No ritmo da Campanha Nacional de Vacinação das crianças, o Dotô decidiu falar sobre um tema recorrente entre os pais: Dotô a vacina que é dada no consultório é melhor do que a das campanhas?

vacina

Muitas vacinas disponibilizadas nos postos de saúde também podem ser aplicadas em consultórios ou clínicas privadas, causando dúvidas e um certo receio dos pais sobre qual seria o melhor local para vacinar seus filhos. O Dotô, preocupado com os pais indecisos e integrado com a campanha de vacinação que se iniciou nesse sábado (24/08), decidiu ajudar esses pais.

Baseado nas vacinas incluídas no calendário nacional de vacinação (disponível no site: http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=21462), o Dotô explicará as semelhanças e as diferenças entre vacinas disponibilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e no Sistema Privado.

Quais vacinas são iguais?

As vacinas BCG (contra a bactéria Mycobacterium tuberculosis que causa tuberculose) e da hepatite B (contra o vírus que causa hepatite B) aplicadas no recém-nascido possuem a mesma composição e eficácia em todos locais onde são disponibilizadas (maternidade, hospitais, clínicas e consultórios particulares). Também não possuem diferenças em composição e eficácia as seguintes vacinas: meningocócica C conjugada (contra a bactéria Neisseria meningitidis do tipo C que causa meningite), tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola), e a vacina da febre amarela.

Quais são diferentes?

Vacina contra poliomielite: Salk X Sabin

Recentemente houve uma mudança no calendário vacinal contra o vírus da pólio, a vacina oral (a vacina do zé gotinha, chamada de VOP ou Sabin) que é disponibilizada apenas em postos de saúde começou a ser substituída pela vacina contra pólio intramuscular (vacina injetável, chamada de VIP ou Salk), antes disponibilizada somente nas clinicas particulares. Hoje, o esquema preconizado pelo SUS engloba as duas vacinas. Enquanto as duas primeiras doses são intramusculares (Salk), aos 2 e 5 meses, respectivamente, a terceira e a quarta dose são oferecidas pela via oral (Sabin), aos 6 e 15 meses. Essas mudanças foram impulsionadas pela situação epidemiológica atual, onde o vírus da pólio foi erradicado das Américas, mas ainda recebemos frequentemente turistas e imigrantes de países onde a pólio ainda é um grande problema de saúde publica. Apesar de esse assunto merecer um novo post, o Dotô colocou um link para os curiosos, no qual o Ministério da Saúde faz alguns esclarecimentos: http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/noticia/4029/162/saude-oferece-duas-novas-%3Cbr%3Evacinas-para-criancas.html

Vacina tríplice bacteriana (difteria, tétano e coqueluche) – DTP

A vacina tríplice bacteriana oferecida nos postos de saúde é produzida com células inteiras, diferente da a vacina oferecida pelas clínicas particulares, que é acelular. Trata-se de uma questão técnica que diz respeito ao processo de fabricação da vacina, não havendo interferência na eficácia da vacina. Porém, há uma diferença prática: observa-se que a vacina de células inteiras (utilizada nos postos de saúde) causa efeitos adversos como: inchaço, dor no local da aplicação e febre, com uma maior frequência do que a acelular (utilizada na rede privada, chamada de DTPa). Além das redes privadas, a vacina tríplice bacteriana acelular é disponibilizada nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIEs) para crianças até 6 anos que apresentaram efeitos adversos à vacina, ou que apresentem alguma cardiopatia, pneumopatia ou doença neurológica, entre outras exceções.

Vacina conjugada contra o pneumococo – Pneumo

A vacina dos postos de saúde protege contra os 10 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, popularmente conhecida como pneumococo, (por isso é chamada de “10 valente”) e a vacina que esta disponível em clínicas particulares protege contra 13 sorotipos (conhecida como “13 valente”), ou seja, os dez tipos da vacina do SUS mais três sorotipos, o que corresponderia a uma proteção 6% maior do que as vacinas encontradas nos postos de saúde.

Vacina contra o rotavírus humano G1P[8] – Rotavírus

Nos postos de saúde existe à disposição uma vacina contra rotavírus. Essa vacina é monovalente, o que quer dizer que protege apenas contra um genótipo deste vírus, o genótipo classificado como G1P[8], o que equivale a 70% dos casos no Brasil. Essa vacina monovalente é utilizada no Brasil porque há estudos que indicam a ocorrência de reação cruzada da vacina contra outros sorotipos do rotavírus, porém, com a introdução da vacina, estão sendo observadas mudanças do genótipo dominante na população brasileira de G1P[8] para G2P[4]. Nas clínicas particulares, se aplica a vacina pentavalente que protege contra cinco genótipos de rotavírus, G1, G2, G3, G4 e G1P[8], o que corresponde a 99,5% dos casos brasileiros. A vacina do SUS é administrada via oral com duas doses, e a vacina de clínicas particulares, com três doses.

Quais outros fatores devem ser levados em consideração na hora de escolher o local?

As vacinas são imunobiológicos, e sua manipulação e acondicionamento são de extrema importância para que esse produto atinja o seu objetivo sem causar danos ou perdas à saúde do seu usuário. Para isso, os postos de saúde, CRIEs, hospitais, consultórios e clínicas privadas devem contar com uma rede de frios. A rede de frios é o sistema de conservação, controle e transporte dos imunobiológicos, que visa manter os mesmos em condições adequadas de temperatura e ao abrigo da luz. Para isso é necessário a utilização de normas e protocolos a serem seguidos para a garantia da qualidade e bom uso.

Além de toda burocracia deste processo também se faz necessária a implementação de uma estrutura física necessária. Não basta ter apenas uma geladeira, é necessário também que a temperatura seja monitorada com rigor e o local deve possuir um gerador no caso de falta de energia. Essa estrutura nem sempre é encontrada em consultórios, onde os dotôres armazenam as vacinas em pequenas geladeiras, sem controle ou sistema de geração de energia auxiliar adequado. Outro fato importante é que, nos postos de saúde os estoques de vacina são renovados constantemente devido a grande demanda, ou seja, sempre chegam novos lotes e as vacinas não são estocadas por longos períodos, o que não é fiscalizado eficientemente em clínicas particulares.

 Depois de todas as considerações feitas, o Dôto espera que os pais possam ter informações suficientes para escolher o melhor local para vacinar seus filhos e se vacinar também. Seja qual for a sua escolha lembre-se de que é importante que o ambiente seja bem higienizado, fiscalizado pela Vigilância Sanitária e que disponha de geladeira ou câmara com controle de temperatura, além de mecanismo de proteção contra falta de energia. As clínicas e consultórios particulares devem ter alvará especial emitido pela Vigilância Sanitária. Confira se as clínicas particulares seguem as condições esperadas para o bom armazenamento de estoque de vacinas, é um direito seu e pode fazer a diferença de uma boa vacinação sua e de seu filho.

GLOSSÁRIO:

Pneumococo ou  Streptococcus pneumoniae – é a principal espécie de bactérias que causa pneumonia e meningite em adultos.

Imunobiológicos – produtos de origem biológica (chamados imunobiológicos) usados na prevenção e tratamento de doenças.

Os genótipos de rotavírus: O rotavírus é classificado molecularmente como genótipos G (por causa das diferentes proteínas VP7 do capsídeo) ou como genótipos P (por causa das diferentes proteínas VP4 do capsídeo). Assim, a nomenclatura dos genótipos é feita da seguinte forma: G + número que corresponde ao tipo de VP7)+ P[número que corresponde ao tipo de VP4]. Ex: G1P[8]; G2P[4].

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Dotô, hepatite é tudo a mesma coisa?

Em homenagem ao Dia Mundial da Luta Contra as Hepatites Virais que aconteceu dia 28 de julho e, para contribuir com a divulgação da Caminhada de Conscientização das Hepatites Virais, que acontecerá domingo dia 11 de agosto, o Dotô escolheu falar das hepatites virais para todos os seus pacientes.

hepatite

Mas Dotô, o que afinal é hepatite?

Caro paciente, hepatite não é tudo a mesma coisa não! Hepatite é definida como uma inflamação no fígado, que possui diferentes níveis de intensidade, podendo ser caracterizada por um aumento das enzimas hepáticas como alanina aminotransferase (ALT) e aspartato aminotransferase (AST), além da presença de sinais clínicos e sintomas típicos como: icterícia, insuficiência hepática, dor abdominal, enjoo, vômitos, fezes claras e urina escura (cor de coca-cola).

Mas Dotô, o que pode causar hepatite?

A hepatite pode ser causada por excesso de álcool, remédios, distúrbios metabólicos, genéticos, doenças auto-imunes e diversas infecções provocadas por vários microrganismos. Um dos maiores exemplos são as hepatites virais. As hepatites virais podem ser causadas por vírus que possuem a capacidade de se replicar no fígado e provocar uma doença. Os principais vírus que causam hepatite são classificados em hepatites A, B, C, D e E. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, 1 milhão de mortes no mundo acontecem em decorrência das hepatites virais.

As hepatites virais são divididas em hepatites agudas e crônicas. Geralmente, as hepatites A e E possuem um quadro de doença inflamatória aguda do fígado. Já as hepatites B, C e D podem evoluir para hepatite crônica. As hepatites agudas podem se apresentar de forma assintomática ou com sintomas clássicos de hepatite.  Já as hepatites crônicas, geralmente caracterizadas por apresentarem um tempo de duração maior do que 6 meses,  são mais graves, podendo evoluir para insuficiência hepática e cirrose.

Agora o Dotô vai explicar para vocês as três principais hepatites virais, pra vocês não se confundirem: a hepatite A, B e C.

A hepatite A é uma doença inflamatória aguda do fígado, causada pelo vírus da hepatite A. O período de incubação da doença é de aproximadamente 28 dias, podendo se apresentar de forma assintomática ou leve por 2 semanas ou na forma  grave que pode durar meses. Os sinais e sintomas são definidos como febre abrupta, mal-estar, anorexia, náuseas, desconforto abdominal e icterícia. Enquanto em crianças menores de 6 anos, 70% dos casos são assintomáticos, em adultos há um risco maior do desenvolvimento de hepatite fulminante.  A taxa de mortalidade é de 0,3%, mas aumenta para 1,8% em adultos maiores de 50 anos. Pelo fato do vírus da hepatite A ser um dos vírus mais resistentes no ambiente, a água é o seu principal veículo de transmissão, seguida pelos alimentos. Assim, é muito importante nos prevenirmos e somente ingerirmos água devidamente filtrada ou clorada. Além disso, a hepatite A já possui uma vacina, mas que ainda não está disponível na rede pública, somente na rede privada. Há expectativas de que essa vacina seja incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNL) do Ministério da Saúde.

Já a hepatite B é uma doença inflamatória do fígado, causada pelo vírus da hepatite B. A doença pode se apresentar de uma forma moderada por algumas semanas ou evoluir para um quadro prolongado de forma crônica. Essa forma crônica pode vir a se tornar um câncer no fígado, chamado de hepatocarcinoma. A transmissão da hepatite B ocorre através do contato com o sangue de pessoas infectadas, através do contato com fluidos biológicos durante relações sexuais com um indivíduo infectado, compartilhamento de seringas contaminadas ou através da mãe para o filho. Outras formas de transmissão incluem: durante a manicure (através de uso de material não estéril), e o compartilhamento de escova de dentes, lâminas de barbear e de depilar. A vacinação para hepatite B já está incluída no calendário de vacinação brasileiro em três doses, durante as primeiras 12 horas de vida, e a partir daí, a vacina para hepatite B está incluída na vacina pentavalente, assim, a criança recebe a segunda dose aos 2 meses de vida, a terceira dose aos 4 meses e o último reforço aos 6 meses de idade. Além disso, a vacina está disponível para adolescentes e adultos em três doses, sendo que, atualmente, a faixa etária para a vacinação de adultos aumentou para 49 anos, o que muito agrada o Dotô!

A hepatite C, uma hepatite silenciosa e por isso perigosa, podendo ser letal, é uma doença inflamatória do fígado, transmitida pelo vírus da hepatite C. A transmissão ocorre basicamente através do contato com o sangue de um indivíduo infectado, como transfusão sanguínea e compartilhamento de seringas. Uma pessoa pode passar a vida toda com hepatite C e não apresentar sintomas, mas, algumas pessoas, depois de 20 a 30 anos após se infectarem pelo vírus podem apresentar sintomas como cirrose, insuficiência hepática e hepatocarcinoma. A hepatite C apresenta um grave problema de saúde pública pois, além de 80% dos casos terem risco de evoluírem para a forma crônica da doença, também não apresenta nenhuma vacina disponível no Sistema Único de Saúde.

O Dotô abre um adendo agora para informar a todos os seus pacientes que nasceram entre 1945 e 1965 para se dirigirem à um posto de saúde e fazerem um teste para hepatite C, pois essas pessoas apresentam um risco cinco vezes maior de estarem infectadas. Esse cuidado é necessário pois, antigamente se utilizavam seringas de vidro e as transfusões de sangue não eram testadas contra a hepatite C. Mesmo que você não tenha nascido nessa época, , avise seus familiares! Precisamos lutar juntos para divulgar as hepatites virais, estimular campanhas de vacinação contra hepatite B, incentivar para que a vacina contra hepatite A seja incluída no calendário de vacinação, incentivar as pessoas a fazerem testes de diagnóstico e divulgar informações sobre a prevenção, afinal, a melhor prevenção é o conhecimento!

GLOSSÁRIO:

Cirrose: A cirrose é definida pela substituição do tecido hepático por tecido fibrótico decorrente da lise das células. A cirrose acontece principalmente nas hepatites virais crônicas devido à incapacidade das células hepáticas se regenerarem devido à replicação viral e lise celular causando uma inflamação crônica do fígado.

Enzimas hepáticas: As enzimas hepáticas contribuem para o bom funcionamento do nosso fígado. Qualquer aumento na produção dessas enzimas pode diagnosticar uma alteração na função do fígado. Enzimas que são quantificadas para avaliar o estado do fígado de um paciente incluem: alanina aminotransferase (ALT), aspartato aminotransferase (AST), fosfatase alcalina e gama glutamil transpeptidase (Gama-GT)

Icterícia: A icterícia é uma coloração amarelada que aparece na pele e mucosa de pacientes devido ao acúmulo de uma substância chamada bilirrubina no organismo. A bilirrubina é um produto da quebra da hemoglobina do nosso sangue, sendo função do fígado eliminar essa bilirrubina do nosso organismo. Indivíduos infectados com hepatites virais vão apresentar uma diminuição da função hepática de eliminar a bilirrubina, que então se acumula no organismo.

Infecções agudas e crônicas: As infecções virais agudas são definidas como de início abrupto e curso limitado, apresentando-se de forma assintomática ou com sintomas característicos, com eliminação do vírus e recuperação do indivíduo. Já as infecções virais crônicas, com um tempo de duração superior a 6 meses, podem se apresentar inicialmente de forma assintomática no paciente, que passa a apresentar os sintomas somente muitos anos depois, sendo de difícil tratamento.