNA é uma série de métodos bioquímicos que têm como finalidade determinar a ordem das bases nitrogenadas adenina (A), guanina (G), citosina (C) e timina (T) da molécula de DNA. Com isso podemos montar a sequencia do genoma de qualquer individuo.

Domínio (biologia): Designação dada em biologia ao táxon de nível mais elevado utilizado para agrupar os organismos numa classificação científica. O domínio agrupa os diferentes reinos, sendo a mais inclusiva das divisões taxonômicas em que se dividem.

Agora uma musiquinha do grande trio mexicano Pandora. Essa é para quem gosta da novela “A Usurpadora”

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