Dotô, existe vírus no fundo do mar?

virus ocean

É claro que sim, meu caro paciente. Os vírus são indivíduos que necessitam da célula do hospedeiro para se replicar, o que os torna parasitas intracelulares obrigatórios. Então eles podem ser encontrados em, praticamente, todo ser vivo. Como tal, os vírus podem ser encontrados no oceano e, até nas profundezas, em suas camadas mais abissais (zona abissal), bastando apenas que tenha algum ser vivo ao qual ele possa infectar. Mas não se esqueça, os vírus necessitam de uma célula para se multiplicar, mas essa célula precisa ser uma célula específica de um ser vivo específico.

            Acredite se quiser, mas os vírus são considerados os indivíduos mais abundantes nos oceanos, e uma boa parte da diversidade genética nos mares são encontrados nos vírus marinhos. A estimativa é de que sejam encontrados 1030 (um nonalhão) de vírus nos oceanos, o que seria o equivalente a 60 galáxias, se todos os vírus fossem colocados lado a lado. A cada segundo, aproximadamente 1023 (cem sextilhões) de infecções virais ocorrem nos oceanos. Essas infecções são culpadas por grande parte da mortalidade marinha, com surtos e epidemias que causam a morte desde plânctons até camarões e baleias. Como resultado, esses vírus influenciam a composição de comunidades marinhas e são responsáveis pela formação de vários ciclos biogeoquímicos. Além disso, cada infecção tem o potencial de introduzir novas informações genéticas em um organismo, sendo capaz de ajudar a modelar a evolução no fundo do mar.

            Só para termos uma ideia, os oceanos são os responsáveis por controlar o clima, proveem uma grande quantidade de proteínas que são consumidas globalmente e produzem aproximadamente metade do oxigênio da Terra. Os microrganismos em geral são uma força importante para o equilíbrio dos oceanos e constituem mais de 90% da biomassa marinha. Essa massa marinha é perdida em, aproximadamente, 20% ao dia pela infecção causada por vírus marinhos. Mas não se preocupem, no dia seguinte esses 20% voltam a aparecer (só para serem mortos de novo por infecções virais marinhas).

            A história dos vírus marinhos começou a ser desvendada no final da década de 1970, mas demorou uma década para a utilização de métodos quantitativos de concentração da água que revelaram que a cada mililitro de água do mar são encontrados milhões de partículas virais. Sabendo que os oceanos cobrem mais de 70% da superfície da Terra imaginem a dificuldade que deve ser para encontrar uma quantidade suficiente de vírus nessas águas em pesquisas dentro do laboratório. Isso foi resolvido com a utilização de técnicas que conseguem concentrar uma certa quantidade de vírus. Geralmente, nessas técnicas são coletadas 1080 litros de água do mar, que, após um determinado protocolo, concentra essa água em apenas 4 mililitros de água. Nessa concentração, encontramos uma maior quantidade de vírus na amostra.

            A quantidade de vírus encontrados nos oceanos varia de acordo com a quantidade de organismos que eles podem infectar. Se considerarmos que que encontramos poucos organismos no fundo dos oceanos, a quantidade de vírus é menor nesses locais e, em outros locais dos oceanos com menos bactérias e outros organismos. Um exemplo são as bactérias onde já é de conhecimento que, de todos os organismos, a produção viral ocorre em locais com uma grande quantidade de bactérias, chamados de “hot spot”.

            Como dito anteriormente, os vírus são bastante importantes na dinâmica dos oceanos no mundo todo, alterando ciclos biogeoquímicos e mudando a estrutura de populações e comunidades. Tudo isso ocorre, pois os vírus podem infectar e matar indivíduos das comunidades. Agora pensa comigo, se os vírus conseguem matar até indivíduos com uma fisiologia tão elaborada como a nossa, ele consegue matar facilmente bactérias, que são compostas de apenas uma célula. Por isso, a destruição desses seres vivos é enorme. A estimativa é que a morte diária de bactérias de águas superficiais ocorra em uma porcentagem de 20–40% por dia. Ai você pensa: “O que eu tenho a ver com isso?” Você tem muito a ver com isso meu caro paciente. As bactérias são microrganismos importantes no equilíbrio dos ciclos biogeoquímicos no mundo todo, um aumento da morte de bactérias do oceano equivale a um desequilíbrio no meio ambiente e na diminuição de alguns nutrientes que são uteis para o crescimento de vegetais e plantas. Se houvesse um excesso de vírus que infectam bactérias (bacteriófagos) iríamos ter menos bactérias nos oceanos, e, sem essas bactérias não teríamos como acessar os nutrientes que elas produzem. Outro fator bastante interessante é que a lise de bactérias por vírus produz partículas orgânicas mortas contendo carbono. A célula bacteriana lisada por vírus afunda mais devagar e é retida em grande extensão na superfície das águas, aonde pode ser convertida em carbono inorgânico dissolvido utilizado na respiração dos animais, por exemplo. A diversidade das comunidades bacterianas nos oceanos é enorme, mas ainda não se tem certeza do equilíbrio ecológico desses indivíduos. Uma proposta de como ocorre esse equilíbrio é de que a natureza específica das infecções virais ao hospedeiro torna os vírus agentes poderosos no controle da composição dessas comunidades, pois a quantidade de vírus que infecta uma determinada comunidade pode ser capaz de diminuir a sua quantidade de indivíduos até que ocorra um equilíbrio ecológico. Além disso, esse equilíbrio ajuda a influenciar a diversidade bacteriana, pois as bactérias que conseguem sobreviver ao vírus se tornam mais resistentes a infecções virais. Os vírus então atuam selecionando as bactérias que conseguem sobreviver, ou seja, com a proteção antiviral mais forte. Será que em um passado longínquo isso pode ter influenciado na evolução de bactérias e até dos peixes? Existem teorias que acreditam nisso. E é nessa teoria que o Dotô acredita, a teoria de que os vírus realmente influenciaram a evolução (mas isso é assunto para um outro post). Mas como esse blog se chama Dotô e virose e não Dotô é bactéria, continuemos com o texto.

            O conhecimento de vírus marinhos que infectam indivíduos invertebrados e vertebrados é bem maior do que o conhecimento de vírus que infectam microrganismos como bactérias. Isso ocorre por causa da economia pesqueira, pois é importante sabermos os vírus que infectam a fauna e flora marinha para nos protegermos das consequências de doenças virais e para que ocorra a proteção de estoques de peixes e espécies de animais marinhos em risco. Na indústria de aquacultura marinha, as doenças virais podem causar perdas enormes na produção e revendas de frutos do mar, em especial peixes crus encontrados em refeições da culinária japonesa, camarões e lagostas. Os mamíferos marinhos também são animais suscetíveis a infecções virais. O exemplo mais importante registrado até o momento foi a morte de centenas de focas na Europa em 1988 e 2002, causada pelo vírus phocine distemper do gênero Morbilivirus (mesmo gênero do vírus do Sarampo) que se acredita circular em focas do Ártico. Epidemias causadas por outros Morbilivirus também foram responsáveis pela grande mortalidade de golfinhos e outros animais do grupo dos cetáceos (baleias). Além disso, muitos outros vírus foram responsáveis por epidemias no ambiente marinho que mataram vários animais e, alguns desses vírus, além de infectar animais marinhos podem causar doenças em humanos. Por isso, a vigilância dos vírus marinhos é bastante importante no mundo atual e, parece que, com o aumento do consumo de frutos do mar vem sendo cada vez mais importante.

            Sabendo disso, agora quando você der um mergulho pense no quanto os vírus são maravilhosos e estão em volta do nosso mundo o tempo todo. Nós não vemos, mas de alguma maneira eles estão nos afetando, tanto no equilíbrio ecológico e ambiental quanto nos peixes que nós comemos naquele sushizinho do fim de semana.

GLOSSÁRIO:

Bacteriófagos: Vírus que são específicos às células bacterianas, só infectando estas células.

Biomassa: Do ponto de vista da ecologia, biomassa é a quantidade total de matéria viva existente num ecossistema ou numa população animal ou vegetal.

Cetáceos: Grupo de animais marinhos, porém, pertencentes à classe dos mamíferos. O nome da ordem deriva do grego ketos  que significa monstro marinho. Basicamente formado por baleias.

Ciclos biogeoquímicos: Percurso realizado por elementos químicos no ambiente até ser absorvido e reciclado por componentes bióticos (seres vivos) e abióticos (ar, água, solo) no ambiente.

Comunidades (em ecologia): É a totalidade dos organismos vivos que fazem parte do mesmo ecossistema e interagem entre si, corresponde, não apenas à reunião de indivíduos (população) e/ou sua organização social (sociedade) e sim ao nível mais elevado de complexidade de um ecossistema.

Parasitas intracelulares obrigatórios: Indivíduos que necessitam do maquinário celular para se reproduzir, fora de uma célula hospedeira eles não conseguem se reproduzir.

Plânctons: O Plâncton é formado por organismos uni ou pluricelulares, em sua grande maioria microscópica, que flutuam com pouca capacidade de locomoção nos oceanos e mares, na superfície de águas salobras, doces ou lagos. Alguns invertebrados, as medusas e o Krill são exemplos de plânctons macroscópicos, ou seja, podem ser vistos a olho nu. O plâncton é a base da cadeia alimentar do ecossistema aquático.

Zona abissal: Zona abissal  é a camada compreendida entre os 4.000 m de profundidade e o leito oceânico. Na biologia marinha, o termo se refere ao ecossistema situado na região mais profunda dos oceanos (com profundidade entre 6000 e 11000 metros), aonde a luz do sol jamais chega e a pressão é extremamente alta, chegando a atingir 11 000 psi. Estas regiões representam 42% dos fundos oceânicos, habitat onde vivem poucos seres vivos em razão da pobreza de nutrientes e baixa temperatura. Os seres vivos que habitam este ecossistema chamam-se seres abissais.

Agora uma música do meu amigo síndico Tim Maia

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O Dotô está com Raaaaaaaaaaiiiivaa!!!!

raiva

Tomado por essa onda de filmes e séries apocalípticas, onde a humanidade sucumbe aos mortos vivos (zumbis), o Dotô decidiu investigar na virologia de onde poderia vir tanta inspiração?! E sim, meu querido paciente, nós temos um vírus bem conhecido pela humanidade, com características bem semelhantes aos possíveis responsáveis pelas pandemias zumbis que surgem por ai: o vírus da Raiva.

Por que o vírus da Raiva, Dotô? O que ele tem de parecido com um possível vírus “Zumbi”?

A primeira característica semelhante entre os dois é a forma de transmissão. O vírus da raiva é transmitido para o homem através do contato com a saliva de animais infectados, podendo ocorrer por arranhões ou mordidas, porém a transmissão também pode ocorrer através do contato de mucosas íntegras ou tecido lesionado com secreções contaminadas. O ferimento causado pela mordida de um animal raivoso resulta na deposição de saliva infectada com vírus no interior dos músculos e tecidos próximos, servindo de porta de entrada para a infecção.

O inicio dos sintomas da infecção pelo vírus da raiva também são bem parecidos com os primeiros sintomas de um possível vírus zumbi, sendo: vômito, febre, anorexia, diarreia, fotofobia e dores no corpo. Após esse período, o paciente infectado pelo vírus da raiva desenvolve um quadro neurológico agudo e progressivo com agitação, desorientação, alucinação, rigidez da nuca, aerofobia, espasmos de faringe, arritmias cardíacas e respiratórias, entre outras manifestações, que mostram o comprometimento do sistema nervoso central (SNC). A hidrofobia é um sintoma característico, não sendo encontrado em nenhuma outra infecção do SNC, contudo nem todos os indivíduos infectados desenvolvem esse sintoma. Os doentes que sobrevivem à fase de excitação aguda evoluem para um quadro paralítico, caracterizado por paralisia progressiva ascendente, apatia, coma e morte.

Assim como os “vírus zumbis”, o vírus da Raiva tem 100% de letalidade, ou seja, todas as pessoas que adquirem a infecção chegam ao desfecho da doença. No caso da raiva o desfecho é a morte, já no caso dos “vírus zumbis”. é um acordar para uma “vida após a morte”, onde o zumbi mantém apenas suas características primitivas, como locomoção e busca por alimento. Existem registrados menos de 10 casos de cura da raiva, sendo uma registrada aqui no Brasil. A cura da raiva segue um protocolo experimental e não evita que o paciente recuperado esteja livre das sequelas provenientes da infecção.

Mas Dotô?! Será que o vírus da Raiva pode causar uma pandemia zumbi???

      Calma …não é bem assim… A raiva é uma zoonose, ou seja, tem o envolvimento de animais (cães, gatos, morcegos, macacos, etc ..) no ciclo de transmissão do vírus.  E assim a transmissão pessoa-pessoa ainda não foi descrita, apesar de se acreditar que um paciente raivoso possa transmitir raiva para outra pessoa através da mordedura. Além disso, a raiva, apesar de não ter tratamento, tem profilaxia. Existem vacinas e soros para o tratamento pré e pós-exposição ao vírus.

      O Dotô lembra que a raiva, apesar de esquecida, ainda é uma doença de grande importância mundial. 50.000 casos de raiva são registrados no mundo, sendo que a população mais atingida, cerca de 40%, são crianças com menos de 15 anos de idade. A fonte mais comum de infecção é a mordida por cães raivosos. Ainda hoje no mundo o cão é a principal fonte de infecção pelo vírus da raiva, com exceção da América do Sul, onde os morcegos são a principal fonte dos casos de raiva. No Brasil, casos humanos de raiva já foram notificados em 22 estados, a maioria ocorrendo nas regiões Norte e Nordeste do país. Desde 2004 a principal fonte de infecção passou a ser o morcego, seguido pelo cão. Os indivíduos mais atingidos são adultos jovens entre 20 e 29 anos do sexo masculino. Então, fiquem alerta e procurem um médico caso sofram um acidente envolvendo animais silvestres ou domésticos que vocês não tenham conhecimento de terem sido vacinados contra raiva.

      E você meu paciente, que curte esse tipo de filme, pode apreciar a “atuação” do vírus da raiva em diferentes filmes como: 28 dias depois (28 Days Later), Cujo, Eu bebo seu sangue ( I Drink Your Blood), Quarentena ou REC, Rage, Extermínio 1 e 2 e mais recentemente o filme Guerra Mundial Z (World War Z), ainda em cartaz nos cinemas.

GLOSSÁRIO:

Aerofobia: é o medo de estar ao ar livre ou exposto a correntes de ar.

Hidrofobia: Medo de água, que pode acontecer devido a uma alteração psiquiátrica, ou, no caso da raiva, devido à infecção viral.

Pandemia: Quando uma doença infecciosa atinge níveis globais, estando presente em mais de um continente, podendo atingir o mundo inteiro. Um exemplo de uma infecção viral recente que atingiu níveis pandêmicos foi causada pelo vírus Influenza H1N1 em 2009, que conseguiu atingir a fase de alerta máximo de pandemias definida pela Organização Mundial de Saúde.

Relembrando os 30 anos da AIDS

30 anos hiv

O Dotô vai contar hoje para os seus pacientes um pouco da história do vírus que mudou o mundo: o vírus da imunodeficiência humana, mais conhecido como HIV. Sua história começa em 1981, quando em Los Angeles foram relatados casos de pacientes homossexuais com uma pneumonia rara causada pelo fungo Pneumocystis carinni. Também foram descritos casos de homossexuais com Sarcoma de Kaposi em Nova York e Califórnia. Ninguém sabia o que estava acontecendo com essas pessoas, o que se sabia era que se tratava de uma doença causadora de uma deficiência imunológica severa em indivíduos que antes da infecção eram saudáveis. A partir daí, o Center of Disease Control (CDC) resolveu identificar os fatores de risco e realizar uma definição de caso para ajudar na vigilância epidemiológica.

Com o tempo, a doença se alastra e, em 1982, o CDC usa o termo AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) pela primeira vez, quando também são descritos casos em crianças e indivíduos submetidos à transfusão sanguínea.

Mas, peraí, Dotô, até então não se tinha uma descrição da forma de transmissão da doença? Nem se era mesmo um microrganismo o vilão por trás dessa história?

Sim, caro paciente, as hipóteses estavam sendo criadas, não se sabia qual era e se era mesmo causada por um microrganismo. Essa incerteza toda contribuiu de forma negativa para gerar uma grande discriminação com os indivíduos com AIDS. Essas dúvidas começaram a ser sanadas em 1983, quando o National Institute of Health (NIH) sugeriu que algum retrovírus poderia ser o agente causador da doença. Nesse mesmo ano, foram descritos os primeiros casos em mulheres que tinham parceiros com AIDS, confirmando a transmissão heterossexual. Ao mesmo tempo, o CDC afirma que os casos documentados até então incluíam principalmente homens homossexuais com múltiplos parceiros, usuários de drogas injetáveis e hemofílicos, sugerindo que a AIDS seria causada por um agente infeccioso e transmitida por contato sexual ou exposição ao sangue, recomendando medidas de prevenção.

Meus caros pacientes, nessa época não existiam todos os avanços tecnológicos e científicos que temos hoje em dia, então a identificação do suposto microrganismo demorou um pouco mais do que estamos acostumados. Mesmo assim, o vírus foi identificado em 1983, 2 anos e meio desde o primeiro relato, o que foi um recorde para a época. Foi no Instituto Pasteur que veio a primeira dica: o Professor Luc Montagnier identificou através de microscopia eletrônica, um novo retrovírus como o causador da AIDS e o chamou de Vírus Associado à Linfadenopatia (LAV). Mais tarde, ele dividiu essa descoberta com Robert Gallo, do National Institute of Cancer, que em 1984 relatou que esse retrovírus se tratava de um HTLV-III, um vírus linfotrópico de células T. Gallo afirmou que desenvolveu um teste de diagnóstico e sugeriu que uma vacina poderia ser desenvolvida em até 2 anos. Aaaaahhh, doce ilusão desse tal Robert Gallo!

Com o aumento do número de casos em profissionais de saúde, o CDC publicou medidas de precaução da exposição ocupacional. Também determinou as formas de transmissão da doença, eliminando então a ideia de que o vírus poderia ser transmitido por contato casual, comida, água, ar e superfícies. Aí o Dotô faz um adendo: isso ocorreu em 1983, e, ainda hoje, é observada certa estigmatizacão frente aos pacientes soropositivos. O Dotô, como bom profissional que é, busca combater essas diferenças, tratando seus pacientes de forma igualitária e recriminando qualquer forma de preconceito. Em 1985 começou a ser comercializado o primeiro ensaio imunoenzimático (ELISA) para detecção de anticorpos presentes no sangue contra o vírus.  São anunciadas medidas de prevenção como: o não compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis, a prevenção da transmissão materno-fetal, e o food and drug administration (FDA) declarou o uso de camisinha pelos homens como uma forma de prevenção do HIV. Somente em 1986 é que o vírus passou a ser chamado de vírus da imunodeficiência humana (HIV), e, em 1987, a FDA aprovou o primeiro antirretroviral: zidovudina (AZT), que acabou sendo liberado para uso pediátrico somente três anos depois em 1990, mesmo ano em que o cantor Cazuza faleceu por choque séptico devido à infecção viral. Já em 1991, o laço vermelho virou símbolo da luta contra a AIDS, o mesmo ano que o digníssimo cantor Freddie Mercury faleceu de pneumonia devido à infecção pelo vírus. Até o ano de 1991, 10 milhões de pessoas tinham se infectado e, nesse mesmo período, foi criado o primeiro teste rápido para diagnóstico de HIV-1 e a aprovação da camisinha feminina.

Em 1993, o CDC expandiu a definição de AIDS, incluindo como indivíduos soropositivos aqueles com contagem de linfócitos T CD4+ menor do que 200 células/mm3, e estreou nos cinemas um filme estrelado por Tom Hanks, chamado Philadelphia, que relata a história de um advogado com AIDS. O primeiro teste de HIV por via oral, ou seja, não invasivo, foi criado em 1984. Até esse ano, 500.000 casos tinham sido reportados, causando uma elevada taxa de mortalidade em pessoas de 25 a 44 anos. No ano seguinte, a FDA aprovou testes de diagnóstico para detecção da carga viral nos pacientes, por reação em cadeia da polimerase (PCR). E em 1996, perdemos mais um grande cantor e compositor, Renato Russo, nosso eterno vocalista da Legião Urbana, faleceu devido à complicações da AIDS. Com a popularização dos medicamentos antirretrovirais, que tinham como objetivo diminuir a replicação do vírus começaram a surgir casos de resistência medicamentosa, e, em 1998, o CDC aprovou um guia de uso da terapia antirretroviral. Com investimentos milionários para pesquisa de novos fármacos e desenvolvimento de vacinas, novos medicamentos foram aprovados, porém, nenhuma vacina anti-HIV se tornou realmente eficaz, seja ela profilática ou terapêutica. Em 1999, a estimativa era de que 33 milhões de pessoas seriam portadoras do HIV e 14 milhões teriam morrido de AIDS, sendo que a África apresentava o maior número de mortes. Em 2007, o CDC relata que 565.000 pessoas morreram de AIDS desde 1981.

E a AIDS hoje, como está? Os números de casos documentados estão estabilizados, porque muitos pacientes conseguem manter uma carga viral baixa devido ao uso do coquetel antirretroviral, que combina vários medicamentos, com diferentes mecanismos de ação, para evitar a resistência. Em 2007, o governo Lula anunciou a quebra de patentes de antirretrovirais no Brasil, o que facilitou o acesso à medicação. A estimativa atual no mundo é que 34 milhões de pessoas sejam portadoras do HIV, sendo que 97% dos casos são oriundos de pessoas que moram em países com baixo e médio índice de desenvolvimento, como a África Subsaariana, e que 30 milhões tenham morrido desde o início da epidemia. Quanto aos pacientes com acesso ao tratamento em países de baixo desenvolvimento social, estima-se que o número tenha aumentado de 300.000 em 2003 para 8 milhões em 2011. Já no Brasil, estima-se que 530.000 pessoas vivam com HIV/AIDS, de onde 135.000 não sabem ou não fizeram o teste. O número de crianças menores de 5 anos infectadas reduziu 25% de 2002 a 2011 no Brasil. O número de idosos com HIV/AIDS aumentou nos últimos tempos, sendo iniciadas campanhas de prevenção nessa faixa etária. Quanto à geração de uma vacina, ela está longe de acontecer devido às características peculiares do vírus de elevada taxa de mutação, mas novos ensaios clínicos continuam sendo realizados.

O dia mundial da luta contra a AIDS foi instituído como sendo 1º de dezembro. Essa data é importante para conscientizar as pessoas sobre a prevenção e difundir a solidariedade com as pessoas que sofrem com a AIDS. Além disso, a campanha busca estimular a reflexão sobre a falsa impressão de que a AIDS afeta apenas o outro, distante da percepção de que todos estamos vulneráveis.

GLOSSÁRIO:

Antirretroviral: Medicamentos usados no tratamento da AIDS, buscando aumentar a qualidade de vida dos indivíduos infectados. Geralmente atuam inibindo alguma etapa de replicação do vírus.

Definição de caso: Atualmente, a definição de caso de um indivíduo com AIDS é descrita como: existência de dois testes de diagnóstico de triagem ou um confirmatório para detecção de anticorpos anti-HIV, evidência de alguma doença indicativa de AIDS e/ou contagem de linfócitos T CD4+ inferior a 350 células/mm3.

Ensaio imunoenzimático (ELISA): Teste de diagnóstico utilizado para detectar anticorpos anti-HIV no soro do paciente através de uma reação colorimétrica com um anticorpo secundário conjugado a uma enzima.

Hemofílicos: Indivíduos portadores de uma doença de característica hereditária que culmina na deficiência dos fatores da coagulação sanguínea, sendo então mais propensos a sangramentos/hemorragias. Necessitam fazer reposição dos fatores de coagulação para suprir essa falta do organismo. Por ser a hemofilia uma deficiência genética ligada ao X, ela se expressa somente no sexo masculino.

Linfócitos T CD4+: Principais células do sistema imunológico, envolvidas com todo o mecanismo de defesa através da produção de citocinas inflamatórias. Como o HIV infecta principalmente essas células, a sua quantificação está associada como um prognóstico para AIDS ou não.

Microscopia eletrônica: O microscópio eletrônico é o único equipamento capaz de visualizar uma partícula viral, que apresenta nanômetros de diâmetro. A descoberta de novos vírus sempre está associada com sua visualização por microscopia eletrônica.

Pneumocystis carinni: Tipo de fungo que se tornou comum em indivíduos com AIDS, sendo a pneumonia por esse fungo incluída na lista de doenças indicativas de progressão para AIDS.

Sarcoma de Kaposi: Tipo de tumor que se tornou comum em indivíduos com AIDS, sendo incluído na lista de doenças indicativas de progressão para AIDS.

Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS): Conjunto de sinais e sintomas que um indivíduo infectado pelo vírus HIV pode vir a esboçar quando há um aumento da carga viral, devido à falência do sistema imunológico e pré-disposição a infecções oportunistas.

Vírus da imunodeficiência humana: Pertence à Família Retroviridae, apresentando dois tipos: HIV-1 e HIV-2, de origens filogeneticamente diferentes. Enquanto o HIV-1 é cosmopolita, o HIV-2 está presente principalmente na África Subsaariana.