Dotô, você já assistiu o filme Epidemia?

Roupa legal né?

Mas é claro que já assisti meu caro paciente. Na verdade, acho que agora eu vou trazer para vocês um pouco mais sobre a virologia no cinema. Não, calma aí. Apenas no cinema não, de tempos em tempos eu vou passar todo o meu conhecimento sobre a virologia no cinema, televisão, musica e outros instrumentos da cultura pop. Vamos começar falando sobre esse clássico de filmes de pandemias: o filme Epidemia.

                Esse filme foi lançado em 1995, embalado com os surtos epidêmicos do vírus Ebola que ocorreram no Gabão, em 1994, e na Republica Democrática do Congo em 1995, infectando 500 pessoas e levando à morte de, aproximadamente, 400 pessoas. Além da alta taxa de mortalidade, um dos maiores motivos do medo da infecção pelo vírus é o tempo em que o vírus mata o paciente infectado. Uma pessoa infectada pode morrer em até 8 dias após a infecção primária pelo vírus. Além disso, o vírus tem como manifestação clinica principal a febre hemorrágica, onde os indivíduos apresentam manchas avermelhadas na pele, diarreia sanguinolenta e começam a sangrar pelos olhos, ouvidos, nariz, boca e reto.

                A história do filme se baseia em uma possível epidemia causada por um vírus bem parecido com o vírus Ebola e que foi levado aos Estados Unidos, infectando uma cidade inteira. O filme apresenta noções de controle de doenças emergentes nos Estados Unidos, mostrando órgãos de vigilância e controle sanitários importantes como o Center for Disease Control (CDC). O filme reuniu também ótimos atores do cinema como Dustin Hoffmann, Rene Russo (não tão boa assim, mas bastante famosa), Morgan Freeman, Kevin Spacey, Cuba Gooding Jr. (também não é um bom ator, mas fazer o quê?), Donald Sutherland e Patrick Dempsey (Doutor Gray, para os mais íntimos).

A narrativa começa como em todo filme de epidemia, com uma selva qualquer e um macaquinho. No caso do filme, essa selva era encontrada na África, no Zaire em 1967 (por um acaso a mesma época e o mesmo país em que foi encontrado o vírus Ebola pela primeira vez). Estava ocorrendo uma guerra em que soldados morriam por uma doença desconhecida (como a gripe espanhola de 1917, que estava ocorrendo no meio da primeira guerra mundial e matava os soldados sem ninguém saber a causa). O filme também mostra que a doença desconhecida avançava rápido matando os soldados em pouquíssimo tempo.

Logo após essa cena da guerra, acontece uma das cenas mais emocionantes do filme e que habitou a mente deste jovem Dotô, ajudando-o a escolher sua profissão. A sequência em si é a de uma possível visão do que seria o CDC, passando por todos os laboratórios de biossegurança, usados para manipular microrganismos, variando do nível 1 ao nível 4. O interessante é, que quanto maior o nível de biossegurança, mais graves são os agentes infecciosos que são pesquisados e, por isso, é necessária uma segurança maior na manipulação e combate desse agente. Quando chegamos ao nível 4, encontramos os patógenos mais perigosos. Esse nível de segurança é requisitado para se trabalhar com agentes perigosos que representam risco individual de doença fatal. Existem poucos desses laboratórios ao redor do mundo (nenhum deles na América do Sul, o que é bastante estranho, considerando que existem vírus emergentes e reemergentes causadores de febres Hemorrágicas, como os arenavirus). Nos laboratórios de nível quatro são manipulados os vírus Ebola, por exemplo, os quais são altamente transmissíveis e sem cura conhecida. Nele só entram profissionais extremamente treinados, o que faz o Dotô perguntar: “quem é que limpa esses laboratórios”?

Trinta anos depois, a mesma doença que matou os soldados é encontrada em pequenas vilas no Zaire. O personagem principal Sam Daniels (nosso querido Dustin Hoffmann), um, digamos, cientista/militar precisa fazer a investigação da doença. Na viagem, um dos cientistas/militares da equipe (Kevin Spacey) afirma que essa doença é uma febre hemorrágica e explica suas manifestações clínicas. Já que ele explica, por que eu faria isso? Recomendo que todos assistam ao filme.

Quando a equipe chega à vila do Zaire, aparecem os primeiros casos da “nova” doença e as cenas seguintes ilustram os sintomas vivenciados pelos doentes. Na verdade, os sintomas desses pacientes são bastante parecidos com os do vírus Ebola. Ao mesmo tempo, o filme demonstra como é estressante o trabalho desses cientistas em situações de risco. Tão estressante que um dos cientistas/militares (Cuba Gooding Jr.) entra em pânico e tira o equipamento de proteção individual (EPI). O que poderia acontecer? É lógico que sem o EPI, o personagem ficaria vulnerável ao vírus, mas por sorte essa febre hemorrágica por si só não se transmite (até o momento) pelo ar, então não houve transmissão da doença pela via aérea para esse indivíduo. Ainda na vila do Zaire, Sam Daniels discute com um médico local, esse médico explica que o período de incubação da doença é bastante rápido (2 a 3 dias) levando a uma taxa de mortalidade de 100%. Aí temos um erro no filme, mas que podemos entender facilmente. Não existe até hoje uma doença infecciosa com taxa de mortalidade de 100%, talvez apenas a raiva. Em qualquer infecção, sempre há algum caso de alguém que sobrevive. Mas em Hollywood tudo pode acontecer. Nessa mesma conversa, eles falam sobre o paciente zero.

Vocês se lembram do macaquinho do começo do filme? Pois bem, ele aparece de novo. Mas agora o coitadinho é capturado e levado à civilização. Coitadinho do bichinho (cadê as Sociedades Protetoras dos Animais quando a gente precisa?). Mas mesmo raptado e fora do seu habitat natural, ele prevalece e arranja um amiguinho que dá umas bananinhas para o macaquinho.

Conversa vai, conversa vem e Sam vai trabalhar no laboratório com sua equipe. Logo que coloca o EPI especifico para o nível 4 de biossegurança (antes de entrar no laboratório, pois nesse nível de biossegurança é necessário ter uma ante-sala para colocar a roupa), ele percebe que seu EPI está rasgado. Dependendo do vírus, um rasgo na sua roupa de proteção pode ser o suficiente para o vírus atravessar a roupa e conseguir causar uma infecção. Ao perceber o estrago a tempo, e antes de entrar no laboratório de nível 4, ele consegue isolar a roupa e trabalhar eficientemente. A partir daí, o filme mostra muito bem como deve ser um laboratório de nível 4. Assim o vírus é observado em um microscópio eletrônico, e então vemos que ele tem formato diferente do usual, extremamente fino e parecido com qual vírus???? Dou uma consulta grátis para quem adivinhar. É o vírus Ebola que é mostrado. Na verdade, é uma foto clássica do vírus Ebola (Dotô é virose deveria ganhar um prêmio pela sua habilidade em encontrar erros nos filmes). O vírus passa a ser nomeado pelo mesmo nome da vila onde foi encontrado, Motaba (mas como eu vejo o Ebola na foto do vírus, então vamos chamá-lo de MotEbola).

Em uma cena posterior, o chefe de Sam pede para ele ir ao Novo México avaliar um surto de Hanta. E Sam responde se querem que ele vá caçar ratos. Sam está certíssimo, pois Hanta na verdade é um grupo de vírus chamados de hantavírus que infectam ratos. Esse vírus pode ser transmitido para os homens através da inalação de partículas virais aerolisadas (tipo o seu desodorante) presentes nas secreções de roedores, principalmente roedores silvestres. Ahh é, se vocês querem saber resumidamente como é feito o isolamento de um novo vírus (chamado de emergente) vejam os 30 segundos de discussão de Sam após falar sobre os hantavírus. Sam nos explica tudo, ele é o cara (Roberto Carlos fez a música inspirado nele).

Ahhh meu Deus e o macaquinho mais “bunitinho” desse filme??? Onde ele está??? Já chegou de barquinho aos EUA e encontra-se com um amigo meu, o Dotô Gray, do Gray’s Anatomy. Só que antes de ser médico, ele vendia macacos trazidos da África para compradores inescrupulosos. Disseram-me que ele fazia isso para pagar a faculdade de medicina. Nunca vamos saber. Mas o nosso amigo macaquinho, revoltado com esse futuro médico, cospe em sua cara e arranha o comprador da loja de animais. Nosso macaquinho, que agora sabemos que é uma macaquinha, é muito nervosa e logo, logo, ela é levada a uma florestinha que fica ali por perto (Existe um fato bastante importante sobre o macaco que interpretou essa macaquinha na continuação do filme.Vocês só saberão se lerem até o final dessa resenha).

O nosso amigo Gray, triste por ter libertado a macaquinha, viaja de avião e começa a ficar doente. Os sintomas começam a aumentar e descobrimos que a nossa amiga macaquinha infectou uma boa parte das pessoas que entrou em contato com ela e, com isso, a infecção foi se espalhando. Além disso, um técnico de laboratório bem esperto se corta na centrifuga. Acho que ninguém ensinou noções de biossegurança para essas pessoas. Existem péssimos professores na área da saúde, desde o curso técnico até a pós-graduação. Aonde a saúde no mundo vai parar? Além disso, nosso amigo Gray morre antes de virar médico. Mas como pode isso? Será que foi o irmão gêmeo dele que morreu?

A partir dessas infecções, ocorre um surto em uma cidade americana que passa a ser isolada pelos militares e a população fica em quarentena, para a doença não se espalhar. O nosso herói Dustin “Sam” Hoffmann descobre que a doença é transmissível pelo ar. Mas como assim? Como esse vírus é transmitido pelo ar se no começo do filme não era? A explicação é que ocorreu uma mutação do vírus que o tornou capaz de ser transmitido pelo ar. Nãããão, ele ficou mais parecido com o vírus Influenza. O que faremos? Temos que encontrar o hospedeiro original, que nós sabemos que é a nossa famosa amiguinha macaquinha. Nossos heróis imaginam que o hospedeiro original deve ter os dois tipos de vírus (o MotEbola original e o MotEbola transmitido pelo ar).

Quando começam a analisar as amostras de sangue dos pacientes, ocorre o maior e mais absurdo erro de todos os filmes de epidemia que foram analisados pelo nosso blog até o momento (ou seja, nenhum): as amostras de sangue foram analisadas com a utilização de um simples microscópio ótico. Aquele microscópio que tem em qualquer laboratório de ensino médio, no qual você consegue ver “bichinhos” se movendo e começa a se achar “O cientista”. Por que está errado? Pois, em um microscópio ótico, não conseguimos visualizar nenhum vírus, eles são extremamente pequenos, só podemos visualizá-los com um microscópio eletrônico. O que ele veria em um exame de sangue seria apenas a contagem de células sanguíneas, o que poderia dizer se a pessoa tinha ou não uma infecção. Mas que infecção seria essa, não daria para saber.

Ao trabalhar com o vírus e extremamente cansado, um dos pesquisadores da equipe (Kevin Spacey) de Sam, desastrado demais, tem seu traje de biossegurança danificado e, por isso, contrai o vírus. Como desgraça pouca é bobagem, a ex-mulher do protagonista (Rene Russo) se fere com uma agulha contendo sangue infectado e também contrai o vírus (isso ocorre mais vezes do que a gente imagina em hospitais desse nosso Brasil varonil). E, me esqueci de dizer, que nesse momento descobrimos que a atriz Rene Russo é tão branca como a luva que ela está usando (na verdade eu achei que ela não estava usando luva).

Com várias pessoas morrendo, dentre eles sua ex-mulher (ex-mulher atrapalha até para morrer). Nosso herói descobre que a nossa amiguinha macaquinha é a hospedeira e ele precisa encontrá-la. A chave da cura está nela. Em uma jogada do destino absurdamente estranha, uma mãe descobre que sua filha tem brincado com nossa amiga macaquinha apenas de olhar pro desenho da garota (que deve ter mais ou menos 5 anos) e comparar com a foto do macaco na TV. Isso é que é mãe com sexto sentido. A macaquinha é capturada e começam a sintetizar o soro, contendo seus anticorpos, que tem os dois tipos de vírus (o vírus em que ocorreu a mutação e o que não teve a mutação). Neste caso, isto foi o suficiente para salvar os pacientes. Fim da história (ainda tem outras coisinhas hollywoodianas que não vem ao caso).

Uoopppsss .CALMA AÍ!!! Um grande último erro do filme: o soro retirado da macaquinha era composto de anticorpos. Os anticorpos dão proteção imediata por, mais ou menos, 3 meses. Não protegem por muito tempo. Então não é “a cura” para o vírus. Seria necessária a produção de uma vacina para o MotEbola, utilizando o vírus ou antígenos do vírus, por exemplo, o que não ocorreu. Desta forma, as pessoas não estão curadas da doença para sempre, e sim por apenas 3 meses. Em pouco tempo todos poderiam morrer pela doença, se houvesse uma segunda infecção.

OBSERVAÇÃO ESPECIAL E QUE TODOS ESTAVAM ESPERANDO. SE VOCÊ LEU ATÉ AQUI, MERECE SABER DISSO

                Alguém aqui se lembra do seriado Friends? Aquele no qual Joey sempre dizia “How you doing”? Se não sabem, procurem no Google. Mas se vocês sabem, se lembram do animal de estimação do Ross no começo da série? Era um macaquinho bonitinho que se chamava Marcel. Adivinhem quem era Marcel? Era nossa querida macaquinha que causou todos os problemas para Sam Daniels e a população daquela cidade dos Estados Unidos. Pois é, ela resolveu trabalhar no seriado Friends.

                Na verdade, os produtores da série fizeram até uma piada com isso. Em determinado episódio, Rachel perde Marcel, para, na temporada seguinte, ele ser encontrado por Ross fazendo parte de um filme como estrela principal. Esse filme se chama “Outbreak 2: The Virus Takes Manhattan”. Oh, meu Deus! É a continuação do filme Epidemia. Será que Sam Daniels aparece de novo?

macacos

Olha a nossa querida macaquinha no filme Epidemia na primeira figura e na série Friends na segunda figura

GLOSSÁRIO

Antígeno – É considerado como toda partícula ou molécula capaz de iniciar uma resposta imune. No caso de vírus, os antígenos geralmente são proteínas que desencadeiam essa resposta imune.

Doenças emergentes – São aquelas cuja incidência nos seres humanos tem aumentado nas últimas duas décadas ou que poderão ameaçar a humanidade num futuro próximo (Ex: AIDS).

Paciente zero – Paciente inicial em uma população que está infectada pela doença. Considerado o primeiro paciente que indica a existência de um surto.

 

O trailer do filme Epidemia, vale a pena ver esse filme.

Os Coronavírus subiram na vida, bebê!!!

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Semana passada o governo Americano declarou que o novo coronavírus, capaz de causar a Síndrome Respiratória do Oriente Médio, na qual os pacientes apresentam febre, tosse e dificuldade para respirar, tem o potencial de causar uma situação de emergência no país. Essa declaração foi feita como um alerta para o aumento do numero de casos e como uma tentativa de acelerar os testes para o diagnóstico dessa nova doença. 

E por que essa preocupação toda, Dotô?

O primeiro caso dessa nova doença ocorreu em setembro do ano passado e até sexta passada (07/06/2013) já se contabilizavam 55 casos em oito países (Tabela 1) com 31 mortes. A maioria dos casos ocorreram este ano, demonstrando que estamos lidando com um vírus com o potencial de se dispersar e de causar mortespor todo o mundo. Você pode achar meu caro paciente, que 55 casos são poucos, e que a Dengue e o Influenza podem afetar mais pessoas em um dia, do que esse vírus em 8 meses. Vocês estão certos, mas, mesmo assim, devemos nos preocupar com essa doença emergente, já que existe a possibilidade dela se espalhar por todo o planeta.  Além disso, um primo desse vírus, o SARS-Coronavírus, causou uma pandemia em 2003, fazendo com que as autoridades ficassem alertas para o aparecimento de algum coronavírus que apresentasse um potencial semelhante.

Tabela 1: Total de casos e mortes pela Síndrome Respiratória do Oriente Médio.

Países

Casos (Mortes)

França 2 (1)
Itália 3 (0)
Jordânia 2 (2)
Qatar 2 (0)
Arábia Saudita 40 (25)
Tunísia 2 (0)
Reino Unido (UK) 3 (2)
Emirados Arabes (UAE) 1 (1)
Total 55 (31)

Mas, de onde vem esse vírus?

A maioria dos casos notificados tem relação com indivíduos que apresentam histórico de viagem para península Arábica ou então de pessoas que tiveram contato com pacientes que viajaram para essa região, demonstrando uma possível transmissão direta (pessoa-pessoa) realizada pelo vírus, o que não era encontrado nos coronavírus. A maioria dos casos se concentram na Arábia Saudita, mas a fonte da infecção ainda não foi identificada. O novo coronavírus é similar àqueles encontrados em morcegos, existindo a possibilidade de que esse vírus tenha sido transmitido do morcego para o homem e que, agora, ele consiga ser transmitido diretamente entre os seres humanos, sem a participação dos morcegos neste novo ciclo.

“Dotô, e porque chamam esse vírus de “emergente”? É porque ele está saindo da Arábia saudita para a Europa? Tipo a Luisa Marilac que foi tomar uns bons drink nasoropá?”

Quase isso. O fato desse vírus estar se espalhando entre diferentes países é um dos fatores pelo qual ele é considerado emergente. Outros fatores também o definem como um vírus emergente, como o fato de se tratar de uma nova espécie de coronavírus, de ocorrer um aumento no numero de casos, além de se tratar de um problema de saúde pública. Abaixo vocês encontram a definição de doenças emergentes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS):

“Doenças infecciosas emergentes são aquelas que só recentemente tenham sido identificadas e, assim, não eram previamente conhecidas; em adição, estas doenças devem se apresentar como um problema de saúde pública,seja local ou internacionalmente.” (OMS)

O Dotô está de olho nesse novo coronavírus e em todas as viroses emergentes desse mundão de Meu Deus. Lembrando que não existe até o momento nenhuma restrição para quem precisa viajar para península Arábica. Agora é a minha vez de tomar umas uns bons drink e curtir uma piscina maravilhosa …

 

GLOSSÁRIO

Coronavírus: Eles são vírus comuns que a maioria das pessoas entra em contato durante sua vida. Esses vírus geralmente causam doenças do trato respiratório superior, leves ou m oderadas. Os coronavírus também podem infectar outros animais.

SARS-Coronavírus: é o vírus responsável pela Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), mundialmente conhecida como SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome), que é uma doença respiratória grave.

Transmissão direta: quando um individuo recebe o vírus diretamente da pessoa infectada (tosse, contato com secreções, relações sexuais …)

Dotô, existem vírus que fazem bem?

fago

Sim, existem vírus que não deixam a gente doente e, ainda por cima, possuem atividade antimicrobiana. Hoje, falaremos dos bacteriófagos, vírus com a capacidade de infectar bactérias.

Um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos trabalha na detecção de bacteriófagos, também chamados de fagos, são vírus que infectam exclusivamente as bactérias, na mucosa do trato gastrointestinal de diversas espécies, como corais, peixes e seres humanos. Os fagos possuem uma estrutura bastante complexa, apresentando uma região chamada de cabeça e uma região chamada de cauda, de ondem saem diversas fibras.  Eles possuem diferentes aplicações na pesquisa, podendo ser usados como vetores para inserir um ou mais genes de outro organismo em uma bactéria ou também como um método alternativo para o uso de antibióticos no tratamento de infecções bacterianas, pois muitas bactérias apresentam resistência a um amplo espectro de antimicrobianos. Baseado no fato do muco produzido pela mucosa do intestino criar uma barreira de proteção muito importante contra agentes infecciosos, esse grupo conseguiu observar que há uma alta porcentagem de bacteriófagos na mucosa intestinal. Outro dado interessante é que esses bacteriófagos possuem em seu capsídeo proteínas semelhantes à imunoglobulina, que confere a capacidade de se mantê-los aderidos na mucosa do intestino, protegendo-a contra infecções.

Para testar essa hipótese, os pesquisadores adicionaram em cultura de células in vitro uma bactéria muito famosa chamada Escherichia coli (E. coli). Essas bactérias foram divididas em dois grupos: um grupo tratado com bacteriófagos e outro grupo não tratado. As células que foram tratadas com bacteriófagos foram protegidas da infecção bacteriana pela E. coli quando comparadas com o grupo não tratado. Agora o objetivo do estudo é avaliar se esses bacteriófagos conseguem matar a bactéria de forma específica ou se eles simplesmente aumentam os mecanismos da resposta imunológica inata de manter a microbiota da mucosa normal.

Caros pacientes, vocês estão vendo a importância disso? No nosso corpo temos vírus que fazem bem! Que infectam bactérias, podendo inibir o crescimento de microrganismos patogênicos no nosso intestino! Não é demais? O Dotô também adorou! Agora imagina construir bacteriófagos semelhantes aos do nosso intestino para tratar aquela infecção intestinal brava, bye bye bye antibióticos! Adeus efeitos colaterais. E o mais importante, vai contribuir para diminuir a resistência aos antibióticos! O Dotô gostou da ideia e é a favor de mais pesquisas que utilizem bacteriófagos, até porque ele está cansado de prescrições errôneas de antibióticos, de colegas de profissão que receitam antibióticos para qualquer coisa. Isso é o que eles chamam de “virose”, um conceito já debatido antes aqui no blog e que sempre é bom reafirmarmos. Viva os métodos alternativos!

GLOSSÁRIO:

Atividade antimicrobiana: Capacidade de inibir o crescimento de microrganismos bacterianos.

Bacteriófagos: Vírus que apresentam material genético de DNA e RNA que infectam somente procariotos, que são organismos que não apresentam membrana nuclear, diferentemente dos vírus que infectam eucariotos, que são organismos que apresentam membrana nuclear.  Possuem a capacidade de se invadir a bactéria e rapidamente se multiplicar, lisando a bactéria e liberando novos fagos (chamado de ciclo lítico). Ou então o material genético do bacteriófago pode se integrar ao material genético da bactéria, se multiplicando junto com o genoma da bactéria (chamado ciclo lisogênico).

Cultura de células in vitro: Células que se proliferam em garrafas de cultura em um ambiente controlado para simular o que acontece num organismo.

Escherichia coli: Bactéria mais conhecida que infecta o intestino. Porém, existem tipos de E. coli diferentes que podem vir a causar doenças, sendo a mais famosa a infecção intestinal, causando diarreia.

Imunoglobulina: Conhecido popularmente como anticorpo.  É importante para proteger o organismo de uma forma específica e mais tardia contra um microrganismo.

Microbiota: Bactérias presentes no organismo que contribuem para o seu bom funcionamento, além de fornecer proteção.

Resposta Imunológica Inata: Mecanismo do hospedeiro de se proteger imediatamente contra um microrganismo.

Trato gastrointestinal: Compreende o sistema digestivo humano, incluindo boca, faringe, esôfago, estômago, intestino delgado (formado pelo duodeno, jejuno e íleo), intestino grosso, (formado pelo ceco, apêndice, cólon e sigmoide), reto e ânus.